20 de setembro de 2007


Winter’s here
And there ain’t nothing gonna change. (Beth Gibbons)

Lamento
Raquel Medeiros

Noite. Ela construindo na mente cada detalhe. Primeiro foram os ombros... ah! Como queria encostar a cabeça naquele ombro e ver a vida passar como num filme. Os braços, armas de um abraço infalível. Como era difícil e doído pensar e não ter. Imaginar e não sentir.
Cada pormenor surgindo como num plano detalhe que vai abrindo e revelando todas as virtudes e discrepâncias (a essa altura tão bem-vindas). Lembrou que ele adora essa palavra – discrepância. Lembrou que o lugar ao seu lado continuava vazio.
Ainda havia uma esperança de dormir. E de encontrá-lo, quem sabe, num sonho. Mas não. O contraste das nuvens no céu ficando cada vez maior. A saudade que latejava no peito dela também.
Onde ele estaria agora? Seria possível promover hoje um encontro com o futuro? Ela sabia que não. Já era dia.

Sobremesa: Teu olhar mata mais do que bala de carabina/ que veneno extriquinina/ que pexeira de baiano/ teu olhar mata mais que atropelamento de automóvel/ mata mais que bala de revólver. (Adoniran Barbosa)