14 de outubro de 2008


Campden Hill- Bill Brandt, 1947


This song's like a lost ship at sea


Sua carta soou como uma brisa depois de um dia exaustivo, calmaria depois de tanto solavanco em ônibus velho.
Acabo de chegar da labuta que me devora. Sinto estar tão cansada, entediada e sem um trocado para te enviar um mimo que seja. Adorei os biscoitos. Vieram a calhar num jantar que não tinha o encanto do apetite nem a presença de um par. Guardei alguns para depois. Estou só amigo, como nunca.

Hoje me deparei pensando nos planos que fiz outrora, no que eu ingenuamente chamava de sonho, e que hoje não passam de lamentos em noites ébrias, pensamentos tão distantes que parecem histórias de antepassados, de vidas passadas, de um filme antigo.
A vida aqui anda lenta. Tento – todos os dias – acordar com bons pensamentos, ser gentil com os estranhos e compreensiva com os próximos. Mas como é difícil estar feliz consigo, olhar-se no espelho e não ter a sensação de que algo se perdeu no caminho. Às vezes me arrumo, me pinto e saio por aí fantasiando encontros felizes. Um gole depois outro. E no fim da noite – uns trocados a menos e um desequilíbrio a mais – estou mais triste que antes.

Sinto vontade de chorar quando penso em tudo isso, e evito o quanto posso, mas nem sempre consigo. Estar tão só não ajuda muito, fico aqui rodeada de pensamentos e roupas sujas. Uma preguiça de por tudo em ordem. Uma incapacidade de ser melhor.
Preciso ir amigo. Estou muito cansada de tudo para te dizer algo além. Minhas pálpebras pesam como chumbo – nuvens carregadas prestes a chover. Outro dia te escrevo mais, quem sabe notícias boas... Por enquanto não posso. Tenho cutículas crescendo na ponta dos dedos como ervas daninhas.

Sobremesa: "O meu mundo não é como o dos outros; quero demais, exijo demais/ há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista/ sou antes uma exaltada,com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!". (Florbela Espanca)

5 de setembro de 2008

I need some fine and you, you need to be nicer.

Peter Svensson é lindo e Nina... she rocks.

26 de agosto de 2008


eleven a.m. - edward hopper

Sexta-feira

Acordou como sempre – com dívida de sono - mas com uma dúvida se teria sido sonho mesmo. Dava pra sentir o cheiro – pensou. Será que as pessoas se encontram enquanto dormem? Não, não, isso é roteiro pra filme existencialista belga. Eu tenho contas a pagar – constatou.

A manhã no trabalho foi leve – coisa rara numa sexta-feira.
A tarde – como de costume – demorou a passar. Mil coisas a fazer. Leia. Escreva. Revise. Tente outra vez sem essa expressão. Tente outra vez sem tédio. Tente outra vez. Tente outra.
Por volta das 18:00, enquanto olhava a tela do computador, as letras se embaralhavam em meio as lágrimas saídas de um olho só. Meu ouvido dói. Meu olho esquerdo não pisca. Minha língua está dormente. Meus lábios não se movem coordenadamente.

Você está com paralisia facial – disse a mãe.

É, existe uma paralisia facial, decorrente de um vírus no ouvido, agravada por stress – disse o médico.

Quatro comprimidos de corticóide por dia. Depois de duas semanas diminui pra dois, depois um, e então meio comprimido por dia. Antibiótico de 4 em 4 horas, por 30 dias. Colírio e gel pra não ressecar o olho. Curativo em cima pra tentar dormir.

Não leia. Não assista filmes com legenda. Não costure. Não fique no computador. Não beba. Não chocolates. (...).

Posso ouvir música?

Não muito alto, nem em fones de ouvido. Repouso, você precisa de muito repouso.


E assim a vida ganhou uma pausa inesperada. Os livros acumulando poeira. Bolor no bolo de chocolate. Cinqüenta e-mails não lidos. Trinta noites mal dormidas (além das tantas acumuladas nos seus quase 30 anos). Nenhum sorriso em um mês. Nada programado, por tempo indeterminado.


