30 de dezembro de 2005



"Luiza e Tomé", por Henri Cartier Bresson


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Sebastian

Através de um código, Luiza e Tomé sabiam exatamente a hora do encontro. Era sempre numa casinha afastada de onde trabalhavam. Era um casinha simples, de poucos quartos. Tão obstinados que eram, alugaram a casa e reformaram. Ninguém sabia. Só Luiza e Tomé. Colocaram uma cama e um som para satisfazer o lado bom da vida. Luiza fez questão de haver uma cozinha funcional. Tomé exigiu uma pequena adega. Na verdade, não se conteram. Pintavam uma parede, compravam um cd. Compravam uma planta, tiravam fotos e penduravam nas paredes. Ali era como a casa de árvore que toda criança sonha em ter. Um lugar secreto, só deles. E era tudo como sempre sonharam. Mas faziam sem perceber. Pintaram a parede do quarto de leitura de verde. Compraram estante, livros, poltrona, luminária. Panelas, garfos, facas, temperos, geladeira, fogão, bebedouro e até quatro lixeiros (o Tomé é desses preocupados com reciclagem). Compraram guarda-roupas, roupas, lençóis, edredons, algemas, lenços e mais lenços e um cabide lindo. Uma mesinha de madeira, jogos, abajus, pufes, televisão e um pequeno dvd. Depois de uns meses compraram um berço e pararam um de frente para o outro. "Onde estamos?", perguntou Luiza. "De vida feita", respondeu calmamente o Tomé. Luiza deu um sorriso maroto e alisou a barriga.

Sobremesa: "Quando passamos um pelo outro/ tu me dás o prazer de teus olhos, do seu rosto, da tua carne/ e eu te retribuo com o prazer do meu peito, das minhas mãos, da minha barba". (Walt Whitman)

26 de dezembro de 2005





















Madonna - Kenneth Andersson

* À mulher mais admirável que eu conheço. Da Paz no nome, e na alma.

Paz
Raquel Medeiros

Sonha. Alimenta. Gera. Cria. Trabalha. Acalenta. Constrói. Cuida. Sente. Pensa. Ri. Chora. Insiste. Enfeita. Encanta. Luta. Vence. Verbos traduzidos por um substantivo único. Feminino e singular. Mãe.

Sobremesa: "Moça, olha só o que eu te escrevi/ é preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê". (Los Hermanos)

15 de dezembro de 2005

Elliot's attraction to all things uncertain
(Joe Sorren)

Classificados
Raquel Medeiros

Compro um ano novo, 2006, com muitas portas e janelas. Com ar quente na nuca e ar frio na rua. Travas elétricas para palavras que não devem ser ditas e tapas que não devem ser dados. Alarme para os inimigos. Air bag para o perigo dos maus pensamentos. Tração nos braços e pernas para sair das situações difíceis. Bancos sem encosto e sem mau-olhado. Cintos de segurança para os dias turbulentos e teto solar para espantar o mofo da alma. Direção variável e chave de ignição codificada para o coração. Pago à vista pra receber em 12 prazerosos meses. Tratar com a proprietária deste vale.

Sobremesa: "Esperando a festa, esperando a sorte, esperando a morte, esperando o Norte/ esperando o dia de esperar ninguém, esperando enfim, nada mais além da esperança aflita, bendita e infinita do apito de um trem". (Chico Buarque)

26 de novembro de 2005




















Júlio Cortazar e um de seus gatos.

Rayuela - trecho (capítulo 5)
Júlio Cortázar

Essa vez, e só essa vez, excitado como um matador mítico para quem matar é devolver o touro ao mar e o mar ao céu, maltratou a Maga numa longa noite da qual pouco falariam mais tarde, fez dela Pasífae, dobrou-a e usou-a como a uma adolescente, conheceu-a e exigiu-lhe as servidões da mais triste puta, magnificou-a em constelação, teve-a entre os braços cheirando a sangue, fê-la beber o sêmen que corre pela boca como um desafio ao Logos, chupou-lhe a sombra do ventre e do sexo, erguendo-a depois até o seu rosto, para untá-la de si mesma, numa ótima operação de conhecimento que só o homem pode dar à mulher, exasperou-a com pele e pêlo e baba e queixumes, esvaziou-a até o máximo da sua magnífica força, lançou-a contra um travesseiro e um lençol e sentiu-a chorar de felicidade contra seu rosto, que um novo cigarro devolvia à noite do quarto e do hotel.

