18 de abril de 2008


woman on her way home
matt murphy


Todo dia é primeiro de abril


Pesava pouco mais de 40 quilos, mas ao final do dia, sua alma indicava uns 200.
Acordar era difícil. Levanta, come alguma coisa – quando a náusea está mais amena – toma um banho e sai. Enquanto espera o ônibus pensa “o que estou esperando aqui? O que estou fazendo aqui, esperando?".
Mesmo assim pegava o ônibus e ia para o trabalho.

“Fulano é um ótimo médico, leve seu filho lá”. E Fulano havia sido acusado de pedofilia em 3 das 5 cidades onde morou.

“Essa farmácia é ótima! Credibilidade e qualidade que você só encontra aqui”. Mas o dono – na verdade – era um traficante, que vendia farinha pra evitar filhos e lexotan fantasiado de ass infantil.

“Uma cabeleireira com um olho mágico, 5 minutos e você tem o corte dos seus sonhos”. Na verdade você tem o corte por 5 minutos, depois seus cabelos vão começar a cair.

E depois de tanto mentir por profissão, ela cansava das pessoas que mentiam por vocação. Dava náuseas ouvi-las falar, sentia nojo de olhos recheados de falsidade, de sorrisos que só escondiam a punhalada pelas costas.
O que a confortava é que a sua vida – fora do trabalho – era de verdade. O amor, as amizades (àquelas mais de colo que de copo), o ombro da mãe, a cumplicidade da irmã, o choro, o riso, o abraço, a fome e o fastio, a insônia e o cansaço, a música e a dança.
A dor de mentir não amenizava no final do mês, mas era necessária porque – ao contrário do seu trabalho – suas contas eram todas verdadeiras e não aceitavam mentiras como desculpa!
Ela não tem sonhos de grandeza, o que ela quer mesmo é – num futuro breve – ter o dia mais preenchido com pequenas verdades que com grandes mentiras.

* Os clientes citados são de mentira. Mas que diferença faz?!


Sobremesa: "Na segunda-feira, parte da família foi para os seus respectivos empregos, já que é preciso morrer de alguma coisa". (Julio Cortázar)

11 de abril de 2008


eu quero paz...


Um galho de arruda para aliviar meu coração

Raquel Medeiros

Hoje estou me sentindo cansada, como quando era criança e minha avó dizia “essa menina tá ‘mufina’, se não for doença, é mau-olhado”. A doença não vinha, mas o cansaço não saía. Era uma moleza estranha, uma fraqueza para andar, para viver. Aí vinha minha avó, me rezar com um galhinho de arruda. Depois de umas palavras de amor e fé ditas bem baixinho (porque tem gente que acha que Deus é surdo) era o pobre galho que ficava ‘mufino’.

Em mim, já não havia mais peso... era uma sensação boa e leve. Ela falava com carinho e aquelas folhas percorriam meus braços, minha cabeça, minhas pernas, minhas dores. E ao final, levavam todas elas (as dores) embora pra algum lugar longe de mim.
Era um ritual mágico. Tinha que ser num lugar aberto (pra que a dor não se escondesse debaixo de algum armário, dentro de uma gaveta esquecida aberta). Tinha que ser de dia e, o mais importante, a reza tinha que vir de alguém com o coração cheio de sentimentos bons, e isso ela tinha de sobra...
Minha mãe diz que eu pareço com ela. Era pequena, teimosa, fumante, adorava café e detestava ameixas e mamão.

Costurava uns vestidinhos com um bolso interno, pra não ser assaltada ao sair do banco com sua pequena aposentadoria. Levava rosquinhas sempre que ia lá em casa. Um maço de cigarros para o meu pai e um agrado até para o cachorro. Fazia um cafuné tão bom que a gente fazia fila pra sentar no chão entre as suas pernas. Detestava que a fizessem de boba. Não fugia de briga, nem de festa. Andava sempre cheirosa e pintava o cabelo sozinha, no alto dos seus 86 anos.
Hoje estou me sentindo cansada. Queria uma reza com galho de arruda. Queria aquelas mãos enrugadas me fazendo cafuné.