E, ao final de 30 dias, mais uma sentença:
Trinta dias desse remédio, dois comprimidos por dia. Dez sessões de fisioterapia. E duas injeções por semana, durante um mês.


Voltou rápido para o trabalho, mas o sorriso veio lento. Dores de cabeça todos os dias - nenhuma de ressaca. Chá de espinheira santa para o estômago, erva doce pra dor, camomila pra dormir. Dois pequenos hematomas na nádega e dor muscular às terças e sextas.

Às vésperas de acabar o tratamento, já 100% recuperada dos movimentos, ela só pensava o quanto era bom mastigar, enxergar e falar direito e, vez por outra, rir disso tudo.


Sobremesa: "já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou, e tudo fugiu, e tudo mofou, e agora, José?" (Carlos Drummond de Andrade)

13 de agosto de 2008


Cena de 'Crash - Estranhos Prazeres', de David Cronenberg

Sete canções em uma noite

Um banho demorado. Lingerie escolhida com prazer e vestida com exaltação. O vestido vermelho acetinado já provocava na pele sensações do que estaria por vir. Sapatos negros. Salto fino, alto. Aparentemente displicente, estudava cada ínfimo pormenor. Reflexo atraente do hábito feminino. Já estava pronta, mas levava horas, uma dose de whisky e uma música no repeat para chegar até ele.

Turning now I see no reason
The voice of love so out of season
I need you now
But you can't see me now


No bar, o piso pressente o nervoso dos passos masculinos enquanto a aguarda. Ele senta à mesa e inclina o copo de whisky. Em estado puro, escorrega na língua, invade a boca e desliza pela garganta, queimando-o.

No don’t try to manipulate
I would rather take control.


Os ponteiros do relógio do bar giram preguiçosamente, ironia estampada em cada minuto. Ele pousa o copo vazio, ergue o braço num gesto que afasta o punho do casaco, descobrindo o relógio, na esperança de que esses ponteiros não o olhem com negligência.

Again, we go ‘round and round
I’ll get the drinks
I guess it’s always my round

“Can you get me a drink?”


Ela chega falsamente discreta. Desliza o acetinado do vestido nele, num abraço seguido de desculpas pelo atraso. Ambos sabem que as desculpas não cabem e que toda a espera – se não necessária – era inevitável. Exasperado, revirou os olhos no pensamento repetido: mulheres! Ela sorriu de forma inesperada, como se pudesse decifrá-lo. Duas doses, dessa vez com – pouco – gelo. O que ela queria era deixar-se levar pelo desejo e provocá-lo até ele demonstrar - sem qualquer margem para dúvidas - que a queria tanto como ela a ele.

Hold me close enough to drink my rose
The devil in my pocket turned to gold
Sorry to warn you, you’re in a daze
Tonight I’ll love you, but tomorrow go away
.

Num gesto que ela não podia prever, ele terminou a dose e determinou que ela fizesse o mesmo. Não foram para muito longe dali. Uma esquina qualquer e um carro qualquer estrategicamente estacionado.

What’s the fun in playing it safe?

Ele a coloca de encontro ao carro e se encaixa no meio das suas coxas. Ela tenta afastá-lo, inutilmente. Ele prende com força os punhos magros dela, numa das mãos. Ela reclama sem rigor e sem resposta. A dor da luxúria que se obriga a prolongar. Boca. Língua. Mãos. Braços. Pernas. Grandes avanços e pequenos recuos.

Say, say my name
I need a little love to ease the pain


Ela geme enquanto tenta morder os ombros dele, sem êxito. Ele olha-a, dominador. Sabe que o cetim, o vermelho nos lábios, os sapatos negros de salto fino, a lingerie, a risada no bar, o abraço de desculpas, os dentes afiados... Tudo culminaria na rendição.

Everynight
in every pore
The scales that do slither
Deliver me from…


Impossível saber quanto tempo ficaram ali, talvez 3 ou 4 orgasmos. Ela tenta dar jeito ao vestido e ao pensamento. Era humana, repetia silenciosamente, e o que a tornava humana - por mais inconciliável que pareça – era perder completamente a razão.


