14 de outubro de 2008


Campden Hill- Bill Brandt, 1947


This song's like a lost ship at sea


Sua carta soou como uma brisa depois de um dia exaustivo, calmaria depois de tanto solavanco em ônibus velho.
Acabo de chegar da labuta que me devora. Sinto estar tão cansada, entediada e sem um trocado para te enviar um mimo que seja. Adorei os biscoitos. Vieram a calhar num jantar que não tinha o encanto do apetite nem a presença de um par. Guardei alguns para depois. Estou só amigo, como nunca.

Hoje me deparei pensando nos planos que fiz outrora, no que eu ingenuamente chamava de sonho, e que hoje não passam de lamentos em noites ébrias, pensamentos tão distantes que parecem histórias de antepassados, de vidas passadas, de um filme antigo.
A vida aqui anda lenta. Tento – todos os dias – acordar com bons pensamentos, ser gentil com os estranhos e compreensiva com os próximos. Mas como é difícil estar feliz consigo, olhar-se no espelho e não ter a sensação de que algo se perdeu no caminho. Às vezes me arrumo, me pinto e saio por aí fantasiando encontros felizes. Um gole depois outro. E no fim da noite – uns trocados a menos e um desequilíbrio a mais – estou mais triste que antes.

Sinto vontade de chorar quando penso em tudo isso, e evito o quanto posso, mas nem sempre consigo. Estar tão só não ajuda muito, fico aqui rodeada de pensamentos e roupas sujas. Uma preguiça de por tudo em ordem. Uma incapacidade de ser melhor.
Preciso ir amigo. Estou muito cansada de tudo para te dizer algo além. Minhas pálpebras pesam como chumbo – nuvens carregadas prestes a chover. Outro dia te escrevo mais, quem sabe notícias boas... Por enquanto não posso. Tenho cutículas crescendo na ponta dos dedos como ervas daninhas.

Sobremesa: "O meu mundo não é como o dos outros; quero demais, exijo demais/ há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista/ sou antes uma exaltada,com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!". (Florbela Espanca)