Sobremesa: "Lembra o tempo que você sentia e sentir era a forma mais sábia de saber e você nem sabia?". (Alice Ruiz)

17 de março de 2008


desde cedo eu já trocava a noite pelo dia.

Texto para não dormir

Raquel Medeiros

O dia clareando a janela e meu sono difícil. Impossível adormecer as 6 e acordar bem às 7:30. “É melhor levantar de uma vez”, lamentei. E fiz. Tomei café, e enquanto fumava o primeiro cigarro do dia, veio o sono. Água fria nele!
Uma música, um carinho no cachorro, e lá vem ele de novo – o sono. Arrumo-me às pressas (pra evitar a elaboração de uma desculpa) e saio.

O sol inclemente lá fora. Sem pilha, sem música, sem paciência. Entro no ônibus. O cobrador reclama da coluna e me dá o troco sem responder meu bom dia. Acontece. Sento e quando o veículo começa a balançar menos sinto o peso nas pálpebras. “Acorda, Raquel, sua parada é a próxima”, constato.

Desço do ônibus, acendo um cigarro. O dia está lindo, mas quente como o inferno (e há quem pense que não é aqui). Chego ao trabalho, ligo o computador. Vejo emails, algumas notícias, a pauta do dia e levanto pra tomar um café antes que eu adormeça com a testa na tecla “z”.

Um café, um cigarro. Termino a minha pauta ainda de manhã. Um alívio seguido de um bocejo. Hora do almoço, Como pouco (o sono maior que a fome), volto para o trabalho (agora sim tenho certeza que o inferno é aqui). Sento no computador: nenhum email não lido, nenhum trabalho pra fazer, o dia muito quente (mesmo aqui dentro) para tomar o terceiro café.

“Melhor escrever pra passar o sono”, penso. Termino e agora não sei mais o que fazer pra ele ir embora. Acho que vou encarar o café quente.

Sobremesa: "Eu faço samba e amor até mais tarde e tenho muito sono de manhã". (Chico Buarque)

20 de fevereiro de 2008


"Um homem com uma dor é muito mais elegante
caminha assim de lado, como se chegando atrasado
andasse mais adiante". (Paulo Leminski)


Minha vida sem mim

Raquel Medeiros

Amigo,

Sei do que passas e me falas. Aqui do outro lado não é diferente. Mudam as perdas, a temperatura do dia e as aflições cotidianas. No mais, acordo toda manhã com o pensamento de que está tudo bem – desejando com todas as forças (que às vezes perco no decorrer do dia) que fique mesmo tudo bem.

Te falei que sempre descubro outras de mim. È como uma pequena morte. Importa que não nos esqueçamos de que(m) sempre fomos e somos. O que me preocupa é a constatação de que o livre arbítrio não é tão livre pra nós.
Nessas horas é melhor pensar que sempre morremos um pouco pra nascermos melhores. E nesse caso, um ciclo se cumpre. Não vasculhe as xícaras quebradas que já não te servem café como antes. Guarde na caixa das coisas antigas, que ganham beleza por não estarem inteiras. O inacabado tem lá seu charme quando nos convencemos de que não foram mesmo feitos para ter um fim.
Já o começo - sempre difícil – traz de um lado a inabilidade de aprender a andar, pensar, escrever, sentir. De outro lado, traz a novidade, o olhar voltado para dentro e para frente. Adiante e avante, amigo!

Isso tudo aqui pode parecer palavra que sai fácil. E saiu, pois desta vez não sou eu quem sai do casulo depois de uma turbulência. Sei que estás um tanto perdido, confuso e armado até os dentes com uma faca cega. Entendo perfeitamente.
Quando isso me ocorre, eu tomo um café, acendo um cigarro – sei que não és deste vício – e ouço alguma música numa voz feminina, como um aconchego uterino. Um lugar quente e seguro, de onde meu novo eu sai e sofre com o frio. Mas o sol arde lá fora. Enquanto estivermos vivos, amigo, há sempre a redenção.