Sobremesa: “And my big secret/ Going to win you over/ Slow like honey, heavy with mood” (Slow like honey – Fiona Apple)

(As sete canções, por ordem: Funny time of year – Beth Gibbons and Rustin Man, Stay – Tricky, Puppy toy – Trick, The mating game – Bitter:Sweet, Dirty Laundry – Bitter:Sweet, Dissolved girl – Massive Attack, The Widow – The Mars Volta).

25 de junho de 2008


Valentina de Guido Crepax

Intervalo

Enquanto passa
olhos de dúvida
tentando ler fumaça.

Sobremesa:"Como se pudessem chegar a algum lugar onde elas mesmas não estivessem". (Alice Ruiz)

13 de junho de 2008


morning sun - edward hopper

Para L., com carinho

Tem dias que acordo tão descrente. Não acredito no ‘bom dia’ das pessoas, nem se as nuvens no céu são de chuva. Descreio que Deus exista e que esteja olhando pra mim e por mim lá de cima (logo eu, tão miudinha...). Duvido da preocupação das pessoas no trabalho com a minha saúde. Às vezes sou como São Tomé. Às vezes nem vendo acredito.
Mas o sol arde lá fora e eu sinto na pele. A saudade produz lágrimas e eu sinto no embaço na vista. A dor está aqui, eu sinto no peito. Em isso tudo eu acredito. Às vezes mais do que devia. Mais do que queria.
Hoje eu me senti tão próxima de uma pessoa querida. Pessoa que não vejo há tempos, mas que o meu carinho não diminuiu com a distância e os obstáculos rotineiros. Sinto na alma.
Ela escreveu um texto sobre a perda recente do avô. Mas não escreveu com caneta de lamúria. Isso que mais me tocou. Um texto tão bonito, falando de música, de brincadeira, da mágica que acontece entre avós e netos. Senti a vista embaçar, o peito apertar e uma vontade enorme de dar-lhe um abraço.
Tem dias que eu acordo tão descrente. Mas uma flor, uns sentimentos traduzidos em palavras, pessoas de carne, osso e coração, me fazem acreditar que nem tudo está perdido, a gente é que se perde às vezes. Bom mesmo é se encontrar.

Sobremesa: “A cada mil lágrimas sai um milagre”. (Alice Ruiz)

21 de maio de 2008

Sexta-feira é dia de ligar a vitrola e mastigar música com as pernas, com os braços, com os pés,...

Quem viu o filme O fabuloso destino de Amélie Poulin já ouviu Yann Tiersen
Às vezes eu ouço a mesma música repetidas e incansáveis vezes.

Yann Tiersen - Rue des cascades


Sobremesa: "In the cascade, in the cascade/ you washed me". (Yann Tiersen)

14 de maio de 2008

My way

Ai que saudades eu tenho do Sinatra... Quando ele faleceu, eu tinha 18 anos, não fumava nem bebia, mas achava um charme sem igual aquele cigarro que ele ostentava numa das mãos e o copo de uísque na outra. Lembro que meu pai chorou quando soube da morte, e ouviu todos os vinis que tinham lá em casa. Lembro que me deu vontade de chorar quando vi as matérias, ouvi as músicas e vi meu pai derramar lágrimas por alguém que nem conhecia, mas que gostava tanto.

Hoje acordei com meu pai ouvindo e vendo as homenagens à morte do Sinatra. Senti-me com 18 anos, vendo meu pai lacrimejar os olhos e se emocionar como há 10 anos. Hoje ostento um cigarro numa das mãos (de vez em quando uma dose de uísque na outra) e uma vontade de sentar e ouvir – agora – os meus vinis tão queridos dele.
Herdei algumas coisas do meu pai e, uma delas é essa paixão pelo Sinatra e essa saudade que parece não ter fim.

Com vocês, uma das parcerias mas lindas dele - com Tom Jobim. Uma coisa é certa, se ele não fosse americano, seria carioca. Um charme só.