Sobremesa: "Nem tudo estava perdido/ que dos dois dependia tentar um encontro legítimo/ agora ela conhecia as regras do jogo/ talvez nos fossem favoráveis dado que não faríamos outra coisa senão nos procurar." (Júlio Cortázar)

19 de novembro de 2005




















Sphere port - MC Escher

Regulamento
Raquel Medeiros

No meu andamento
Passo lento
No rosto, o vento
No corpo, o tempo.

No meu comprimento
Corte e caimento
Fora, passatempo
Dentro, pensamento.

No meu centro
Eterno confrontamento
De um lado, intenso
De outro, isento.

No meu comportamento
Justo dicernimento
Aos amigos, reconhecimento
Aos inimigos, esquecimento.

No meu sentimento
O coração oriento
À dor, esmagamento
Ao amor, comprometimento.

No meu julgamento
Rimas argumento
Acerto, com intento
Erro, sem lamento.

No meu falecimento
Perfeito acabamento
Aos segredos, convento
Aos desejos, cumprimento.

No meu regulamento
Regras invento
Atenuo o envelhecimento
Acentuo o renascimento.

Sobremesa: "Eu vim com pão, azeite e aço/ Me deram vinho, apreço, abraço/ o sal eu mesmo faço." (Millôr Fernandes)

2 de novembro de 2005




















"Para a mesa que vai ser posta,
para você o que você gosta: diariamente."
(Marisa Monte e Nando Reis)


* Outdoor da Calvin Klein. Foto por Steven Klein.

As marcas do amor
Raquel Medeiros

Coca-cola de segunda à sexta. Uma taça de Merlot no sábado à noite, antes do prato principal, naquele restaurante italiano. Mais tarde, uma cama comprada na Tok&Stok, com lençóis de seda para beijos altos e tato apurado. Chet Baker no nosso Phillips. Domingo de manhã, maçãs e morangos comprados num pequeno supermercado perto de casa. À tarde, ver um filme no nosso Sony. Preguiça. Gula. Cobiça. Luxúria.

Um machucado no peito. Merthiolate spray na ferida. Já vem com sopro. Não dói, mas também não sara. Não pára. Não cala. Palavrões retirados de um texto de Millôr, devidamente cuspidos no rosto protegido com Sundown 15 FPS. Protege do sol, mas não protege do incêndio.

Tristeza e decepção afogadas em garrafas de Johnnie Walker Red e um maço do novo Free. Agora free. Agora só. Nenhuma mensagem. Nenhuma chamada não atendida no Siemens MC 60. Portishead ao vivo em Roseland. Tragos entre agudos e graves. Saudade aguda. Tristeza grave. A solidão do gato de um livro de Cortázar. Corta os pulsos com Gillette cega. Esgota-se como um conta-gotas. Não morre. Estanca o sangue com um coagulante da Roche. Estanca a vida, mas não estanca a dor. Adormece com dois comprimidos de Neozine. Acorda depois de três dias, calça um par de Havaianas, porque depois de tanto cinza, fez um dia de sol.

Sobremesa: "Para brincar na gangorra: dois". (Marisa Monte e Nando Reis)

25 de outubro de 2005














Audrey Tautou e Mathieu Kassovitz em

Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain

Taquicardia
Raquel Medeiros

Se é dia, espero
Se é noite, exaspero.

Pernas que vacilam
Tez que enrubesce
Esse desejo sempre cresce
Nas minhas mãos
Que oscilam.

Se é dia, espero
Se é noite, exaspero.

Que o amor não me cegue
Mas me cerre os olhos
E quando a noite
Pintar o céu de negro esmalte
Que o amor me agarre
E não me solte.

Se é dia, espero
Se é noite, exaspero.

Que a mão que afaga
Me apedreje
Em dias masoquistas
E que despeje em minha pele
Todas as suas
Vorazes carícias.