Para Diego.

Sobremesa: "Coisa dolorosa feita de barro e poeira/ o homem no seu quarto, de noite, pelejando pra escrever no papel/ com lápis, nó e tropeço, a dor do seu peito."(Adélia Prado)

19 de fevereiro de 2008


in the car - roy lichtenstein


Lembranças de viagem em três atos

Raquel Medeiros

Primeiro ato
Lembro de quando chegamos num novo destino. As malas bem arrumadas para não amarrotar meus vestidos, nem suas camisas. Compartilhamos o xampu, o creme dental e o espelho. Abrimos um vinho – ou cerveja, ou mesmo uma água sem gás – e brindamos o começo. Bebemos e acendemos nossos cigarros. Agora há um silêncio mútuo, um olhar cúmplice, um beijo apaixonado e o infinitivo 'enquanto durar'.

Segundo ato
Lembro das malas desarrumadas. Suas cuecas espalhadas e eu ainda tentando colocar alguma ordem como se aquele lugar fosse nosso quarto, nossa casa. Passamos o dia com uma preguiça inerente. As forças concentradas no corpo – do outro.

Terceiro ato
Lembro do nosso banho rápido, onde já nem conto teus sinais. Das roupas sendo jogadas sem paciência de volta à mala. A vontade de ficar e a porta que abre lentamente. Estamos indo para sempre.

Sobremesa: "O amor é uma agonia/ vem de noite/ vai de dia/ é uma alegria e de repente uma vontade de chorar".(Vinícius de Moraes)

28 de janeiro de 2008


people in the sun - edward hopper, 1960.

Música para um dia de verão.

"Quando penso nos amores virtuais
Nas maquininhas digitais
Fico sem saber como fazer pra me convencer
O genoma e os neurônios saltitantes
Ficam alegres e falantes
O futuro até parece com uma patada de elefante
E a natureza serve só para combustível
E tudo o que deixamos queimar, sem se importar
Parece que perdemos o senso e o juízo
E agora o mundo vai se esquentar".
(futurismo - kassin +2)

Pra quem quiser ouvir mais dos moços.
http://www.myspace.com/morenodomenicokassin2

Sobremesa: qualquer picolé de fruta, de preferência com um ipod dentro. ;)

24 de janeiro de 2008


Room by the sea - Edward Hopper 1951

Eu que não esqueço
Raquel Medeiros

Eu não passo naquela rua do Cabo Branco sem lembrar do seu all star verde, das suas malas de madeira, dos retratos e desenhos em preto e branco, das viagens em terra, das descidas até o chão, dos goles, das risadas, dos abraços, das lágrimas, do pão de queijo, de ver o sol descer e a lua nascer do alto do prédio, do cheiro de incenso, da imagem de São Francisco de Assis, do aparelho de dvd que nunca funcionava, das mulheres de Chico, da angústia de Clarice, do cinzeiro-ninho das nossas fobias, dos tragos debaixo do jambeiro, das xícaras de café com açúcar, afeto e um silêncio cúmplice, do banho de mar-que-afasta-uruca que nunca tomamos e dos encontros e desencontros dos quais não escapamos.

Eu sinto tanta saudade que a memória às vezes falha, e cria histórias que não contamos e fatos que não vivemos.

Eu não passo naquela rua do Cabo Branco sem lembrar de mim.