Sobremesa: "Yes there were times, I'm sure you knew/ when I bit off more than I could chew/ but through it all when there was doubt/ I ate it up and spit it out/ I faced it all and I stood tall/ And did it my way". (My Way, com aquela voz e aqueles olhos azuis, inconfundíveis).

6 de maio de 2008


para colorir o prato, melhorar da gripe e curar o tédio.

foto por joão faissal.
tratamento por leo.


Vocabulário lúdico culinário


Pimenta – Cor que salta aos olhos. Sabor que se ingerido em excesso faz o suor saltar aos poros. Meninas animadas num samba afinado. Desejo que diverte, mas não adverte. No olho do outro é refresco, no nosso é incêndio. Pode ser líquida, mas não é mole. Pode ter dedos de moça, mas não é santa. Dia de calor excessivo. Turistas sem aviso e sem melanina quarando ao sol do meio-dia. Cor que acomete os que não estão preparados para o elogio, fora ou queda na frente do sujeito de desejo. Batom e unhas vermelhos. A cilada ruiva onde Roger Habbit se meteu. As mulheres de Chico e do Shiko. Sexo. Com ou sem amor. Na cama, no sofá, no elevador. Em pé, sentado, deitado, como for.


Sobremesa: "Vem mansa porque a contradança é mais audaciosa". (João Nogueira e Paulo César Pinheiro, na voz da apimentada Elis Regina)

1 de maio de 2008


doce de banana by mama.
foto by me.

Vocabulário lúdico-culinário

Doce
– Palavra açucarada que às vezes acompanha o algodão. A razão de João e Maria ficarem atraídos pela casa de biscoitos. Sabor agradável que fica na boca dos amantes após o beijo. Dias ensolarados ou chuvosos, desde que compartilhados com os que amamos. Um olhar junto. Uma goiabada com queijo. Um beijo com desejo. Um abraço com todo o conjunto. Sorriso de criança. Qualquer sorriso que venha de dentro e ultrapasse os dentes. Um eu te amo dito ao ouvido com destino direto ao coração. Pôr-do-sol de mãos dadas. Amigos verdadeiros. Amor de verdade. Receita feita com punhados de cuidado e baldes de carinho. Nome que se pronunciado na cozinha atrai formigas gigantes que andam sobre duas pernas, e beijinhos e carinhos sem ter fim.

Sobremesa: "Com açúcar, com afeto/ fiz seu doce predileto/ pra você parar em casa". (Doce feito por Chico Buarque, encomendado por Nara Leão)

23 de abril de 2008

Meu primeiro meme (indicado por Igor), e acho que o mais difícil de responder – eleger os 5 discos que me influenciaram ou mais me marcaram. Sou fã de listas, mas 5 é covardia. Injustiças serão inevitáveis, mas admito que foi uma delícia revirar a estante e a memória pra fazer o top 5 da minha vitrola-cachola. O critério foi de ordem cronológica que cada um deles chegou aos meus ouvidos.

Abbey Road – The Beatles (1969)



Eu cresci ouvindo Beatles, meu pai gostava até das versões da Jovem Guarda. Foi difícil escolher um álbum preferido, mas o Abbey Road contém algumas das músicas que mais gosto da banda – “Oh! Darling”, “I want you (She’s so heavy)”, “Something”, “Because” e “She came in through the bathroom window”. Acho até que caberia um top 5 só de discos deles (mas isso é uma opinião de fã. rs).
Ontem vi o musical “Across the universe”. Achei o filme lindo, com uma perfeita escolha de músicas, que passeia por todas as fases do FabFour. Recomendo o filme e, principalmente o(s) disco(s). Há quem discorde, mas pra mim eles foram a melhor banda de rock de todos os tempos.