Se é dia, espero
Se é noite, exaspero.

Que não seja prisão
Que não seja missão
Que não seja obrigação
Que seja sina
Que seja rima
No íntimo coração

Se é dia, espero
Se é noite exaspero.

Que seja viril
Que seja charmoso
Como música no vinil
E que por hora temeroso
Jamais seja vil.

Se é dia, espero
Se é noite, exaspero.

Que me acalente
Que me tente
Sereno na dor
Ardência,
Me livre de qualquer amor
Que não seja febril.

Se é dia, espero
Se é noite, exaspero.

Que nem sempre seja alinhado
Que haja aqui e ali
Uma bifurcação na estrada
E que seja o sujeito nunca indeterminado
Da minha ação mais desejada.

Se é dia, espero
Se é noite exaspero.

Sobremesa: "We were talking.../ about the space between us all/ and the people/ who hide themselves behind a wall of illusion/ never glimpse the truth/ when it's far too late... when they pass away.../ We were talking about the love/ we all could share/ when we find it.../ to try our best to hold it there (with our love)/ with our love we could save the world/ if they only knew..." (The Beatles)

16 de setembro de 2005























"Para um substantivo pobre
Só um predicativo nobre
Aufere graça ou ilusão."
(Julliana Veloso)


Looser
(Raquel Medeiros)

Quem perde a asa
E ainda quer ser passarinho
Não merece um ninho
No quintal da minha casa.

Quem perde o respeito
E ainda quer ser amado
Não merece afago
Nem lugar no meu peito.

Quem perde a passagem
E ainda quer ser visita
Não merece a vista
No percurso da viagem.

Quem perde a esperança
E ainda quer ser lembrado
Não merece ser retrato
Na minha lembrança.

Quem perde o trato
E ainda quer ser enfeitado
Não merece cuidado
Nem delicadeza do meu tato.

Quem perde a razão
E ainda quer ser alcançado
Não merece ser amparado
No momento do furacão.

Quem perde a qualidade
E ainda quer aquisição
Não merece renovação
No prazo de validade.

Quem perde o essencial
E ainda quer ser o foco
Não merece lugar no bloco
Do meu carnaval.

Quem perde a garantia
E ainda quer ser sina
Não merece doçura da minha rima
Só merece o desprezo da minha poesia.

Sobremesa: "Tem sempre o dia em que a casa cai/ pois vai curtir seu deserto vai/ mas deixa a lâmpada acesa/ se algum dia a tristeza quiser entrar/ e uma bebida por perto/ porque você pode estar certo que vai chorar." (Vinicius de Moraes e Toquinho)

6 de setembro de 2005













"I'm so tired of playing
playing with this bow and arrow" (Portishead)

* Na foto, Beth Gibbons.

Naquele bar
Raquel Medeiros

Encontraria o amor naquele bar? Putas disputavam com travestis a atenção dos poucos homens que estavam lá. Desses poucos alguns não viam água e sabão há pelo menos três dias. Mas o que importava? Ela não queria casamento, nem filhos, nem casa hipotecada. Queria amor. E amor não precisa de cerimônias.
Era um bar deprimente. Luz pouca, balcão sujo, e uma velha máquina no canto tocando alguma coisa do Roberto. Uma música antiga, e pra ela, desconhecida.
Ela não era lá de se jogar fora. Um vestido vermelho, sedutor até certo ponto. Já gasto, já largo para o pouco corpo. Pernas finas cambaleavam num salto. O movimento desajeitado lhe emprestava algum charme, parecia elegante caminhar como se estivesse numa corda bamba.

Num canto do bar, um senhor calvo, magro. Boa aparência, barba feita. Bebia tequila e fumava um cigarro de menta. Era o que se podia chamar de uma pessoa sem rótulos. Não que isso fosse essencialmente bom. É como um vinho que você não sabe a procedência, e conseqüentemente não sabe se o tempo o fez ficar mais saboroso ou com gosto de vinagre.
Depois de algumas doses, ele chorava e falava de ter tido poucas mulheres, que lhe dedicavam palavras indecentes à noite e pela manhã sua carteira tinha algumas notas a menos, alguns objetos a menos no seu apartamento já tão vazio. Seu peito com um vazio a mais. Ele não queria casamento, nem filhos, nem cheiro de lavanda nos lençóis.Queria amor. E amor não precisa de grandes provas.