Sobremesa: "Once there was a way, to get back home". (The Beatles)

11 de janeiro de 2008


Maria tinha uma pedra, um sapato e um caminho.
No meio do caminho a pedra entrou no sapato
e Maria nunca alcançou o céu. (Raquel Medeiros)

Strangers in the night
Raquel Medeiros

Quando eu e Julio nos encontramos na solidão do quarto, somos amantes contrários. Ele chega com a calma, sem a pressa de responder minhas perguntas (e são tantas!), com uma tranqüilidade admirável e intrigante. Eu chego com a ansiedade (as mulheres no geral sempre querem que o dia chegue à véspera), com a náusea a ser curada, com o vazio a ser preenchido. Mas chegamos os dois, assim como Oliveira e a Maga, sem nos procurar, mesmo sabendo que deveríamos e que vamos (inevitavelmente) nos encontrar.
Eu sigo suas indicações e me emociono “como pode um estranho saber tanto de mim?”. Da desordem que começa na minha bolsa e que se estende às questões sentimentais. O Julio sabe que o único caminho certo é o do sangue nas veias, e que todo o resto se move como num jogo de amarelinha. Um chão riscado, uma pedra na mão e fé no passo – onde quer que ele nos leve. Encontraremos o céu?

Sobremesa: "E, se nos mordermos, a dor é doce/ e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela/ E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura/ e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água". (Julio Cortázar. O Jogo da Amarelinha, capítulo 7).

23 de novembro de 2007


Gossip face - Muntsa Vicente

Amarcadamarca
Raquel Medeiros

Amar cada marca
Amar cada mar cá
Amar cá, dá marca.

Sobremesa: "só doer/não é dor/delícia/de experimentador" (Paulo Leminski)

30 de outubro de 2007



Portrait of the devil and his fingers
Joe Sorren

Retalhos do cotidiano sem backspace
Raquel Medeiros

“Computadores são demônios que as redações de jornal e as agências de publicidade usam pra infernizar a vida da gente”.
Acabo de ouvir isso de um cliente que, apesar da barba e cabelos grisalhos, não deve ter mais de 46 anos. Ele conseguiu me provar por a + b que não faz a mínima idéia do que fazer com essas criaturas sem chifre.

- Posso mandar um e-mail do seu computador?
- Claro. Fique à vontade.
- E como eu mando esse cartaz por e-mail?
- É só anexar.
- E como eu faço isso? Aliás, você faria isso?
- Faço sim, mas o arquivo está em corel. A pessoa pra quem você quer enviar tem corel?
- Não sei. O que é corel?
- Não vai por e-mail, muito pesado o arquivo.
- O que eu faço então?
- Reza.

Sobremesa: Eu adoro esses demônios que se instalam – alguns muito velhos e já sem tanto poder assim – nas redações, agências e todos os lugares (in)decentes do mundo. E me deleito com os ricos clientes mortais tão medrosos, tão teimosos, queimando no fogo do inferno, em meio a esses muitos e inevitáveis demônios. (Raquel Medeiros)

9 de outubro de 2007


Duas colheres de ânimo para começar o dia.

Amanhã não se sabe
Raquel Medeiros

“Não se afobe não, que nada é pra já”. Chico repete isso no meu ouvido e eu me repito como um mantra. Eu sofro de uma ansiedade quase doentia: minhas unhas estão ruídas, minhas olheiras estão enormes, minha insônia é visita constante e aqui e ali tenho ostentado um cigarro entre o indicador e o dedo médio. Mas não adianta, já diria o Leminski - que os problemas têm família grande - e cá estou eu a fazer sala para todos eles.

Não quero aqui fazer um texto pra chorar minhas pitangas, pois há coisas boas acontecendo neste tempo de semi-exílio. Tenho fumado menos que antes (apesar da angústia), tenho saído menos (e me poupado de companhias e ressacas indesejáveis), tenho dado passos – pequenos, porém firmes – para um projeto que sempre quis. Logo vocês vão saber. Tenho essa mania – agora, depois de velha – de ser mais cuidadosa em falar sobre meus planos, pra evitar a fadiga e o mau-olhado (depois de velha a gente também começa a acreditar em certas coisas).