Life - The Cardigans (1994)



A primeira música que ouvi do Cardigans foi “Rise and Shine”. Um dia, andando no shopping, encontrei esse disco por R$ 14,00. Para não ter dúvidas, pedi pra ouvir. Não foi preciso ir além da primeira faixa - “Carnival” - pra decidir levá-lo. É, com certeza, um dos discos da minha vida. Pop rock cheio de influências sessentistas, marcado pela voz inconfundível da Nina Persson. E, para minha surpresa, lá no finzinho do disco, encontro um belíssimo cover do Black Sabbath, “Sabbath bloody Sabbath”. Os discos seguintes da banda também são adoráveis e bem diferentes deste primeiro. Ainda assim, o Life continua sendo o melhor – em minha opinião. Um disco para ser ouvido num dia de sol. Um disco pra deixar a gente feliz.



Os Afro sambas – Baden Powell e Vinícius de Moraes (1966)




Uma das junções mais perfeitas da música. Baden é um gênio, de uma precisão e honestidade que me emocionam. Esse disco – que não tem nada a ver com a Bossa Nova – marca a passagem (ou seria viagem?) dos dois aos terreiros de candomblé, regadas a doses diversas de uísque escocês. É visceral, pesado. Não há como passar ileso ao violão de Baden ou às letras de Vinícius. Descobri esse disco já adulta (apesar do meu pai ouvir os dois desde a minha infância). E sempre que ouço me soa forte, como se chegasse na alma da gente.
Quando Baden virou evangélico, renegou esse álbum. Se é demoníaco eu não sei, mas “pergunte pr'o seu Orixá, o amor só é bom se doer”.


Bloco do Eu Sozinho – Los Hermanos (2001)



Eu detesto Anna Júlia (até hoje) e relutei ouvir qualquer coisa da banda por culpa dessa música. Mas um dia vendo a mtv (num tempo em que tinha mais música), vi o clipe de “Todo carnaval tem seu fim”. Acho que chorei quando vi aquele confete caindo ao som dos metais. Uns dias depois comprei o disco num site. O universo carnavalesco sempre me deixou nesse misto de alegria e tristeza, e esse disco me soa exatamente assim: me emociona a melancolia das letras mas ao mesmo tempo as melodias me deixam feliz. Mais feliz ainda por ter descoberto essa banda. Fui para todos os shows no circuito Paraíba-Pernambuco, e num deles, consegui levar meus pais (minha mãe adora LH). Os discos seguintes, Ventura e 4 são lindos, mas o Bloco... é meu xodó. Pode dizer que é emo, pseudo-intelectual, o que for. Esse disco pra mim é phoda. E tenho dito, ouvido, cantado... até o apagar da velha chama.


Oh! The Grandeur – Andrew Bird (1999)



A mais nova paixão da estante. Minha irmã me passou uma música dele (não desse álbum). Fui vasculhar (três vivas para a internet!!) e mon petit ami Leo baixou esse disco. O Andrew ganhou esse pseudônimo de “bird” por causa do seu assobio. È formado em música clássica e sabe experimentar sem perder o tom nem a graça. Esse disco é belíssimo, parece música francesa antiga (ele é americano). Um disco pra dançar (no melhor estilo cheek to cheek), ou enlouquecer com a primeira faixa “Candy shop”. Fechem os olhos, se imaginem num daqueles cafés bem charmosos (cabaret também combina muito), peçam uma dose e deliciem-se.


Os meus indicados:
Digs
Fermar

Sobremesa: "Oh honey pie my position is tragic/ come and show me the magic of your Hollywood song". (The Beatles)

18 de abril de 2008


woman on her way home
matt murphy


Todo dia é primeiro de abril


Pesava pouco mais de 40 quilos, mas ao final do dia, sua alma indicava uns 200.
Acordar era difícil. Levanta, come alguma coisa – quando a náusea está mais amena – toma um banho e sai. Enquanto espera o ônibus pensa “o que estou esperando aqui? O que estou fazendo aqui, esperando?".
Mesmo assim pegava o ônibus e ia para o trabalho.

“Fulano é um ótimo médico, leve seu filho lá”. E Fulano havia sido acusado de pedofilia em 3 das 5 cidades onde morou.