“Tem uns quartos ali atrás. Bem baratos e razoavelmente limpos”. Ela foi.Uma cama.Um ventilador barulhento. Uma luz amarelada. Tiraram os sapatos e deitaram. Um ao lado do outro. Ela olhava para o ventilador e pensava quantas voltas ainda teria que dar até que algo mudasse. Em seguida, deu um longo suspiro. Estava cansada das tantas noites que terminavam num quarto atrás de um bar. Mas ali, ao lado do homem sem rótulos, ela se sentia bem. Havia alguma mágica entre eles. Não eram duas pessoas que amenizavam a solidão um do outro. Era uma solidão conjunta, ainda assim grande, mas parecia melhor do que estar completamente só. Talvez fosse o amor. E amor precisa de cumplicidade.

Sobremesa: "Nobody loves me/ it's true/ not like you do" (Portishead)

1 de setembro de 2005














The second life of Samuel Tyne - Matt Murphy

De um gole só
Raquel Medeiros

Ele levanta e vai ao bar
Lá discute o futebol
A crise instalada
A reforma no banheiro
Tantas vezes adiada.

Ele trabalha e vai ao bar
Lá bebe a cachaça
Mas nada é de graça
Pelo menos o dinheiro da pinga
Ele precisa ganhar.

Quando volta do bar
Equilibrista nato
Eu já estou tão farta
Que quase enfarto
Só de vê-lo chegar.

Pede que lhe sirva o jantar
Eu cá nas minhas preces
“O que fiz pra merecer essa vida?”
E ponho mais um pouco de comida
No prato que depois vou lavar.

Sobremesa: “Quando a noite enfim lhe cansa/ você vem feito criança/ pra chorar o meu perdão/ qual o quê/ diz pra eu não ficar sentida/ diz que vai mudar de vida/ pra agradar meu coração/ E ao lhe ver assim cansado/ maltrapilho emaltratado/ como vou me aborrecer/ qual o quê/ logo vou esquentar seu prato/dou um beijo em seu retrato/ e abro os meus braços pra você”. (Chico Buarque)

27 de agosto de 2005















Ilustração de Mark Riden

Out of season
Raquel Medeiros

“And many rains turn to rivers
Winter’s here
And there ain’t nothing gonna change”

Doses cavalares de coragem pra levantar da cama mais trinta e cinco minutos de resistência e a dor de mais um dia começa a diminuir. Um pé na frente do outro pra qualquer lugar, que até para o precipício é preciso dar o primeiro passo.
Nas ruas, as pessoas estão sempre indo, vindo, chegando, saindo, esperando. Espera passar a chuva pra sair de casa. Espera o ônibus. Espera que a fome chegue ao meio-dia, e que o cansaço vá embora às duas da tarde. Espera que à noite haja algo melhor do que essa espera, algo que compense esse eterno ir e vir. Pode ser amor, ilusão, embriaguez, análise.
À noite, as ruas se enchem de olhares aflitos, de olhos famintos, de cigarros solitários, de corações remendados. Todas essas pessoas com um vazio que tem a audácia de querer ser preenchido. Um vazio personificado como uma divindade.

“Everybody knows this time
shadows are drifting in silence
where lost can’t be found
everybody knows this time.”

É frio que fogueira nenhuma aquece. É insônia que remédio nenhum resolve. Essa velha saudade que vem desde o dia que se descobre que veio do ventre da mãe e que não pode mais voltar pra lá. Esse choro. Essa água de lágrima onde peixe nenhum consegue nadar, pois peixes não nadam em cachoeiras.

Sobremesa: "Que seja agosto/ ao meu mais fiel gosto/ sem receio de ser exposto/ posto e deposto/ e mesmo no desgosto/ seja sempre ao meu fiel gosto." (Raquel Medeiros)

* As músicas são, respectivamente, "Funny Time Of Year" e "Sand River", da Beth Gibbons.