Hoje não tem poesia, nem prosa. Só um feijão com arroz que tenho requentado nesses últimos meses. Mas sinto um gosto bom na boca, uma sensação boa no peito. É, além de uma fumante ansiosa, eu sou otimista. E apesar de ter dias – constantes – em que queria ficar invisível e deixar de ser substantivo – tristeza e dúvida -, acredito que ainda posso ser verbo – ser muito mais.

Sobremesa: "Se o tempo passou, espero que ninguém me leve a mal/ mas se o samba quer que eu prossiga/ eu não contrario não/ com o samba eu não compro briga/ do samba eu não abro mão". (Chico Buarque)

2 de outubro de 2007


"Mulher é desdobrável". (Adélia Prado)

As Três Marias
Raquel Medeiros

Maria das Dores
Não tinha pai nem mãe
Não sabia ler nem escrever
Mas carregava uma trouxa de roupa como ninguém
Lavava copo, prato e colher.
Enquanto vê seu reflexo no fundo da panela
Uma gota de suor escorre no rosto
Mas não há espaço para cansaço.
Nunca teve relógio
Mas sabe como o tempo é curto para tanto trabalho.
Enquanto torce a roupa ela chora sua sorte
E pensa na filha que carrega no ventre
“Antes de nascer já de bucho encostado no tanque”.

Maria Aparecida
Filha de Maria das Dores
Não tinha pai
Nasceu no quarto dos fundos
Sabia escrever o nome, mas não sabia ler
Cozinhava como ninguém
Vaca, boi, bode e o que viesse
Não tinha bicho que não morresse
Na ponta da sua faca
Não tinha gente que não a admirasse
Na ponta do garfo
Enquanto junta as penas da galinha
Sente pena da barriga já crescida.
“Cá estou eu com outra Maria no bucho”.

Maria do Socorro
Filha de Maria Aparecida
O pai foi assassinado
Apareceu no mundo antes do tempo
Aprendeu a ler e a escrever antes dos 5 anos
Cresceu e logo aprendeu a manusear arma
Não lavava, não passava
Não sabia cozinhar nem polir panela
Mas tinha sempre uma bala na agulha
E um olhar afiado
Não tinha gente que não tivesse medo dela
José foi morto na mira do seu olhar
E enquanto chorava, alisava a barriga
“Que esta Maria tenha mais sorte na vida”.

Sobremesa: "Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento/ e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas/ Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam/ mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar/ e quem chegar perto pega fogo". (Eduardo Galeano)

20 de setembro de 2007


Winter’s here
And there ain’t nothing gonna change. (Beth Gibbons)

Lamento
Raquel Medeiros

Noite. Ela construindo na mente cada detalhe. Primeiro foram os ombros... ah! Como queria encostar a cabeça naquele ombro e ver a vida passar como num filme. Os braços, armas de um abraço infalível. Como era difícil e doído pensar e não ter. Imaginar e não sentir.
Cada pormenor surgindo como num plano detalhe que vai abrindo e revelando todas as virtudes e discrepâncias (a essa altura tão bem-vindas). Lembrou que ele adora essa palavra – discrepância. Lembrou que o lugar ao seu lado continuava vazio.
Ainda havia uma esperança de dormir. E de encontrá-lo, quem sabe, num sonho. Mas não. O contraste das nuvens no céu ficando cada vez maior. A saudade que latejava no peito dela também.
Onde ele estaria agora? Seria possível promover hoje um encontro com o futuro? Ela sabia que não. Já era dia.

Sobremesa: Teu olhar mata mais do que bala de carabina/ que veneno extriquinina/ que pexeira de baiano/ teu olhar mata mais que atropelamento de automóvel/ mata mais que bala de revólver. (Adoniran Barbosa)

21 de agosto de 2007


"I know I stand in line until you think
you have the time to spend an evening with me"
Something stupid – Nancy Sinatra

Jogo
Raquel Medeiros

Eu aqui tentando escrever sobre antropologia e ele sai com essa. “Vamos jogar...”. Eu precisava terminar o capítulo, pelo menos o parágrafo. Fiz de conta que não ouvi e que não queria. Mas ele me conhece e insistiu. “Vamos jogar...”. Eu abandonei o parágrafo e o Lipovetsky e sentei na frente dele. “O que você quer jogar?”, falei num tom desafiador. Ele me olha dizendo que minha tática não vai funcionar, desconfio que ele sabe exatamente o que fazer e tem uma certeza irritante de que eu vou gostar. Confesso que adoro quando ele me deixa assim, me excita ainda mais.