“Essa farmácia é ótima! Credibilidade e qualidade que você só encontra aqui”. Mas o dono – na verdade – era um traficante, que vendia farinha pra evitar filhos e lexotan fantasiado de ass infantil.

“Uma cabeleireira com um olho mágico, 5 minutos e você tem o corte dos seus sonhos”. Na verdade você tem o corte por 5 minutos, depois seus cabelos vão começar a cair.

E depois de tanto mentir por profissão, ela cansava das pessoas que mentiam por vocação. Dava náuseas ouvi-las falar, sentia nojo de olhos recheados de falsidade, de sorrisos que só escondiam a punhalada pelas costas.
O que a confortava é que a sua vida – fora do trabalho – era de verdade. O amor, as amizades (àquelas mais de colo que de copo), o ombro da mãe, a cumplicidade da irmã, o choro, o riso, o abraço, a fome e o fastio, a insônia e o cansaço, a música e a dança.
A dor de mentir não amenizava no final do mês, mas era necessária porque – ao contrário do seu trabalho – suas contas eram todas verdadeiras e não aceitavam mentiras como desculpa!
Ela não tem sonhos de grandeza, o que ela quer mesmo é – num futuro breve – ter o dia mais preenchido com pequenas verdades que com grandes mentiras.

* Os clientes citados são de mentira. Mas que diferença faz?!


Sobremesa: "Na segunda-feira, parte da família foi para os seus respectivos empregos, já que é preciso morrer de alguma coisa". (Julio Cortázar)

11 de abril de 2008


eu quero paz...


Um galho de arruda para aliviar meu coração

Raquel Medeiros

Hoje estou me sentindo cansada, como quando era criança e minha avó dizia “essa menina tá ‘mufina’, se não for doença, é mau-olhado”. A doença não vinha, mas o cansaço não saía. Era uma moleza estranha, uma fraqueza para andar, para viver. Aí vinha minha avó, me rezar com um galhinho de arruda. Depois de umas palavras de amor e fé ditas bem baixinho (porque tem gente que acha que Deus é surdo) era o pobre galho que ficava ‘mufino’.

Em mim, já não havia mais peso... era uma sensação boa e leve. Ela falava com carinho e aquelas folhas percorriam meus braços, minha cabeça, minhas pernas, minhas dores. E ao final, levavam todas elas (as dores) embora pra algum lugar longe de mim.
Era um ritual mágico. Tinha que ser num lugar aberto (pra que a dor não se escondesse debaixo de algum armário, dentro de uma gaveta esquecida aberta). Tinha que ser de dia e, o mais importante, a reza tinha que vir de alguém com o coração cheio de sentimentos bons, e isso ela tinha de sobra...
Minha mãe diz que eu pareço com ela. Era pequena, teimosa, fumante, adorava café e detestava ameixas e mamão.

Costurava uns vestidinhos com um bolso interno, pra não ser assaltada ao sair do banco com sua pequena aposentadoria. Levava rosquinhas sempre que ia lá em casa. Um maço de cigarros para o meu pai e um agrado até para o cachorro. Fazia um cafuné tão bom que a gente fazia fila pra sentar no chão entre as suas pernas. Detestava que a fizessem de boba. Não fugia de briga, nem de festa. Andava sempre cheirosa e pintava o cabelo sozinha, no alto dos seus 86 anos.
Hoje estou me sentindo cansada. Queria uma reza com galho de arruda. Queria aquelas mãos enrugadas me fazendo cafuné.

Sobremesa: "Lembra o tempo que você sentia e sentir era a forma mais sábia de saber e você nem sabia?". (Alice Ruiz)

17 de março de 2008


desde cedo eu já trocava a noite pelo dia.

Texto para não dormir

Raquel Medeiros

O dia clareando a janela e meu sono difícil. Impossível adormecer as 6 e acordar bem às 7:30. “É melhor levantar de uma vez”, lamentei. E fiz. Tomei café, e enquanto fumava o primeiro cigarro do dia, veio o sono. Água fria nele!
Uma música, um carinho no cachorro, e lá vem ele de novo – o sono. Arrumo-me às pressas (pra evitar a elaboração de uma desculpa) e saio.