18 de agosto de 2005

Michelle Pfeiffer e John Malkovich no filme
Ligações Perigosas.

It’s a fire
Raquel Medeiros

Passou a língua na nuca dele como se estivesse lambendo uma gota de sorvete que escorreu pela casquinha. Delicioso aquele pescoço. Visão do paraíso com o ardor do inferno. Quarenta graus na sombra.
Música no vinil. Os estalos do disco encobriam os beijos altos. Festim de palavras indecentes, ditas em tons agudos e graves. Melodia ascendente de gemidos e sussurros.
Falta de senso. Incenso. Incêndio.
Ela derretia com o toque dele como uma pintura de Dali. Goya. Glória.
Líquida e salgada, provocava ainda mais sede. E ele a bebia como um vinho de boa procedência, guardado na melhor adega, para a ocasião perfeita.
Lutam como se o prazer do outro fosse um território a ser explorado à exaustão. Investigação com indicações óbvias. Sêmen. Suor. Saliva. Sorriso.
Embriagados. Extasiados, se aninham nos braços um do outro. Descansam. Olhos nos olhos. Insones. Insanos. O desejo não cessa. Recomeça a música. Provocaram rimas. Gozaram versos. E quando o sol já aplicava tons claros no esmalte preto da noite, eles tinham incontáveis poesias desvairadas. Incansáveis odes proclamadas. Inspiração e ansiedade na espera de mais uma madrugada.

Sobremesa: "Eu faço samba e amor até mais tarde/ e tenho muito sono de manhã." (Chico Buarque)

28 de julho de 2005


"É que eu já sei de cor qual o quê dos quais e poréns,
dos afins, pense bem ou não pense assim." (Rodrigo Amarante)

Música pop sem refrão
Raquel Medeiros

Sapatos apertados para dança
Calos e estalos em aliança
Solo em desesperança
Entrar no ritmo às vezes cansa

Faca na garganta
Sangue que nunca estanca
Palidez que avança
Morrer às vezes cansa

Minha obra completa
É uma poesia incerta
Na trajetória nem sempre reta
A postura nem sempre é ereta.

Mas vamos aos fatos
Esse texto fraco
Só reflete
A minha falta de tato
Pra jogar fora
A pedra no sapato.

Sobremesa: "Life is what happens to you while you're busy making other plans." (John Lennon)

18 de julho de 2005

* Não consegui postar imagens. nem textos meus. Vai um trecho de Rayuela, de Júlio Cortázar.

Por que nos enganaríamos um ao outro? Não é possível viver ao lado de um saltimbanco das sombras, de um domador de cupins. Não é possível aceitar um cara que passa o dia desenhando com os anéis furta-cores feitos pelo óleo nas águas do Sena. Eu, com os meus cadeados e as minhas chaves de ar, eu, que escrevo com fumaça. Vou lhe poupar a resposta, pois vejo-a chegar: não há substâncias mais letais do que as que se metem por qualquer lugar, que se respiram sem saber, nas palavras, no amor ou na amizade. Já é tempo de me deixarem sozinho, só e sozinho.

Sobremesa: "Já conheço os passos dessa estrada/ sei que não vai dar em nada." (Chico Buarque)

8 de julho de 2005


É preciso mudar a água da banheira
pra não ver só sujeira na hora de mergulhar.

Mudar é preciso
Raquel Medeiros

É preciso mudar
As coisas na sala
O choro da alma
No tom da fala.

É preciso mudar
O medo do risco
E do cisco
No olho do vício.

É preciso mudar
A cara sem cor
A pancada da dor
Na queda do amor.

É preciso mudar
A apatia insistente
A melancolia latente
Da poesia insuficiente.

É preciso mudar
O enredo
De ver-se o mesmo
No esforço a esmo.

É preciso mudar
A qualidade do olhar
E a vontade de sonhar
No ato de se dar.

É preciso mudar
O volume da voz
E a força dos nós
Na hora de ser “nós”.