- Então, esse jogo não vai começar?
- Já começou. Diz ele.

Ainda não entendi bem qual o jogo, mas antevejo o intuito e gosto. Deixo-me levar pelas cartas que ele tem na manga, e alguns territórios já começam a ser tomados. Eu reluto, sem muito afinco. Ele é um ditador e me castiga por não obedecer as suas ordens. Admito que ele fica ainda mais charmoso na fantasia de carrasco.

Agora que já conheço o jogo, tento inverter os papéis e consigo. Ele me olha com surpresa e com uma felicidade que ele não admite, mas sente. Provoco batalhas, verdadeiros bombardeios em todos os nossos sentidos. Agora estamos de igual pra igual. Uma guerra declarada, o inferno. O calor é tão grande que o mundo evapora, o tempo se desfaz em relógios que derretem como uma pintura de Dalí. Surreal, mas, sobretudo humano. Exaustos, sorrimos ao final de um duelo sem perdedor.

Venho para o computador, e enquanto escrevo esse texto, ouço sua voz rouca entre um gemido e outro, acabando de acordar. “Vamos jogar...”.

Sobremesa: "O amor é o único jogo no qual dois podem jogar e ambos ganharem”. (Erma Freesman)

31 de maio de 2007


Ela não sabe quanta tristeza cabe numa solidão.
(Baden Powell e Vinicius de Morais)

*imagem de Joe Sorren.

Tudo embrulhado
Raquel Medeiros

Ando enjoando de tudo. Enjoada de tudo. Uma vontade de vomitar quando olho olhos rasos, sorrisos falsos e abraços desonestos. Eu odeio gente desonesta. Na fala e nos gestos. Vontade de vomitar quando ouço (começar) elogios rasgados e rasgáveis.

Argh! Odiar é forte demais, mas é preciso. É preciso navegar, odiar, amar, ser forte e dar com os ombros, com os pés, com as mãos e com silêncios aos barulhos que nos vão atrapalhando o caminho. Antes fossem pedras! Pelo menos daria pra riscar uma amarelinha no chão e tentar chegar ao céu num pé só.

Ando com desejo de tudo. Uma vontade de comer a vida, pedacinho a pedacinho. Ora devagar e com cautela; ora ávida e com urgência. Vontade de devorar cada palavra, abraço e afago amigo. Mastigar música com as pernas. Saborear as palavras, sentindo cada combinação de sílabas, doce ou salgada. Beber a saliva, o suor, o vinho e a lágrima.

Entretanto há os indigestos e desafetos. E esse feto que (me parece) há em mim, já vem com 32 dentes que rasgam minhas vísceras como um veneno de rato. Já vem com dores e odores que me deixam um tanto enjoada. Volto ao início.

Sinto as contrações e contradições. Vou ali parir uma dor, uma lágrima, uma dúvida. E quem sabe nasça em mim algo melhor.

Sobremesa: "Se não tivesse o amor/ se não tivesse essa dor/ e se não tivesse o sofrer/ e se não tivesse o chorar/ melhor era tudo se acabar". (Baden Powell)

29 de maio de 2007


Pedro perdido esperando o pôr-do-sol
num dia nublado.

Pedro Perdido
Raquel Medeiros

A esperança perdida
num bilhete premiado
permanece pobre pedro lascado
perdido num monte de dívida.

O filho caçula perdido na praia
a mulher perdida no ônibus errado
com bala perdida na cara.