O sol inclemente lá fora. Sem pilha, sem música, sem paciência. Entro no ônibus. O cobrador reclama da coluna e me dá o troco sem responder meu bom dia. Acontece. Sento e quando o veículo começa a balançar menos sinto o peso nas pálpebras. “Acorda, Raquel, sua parada é a próxima”, constato.

Desço do ônibus, acendo um cigarro. O dia está lindo, mas quente como o inferno (e há quem pense que não é aqui). Chego ao trabalho, ligo o computador. Vejo emails, algumas notícias, a pauta do dia e levanto pra tomar um café antes que eu adormeça com a testa na tecla “z”.

Um café, um cigarro. Termino a minha pauta ainda de manhã. Um alívio seguido de um bocejo. Hora do almoço, Como pouco (o sono maior que a fome), volto para o trabalho (agora sim tenho certeza que o inferno é aqui). Sento no computador: nenhum email não lido, nenhum trabalho pra fazer, o dia muito quente (mesmo aqui dentro) para tomar o terceiro café.

“Melhor escrever pra passar o sono”, penso. Termino e agora não sei mais o que fazer pra ele ir embora. Acho que vou encarar o café quente.

Sobremesa: "Eu faço samba e amor até mais tarde e tenho muito sono de manhã". (Chico Buarque)

20 de fevereiro de 2008


"Um homem com uma dor é muito mais elegante
caminha assim de lado, como se chegando atrasado
andasse mais adiante". (Paulo Leminski)


Minha vida sem mim

Raquel Medeiros

Amigo,

Sei do que passas e me falas. Aqui do outro lado não é diferente. Mudam as perdas, a temperatura do dia e as aflições cotidianas. No mais, acordo toda manhã com o pensamento de que está tudo bem – desejando com todas as forças (que às vezes perco no decorrer do dia) que fique mesmo tudo bem.

Te falei que sempre descubro outras de mim. È como uma pequena morte. Importa que não nos esqueçamos de que(m) sempre fomos e somos. O que me preocupa é a constatação de que o livre arbítrio não é tão livre pra nós.
Nessas horas é melhor pensar que sempre morremos um pouco pra nascermos melhores. E nesse caso, um ciclo se cumpre. Não vasculhe as xícaras quebradas que já não te servem café como antes. Guarde na caixa das coisas antigas, que ganham beleza por não estarem inteiras. O inacabado tem lá seu charme quando nos convencemos de que não foram mesmo feitos para ter um fim.
Já o começo - sempre difícil – traz de um lado a inabilidade de aprender a andar, pensar, escrever, sentir. De outro lado, traz a novidade, o olhar voltado para dentro e para frente. Adiante e avante, amigo!

Isso tudo aqui pode parecer palavra que sai fácil. E saiu, pois desta vez não sou eu quem sai do casulo depois de uma turbulência. Sei que estás um tanto perdido, confuso e armado até os dentes com uma faca cega. Entendo perfeitamente.
Quando isso me ocorre, eu tomo um café, acendo um cigarro – sei que não és deste vício – e ouço alguma música numa voz feminina, como um aconchego uterino. Um lugar quente e seguro, de onde meu novo eu sai e sofre com o frio. Mas o sol arde lá fora. Enquanto estivermos vivos, amigo, há sempre a redenção.

Para Diego.

Sobremesa: "Coisa dolorosa feita de barro e poeira/ o homem no seu quarto, de noite, pelejando pra escrever no papel/ com lápis, nó e tropeço, a dor do seu peito."(Adélia Prado)

19 de fevereiro de 2008


in the car - roy lichtenstein


Lembranças de viagem em três atos

Raquel Medeiros

Primeiro ato
Lembro de quando chegamos num novo destino. As malas bem arrumadas para não amarrotar meus vestidos, nem suas camisas. Compartilhamos o xampu, o creme dental e o espelho. Abrimos um vinho – ou cerveja, ou mesmo uma água sem gás – e brindamos o começo. Bebemos e acendemos nossos cigarros. Agora há um silêncio mútuo, um olhar cúmplice, um beijo apaixonado e o infinitivo 'enquanto durar'.