Sobremesa: "Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:/ as ruas são ruas com gente e automóveis/ não há sereias a gritar pavores irreprimíveis/ e a miséria é a mesma miséria que já havia.../ e se tudo é igual aos dias antigos, apesar da Europa à nossa volta, exangüe e mártir/ eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente/ sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos/ sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta/ uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada..." (Adolfo Casais Monteiro)

6 de julho de 2005


"Disfarça e chora". (Cartola)

Lista De Preferências
Bertold Brecht

Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.

Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexequíveis.

Meninas, as veras.
Mulheres, insinceras.

Orgasmos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.

Domicílios, os passageiros.
Adeuses, os bem ligeiros.

Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.

Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.

Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.

Cores, o rubro.
Meses, outubro.

Elementos, os fogos.
Divindades, o logos.

Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.

Sobremesa: "Disfarça e chora/ todo pranto tem hora/ aproveita a voz do lamento/ que já vem a aurora." (Cartola)

27 de junho de 2005


A factory of cunning - Matt Murphy

Apoiando a língua nos dentes
Raquel Medeiros

Mãos atadas e olhos cegos
Não nego – ardo só de pensar.
As unhas que arranham a pele
A mordida que marca a carne
Que essa dor nunca me falte
E que o beijo sele mas nunca cale.
Impropérios, indecência
Mistério, imprudência
O carrasco do desejo
Nunca pede licença
Pra me executar.
Feliz condenada
Nem sempre comportada
Quando bem acompanhada.
Intensa devassidão
Ilimitada vastidão
Dor e luxúria
Variedade e fartura
Não peço a boca
Não meço a força
Onde a razão não tem espaço
E esse texto, um ínfimo pedaço
Da minha loucura.

Sobremesa: ... "E tente me expelir/ e ao me sentir ausente/ me busque novamente." (Vinicius de Moraes)

23 de junho de 2005


O bêbado, a equilibrista e seus filhotes.

O Bêbado e A Equilibrista
Na voz de Elis Regina

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos
A lua tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel
e nuvens lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas, que sufoco louco
O bêbado com chapéu coco fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil, meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu num rabo de foguete
Chora a nossa pátria mãe gentil
Choram marias e clarisses no solo do Brasil
Mas sei que uma dor assim pungente não há de ser inutilmente
a esperança dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
sabe que o show de todo artista, tem que continuar.

Sobremesa: "Sei, que o vento que entortou a flor/ passou também por nosso lar/ e foi você quem desviou/ com golpes de pincel." (Los Hermanos)

14 de junho de 2005


"'Cause I've been changing my mind" (The Cardigans)

Sintonia
Raquel Medeiros

91.5 mhz
Cícero chorava ao volante. “Já te dei meu corpo/ minha alegria/ já te dei meu sangue quando fervia”. A voz de Chico no rádio traduzia muito dele. A gota d’água que ouvia no carro, rolava sem precedentes pelo rosto de Cícero. Fim de relacionamento é sempre muito doloroso. No carro, alguns de seus pertences. No banco do lado, ao contrário de outros tempos, não estava ela. Só poucos livros. Os outros buscaria depois. Talvez.

104.3 mhz
“Hi/ how are you?/ I'm pretty fine”. Muda a estação. Essa não combina. Nunca foi muito adepto ao verão. Sol latente e toda a alegria dos veraneios na casa de amigos. The Cardigans lembrava o blah blah blah da estação de pouca roupa e muita irreverência. As caminhadas no fim de tarde. As havaianas sempre com um pouco de areia, eram banhadas no mar. E sujas de areia novamente. O relacionamento deles também era assim. A areia arranhava. Vinha uma onda de esperança, lavava a sujeira que voltava pouco depois.

87.5 mhz
O nariz já entupido sinalizava que o choro deveria cessar. Já não respirava tão bem. “Se eu ando assim tão triste/ tão cheio de langor/ é porque nada existe/ para mim sem meu amor.”
O Vinícius e sua habilidade em traduzir as pessoas. Só faltou a dedicatória:
- Essa música vai para o Cícero, que anda por aí como quem perdeu a cor. Carrega a mudança, mas esqueceu a esperança nas mãos do velho amor.