Perdeu até a rima
perder de cabo a rabo
parece mesmo sua sina.

Sobremesa: "Só não vá se perder por aí" (Mutantes)

2 de maio de 2007



*montagem - Leonardo Soares

Lembra do Haroldo?
Raquel Medeiros

Haroldo era um grande empresário. É verdade que existem “muitos” por aí, mas ele sim, era dono de uma grande e bem-sucedida empresa de fraldas descartáveis. “Ninguém quer limpar urina e merda, nem deixar de ter filhos”, pensava ele. E não estava de todo errado. Dinheiro entrando aos montes. Soberba sobrando aos potes.

Haroldo não tinha filhos. Nem os queria, aliás, nada nem ninguém que viesse depois usufruir toda a sua fortuna.

Um dia Haroldo viajava para Petrópolis em sua BMW. O modelo não importa. O que importa é que Haroldo bateu com o carro numa velocidade que era quase impossível acreditar que ele tenha saído com vida. Mas saiu. Paraplégico.

Depois do acidente Haroldo enclausurou-se em sua mansão, num condomínio fechado por ele e só dele. Comprou uma cadeira de rodas que só faltava jogar cartas e passou o resto dos seus dias sendo chupado por putas que ele pagava e xingava, e elas, como vingança, esperavam que ele estivesse próximo do gozo, se distanciavam e ficavam rindo da cara dele. Pobre empresário rico, o Haroldo.

Sobremesa: "Mas problemas não se resolvem/ problemas têm família grande/ e aos domingos saem todos a passear/ o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas". (Paulo Leminski)

13 de abril de 2007


foto de Penha que Juracy guarda até hoje.

Penha e Juracy
Raquel Medeiros

Juracy e Penha trabalhavam no mesmo pronto-socorro. Ela, atendente. Ele, operador da máquina de raio X.
- Faz um raio X de mim, Juracy.
Ele fez. E se apaixonaram. Juracy pôde conhecer muito mais coisas da Penha do que dava pra ver no exame - as angústias, os medos, os desejos e uma vontade louca de casar.
Mas o romance não durou muito. Penha pediu demissão quando viu Juracy fazendo um raio X numa mulher bem mais nova que ela.
Juracy ainda trabalha no mesmo pronto-socorro, e continua sem saber o que fazer com a aliança que havia comprado pra pedir Penha em casamento.

Sobremesa: "Mas foi uma ilusão/ uma insensatez/ há que pôr o chão nos pés". (Chico Buarque)

29 de março de 2007



* imagem - Yuko Shimizu

Desabafo de um homem recém-chegado às ruas daqui
Raquel Medeiros

Eles levantam mas não acordam.

De dia essas ruas se enchem de olhos cansados
Zumbis de passos automáticos
Distraídos e descuidados.

Eles dormem mas não descansam.

À noite essas ruas se enchem de olhos risonhos
Tão cheios de graça
Tão vazios de sonho.

Eles vivem mas não sentem.

Sobremesa: "Ilusora de pessoas de outros lugares/ a cidade e sua fama vai além dos mares". (Chico Science)

19 de março de 2007


ilustração de John John Jess

[Trecho]
Dalton Trevisan

Ao tirar a calcinha, ele rasga. Puxa com força e rasga. Vai por cima. Ó mãezinha, e agora? Com falta de ar, afogueada, lavada de suor. Reza que fique por isso mesmo.

Chorando, suando, tremendo, o coração tosse no joelho. Ele a beija da cabeça ao pé — mil asas de borboleta à flor da pele. O medo já não é tanto. Ainda bem só aquilo. Perdido nas voltas de sua coxa, beija o umbiguinho.

Deita-se sobre ela — e entra nela. Que dá um berro de agonia: o cigarro aceso na palma da mão. Mas você pára? Nem ele.


Sobremesa: "Se é canto de Ossanha não vá/ que muito vai se arrepender". (Baden Powell/ Vinícius de Moraes)