22 de fevereiro de 2007


Adolfo e Rosália num banco de praça em Vila Prudente


Romance Chiclete

Raquel Medeiros


A abertura do papel – a porta para a eternidade.
Adolfo e Rosália se conheceram num banco de praça no bairro de Vila Prudente. Ela vestia amarelo e tinha um penteado esquisito desses que só se desfaz com bastante água quente. Ele vestia jeans e uma camisa dos Stones. Ela preferia Beatles, mas achava que Mick Jagger tinha mais charme que John Lennon.
Adolfo ofereceu um chiclete à Rosália, que de prontidão aceitou. Mastigaram-se com o desejo da primeira vez e com a avidez da última.

A sensação de eternidade que aquilo proporcionava era inevitável. Fazia os olhos de ambos brilharem. Coisas em comum – a mesma rua, o mesmo colégio, o mesmo filme do Coppola e – claro – o gosto por chicletes. E este não acabaria nunca.


A mastigação – macia e doce.
A relação deles era tão intensa, parecia que o chiclete estimulava a mastigação excessiva. E era tudo tão macio que Rosália e Adolfo quase flutuavam quando saíam juntos. E isso não era raro. Os moradores de Vila Prudente se referiam ao casal como “casal-chiclete”. Eles adoravam. Mascavam ainda com mais afinco e sorriam para todos.

Adolfo dormia quase todas as noites na casa da amada. Era um casamento em regime semi-aberto, aliás, como a maioria é. Mascavam como se o mundo pudesse acabar ali em volta deles, que nem dariam conta. Mas dar conta por que, se eles tinham a eternidade bem presa entre os dentes?!


O cansaço – a eternidade finita do céu da boca.
Depois de 5 anos, o maxilar da relação estava cansado de tanto mascar. Não conseguiam mais fingir que o doce ainda estava lá, e depois de tanto tempo na boca, o chiclete já não tinha – nem de longe – a maciez primeira.

Foi um choque quando se deram conta que mantinham aquilo muito mais por apego do que por vontade. A saliva ácida, os dentes fracos e um amargo no fim da linha. Chiclete com gosto de fel.

Um dia Rosália sentou no banco da mesma praça onde se conheceram. Pensou, mastigou e pesou o quanto era difícil admitir que não queria mais aquela eternidade. Ela tirou o chiclete da boca, colou embaixo do banco da praça e nunca mais viu Adolfo.

Sobremesa: "Adeus você/eu hoje vou pra o lado de lá/ eu tô levando tudo de mim/ que é pra não ter razão pra chorar". (Los Hermanos)