87.5 mhz
Pára. Põe gasolina no carro. Isso de viver, de amar, um dia precisa dar certo. Gira a chave. Coloca a primeira marcha. Sai. Velocidade pouca, que o recomeço é sempre mais lento. E no rádio, o Chico repete “Amanhã vai ser outro dia”.

Sobremesa: "O meu amor/ o meu amor, Maria/ é como um fio telegráfico da estrada/ aonde vêm pousar as andorinhas.../ (...)/ No entanto, Maria/ o meu amor é sempre o mesmo/ as andorinhas é que mudam." (Mário Quintana)

9 de junho de 2005


"Corre e diz a ela que eu entrego os pontos." (Chico Buarque)

*Na foto, Bruno Medina.
*Segue um texto velho que caiu da mudança.

No doce e pretenso desejo de sorver seus lábios
Raquel Medeiros

...ele sente sua presença. Ela se parece perfeitamente com a descrição feita nos jogos artificiais de uma nova tecnologia. Num segundo, os detalhes emergem daquela pálida e minúscula face que ali, a seus olhos, se desnuda. Músculo tenso em clara pele enrubesce. Ela está envolta em conversas e se mostra. Um torso branco de resplendor ímpar. À mostra um pescoço delgado e tenro delineia costas finas de nuanças impecáveis, findando em abstratas formas de ancas talhadas à perfeição.
Majestosa era aquela visão que o enchia de sudorese, afasia e mudez. O objeto de sua ânsia repousa num banco gélido da praça a eles tão afeita.
No Saara que os separava, ardia o sôfrego coração de homem feito – mascarado de imberbe – que, despojado dos desfarces, escondia-se do facho de luz emanado.

Rufam-se tambores – será que o coração dele anda no mesmo compasso? Ilegível aspecto de poesia mal feita, uma carta natimorta.

Empalidece. Seu rosto se confunde com os ladrilhos. Renuncia às idéias de se fazer presente e a ela se apresentar. Agora está só como nunca esteve e entreabre a porta da memória analisando amores que não vingaram. Que permanecem oclusos e emudecidos.
Ele ri. Ri de si mesmo. É um fingidor. Olhando para o lado de fora da sua sala, concebe a noção do sagrado e do profano naquela a quem ama. Rir-se, antes de tudo, da situação que se encontra, do medo generalizado de se mostrar – de ser quem o é.

O que os separava era uma tela. Na espinha dorsal da memória, ele não pudera dizer quase nada. Conservava a impressão de um dia dizer que já não mais se pertence.

A vontade que tinha de possuir, de ouvir seus gemidos, perpassava feito um turbilhão de protuberâncias e miasma desfarçados – crus – eminentes. Pornográficos. Humano. Ele a imaginava despida, em sua casa, desabotoando a saia, revelando o brilho voluptoso dos quadris.
Após o banho, a leva ainda molhada à cama, para ser enxuta num ventilador barulhento; ofuscação dos beijos altos à altura das coxas. Ergue-se o entumecido ventre; e a Vênus, do seu monte, o espia sequiosa. Põe os lábios no umbigo e a percorre sem restrições. Entremeia as pernas e sente a força calculada que imprime à cabeça. Diz-lhe impropérios, enquanto imprime sua marca, com os dentes, em cada mamilo dilatado. Suor, fluídos, esperma perfumam o ambiente, já impregnado de uma áurea mística, com um cheiro forte de um incenso.

As mãos dele são suaves – próprias para contornar seu corpo. E não escapa nada do alcance deste fauno propenso à bestialidade sem par, às carícias despudoradas e à exaustão dos prazeres da carne. E cometem-se todos os barbarismos, no ápice da paixão.
Ele a possui. Ela o retém. À noite, travam-se batalhas e o palco não é mais que o espaço exíguo do quarto. Varam a madrugada e extenuados sorriem, e dormem. Já é tarde e a hora é de despertar, diz ele. Resta-lhe, antes de mais nada, amá-la até o fim. A ela, reserva-se o segredo de ser enigmática, mesmo no gozo.

Sobremesa: "Há de fazer do corpo uma morada/ onde enclausure-se a mulher amada/ postar-se de fora como espada/ para viver um grande amor." (Vinicius de Moraes)