Segundo ato
Lembro das malas desarrumadas. Suas cuecas espalhadas e eu ainda tentando colocar alguma ordem como se aquele lugar fosse nosso quarto, nossa casa. Passamos o dia com uma preguiça inerente. As forças concentradas no corpo – do outro.

Terceiro ato
Lembro do nosso banho rápido, onde já nem conto teus sinais. Das roupas sendo jogadas sem paciência de volta à mala. A vontade de ficar e a porta que abre lentamente. Estamos indo para sempre.

Sobremesa: "O amor é uma agonia/ vem de noite/ vai de dia/ é uma alegria e de repente uma vontade de chorar".(Vinícius de Moraes)

28 de janeiro de 2008


people in the sun - edward hopper, 1960.

Música para um dia de verão.

"Quando penso nos amores virtuais
Nas maquininhas digitais
Fico sem saber como fazer pra me convencer
O genoma e os neurônios saltitantes
Ficam alegres e falantes
O futuro até parece com uma patada de elefante
E a natureza serve só para combustível
E tudo o que deixamos queimar, sem se importar
Parece que perdemos o senso e o juízo
E agora o mundo vai se esquentar".
(futurismo - kassin +2)

Pra quem quiser ouvir mais dos moços.
http://www.myspace.com/morenodomenicokassin2

Sobremesa: qualquer picolé de fruta, de preferência com um ipod dentro. ;)

24 de janeiro de 2008


Room by the sea - Edward Hopper 1951

Eu que não esqueço
Raquel Medeiros

Eu não passo naquela rua do Cabo Branco sem lembrar do seu all star verde, das suas malas de madeira, dos retratos e desenhos em preto e branco, das viagens em terra, das descidas até o chão, dos goles, das risadas, dos abraços, das lágrimas, do pão de queijo, de ver o sol descer e a lua nascer do alto do prédio, do cheiro de incenso, da imagem de São Francisco de Assis, do aparelho de dvd que nunca funcionava, das mulheres de Chico, da angústia de Clarice, do cinzeiro-ninho das nossas fobias, dos tragos debaixo do jambeiro, das xícaras de café com açúcar, afeto e um silêncio cúmplice, do banho de mar-que-afasta-uruca que nunca tomamos e dos encontros e desencontros dos quais não escapamos.

Eu sinto tanta saudade que a memória às vezes falha, e cria histórias que não contamos e fatos que não vivemos.

Eu não passo naquela rua do Cabo Branco sem lembrar de mim.

Sobremesa: "Once there was a way, to get back home". (The Beatles)

11 de janeiro de 2008


Maria tinha uma pedra, um sapato e um caminho.
No meio do caminho a pedra entrou no sapato
e Maria nunca alcançou o céu. (Raquel Medeiros)

Strangers in the night
Raquel Medeiros

Quando eu e Julio nos encontramos na solidão do quarto, somos amantes contrários. Ele chega com a calma, sem a pressa de responder minhas perguntas (e são tantas!), com uma tranqüilidade admirável e intrigante. Eu chego com a ansiedade (as mulheres no geral sempre querem que o dia chegue à véspera), com a náusea a ser curada, com o vazio a ser preenchido. Mas chegamos os dois, assim como Oliveira e a Maga, sem nos procurar, mesmo sabendo que deveríamos e que vamos (inevitavelmente) nos encontrar.
Eu sigo suas indicações e me emociono “como pode um estranho saber tanto de mim?”. Da desordem que começa na minha bolsa e que se estende às questões sentimentais. O Julio sabe que o único caminho certo é o do sangue nas veias, e que todo o resto se move como num jogo de amarelinha. Um chão riscado, uma pedra na mão e fé no passo – onde quer que ele nos leve. Encontraremos o céu?

Sobremesa: "E, se nos mordermos, a dor é doce/ e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela/ E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura/ e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água". (Julio Cortázar. O Jogo da Amarelinha, capítulo 7).