31 de agosto de 2004

Quem é morto pelo raio não ouve o trovão
Raquel Medeiros

No jardim

Eu peço perdão
Pelos palavrões em vão
Pelo presente jogado no chão
Por não ter segurado a sua mão
Na hora do furacão.

Na sala

Eu peço perdão
Por não ter feito a correção
Nos diálogos sem emoção
Nos silêncios sem razão
Na dança sem canção.

No quarto

Eu peço perdão
Por dizer sim quando queria o não
Pela distração e indisposição
Quando tentavas atrair a minha atenção.

Na despedida

Eu peço perdão
Porque estás a sete palmos do chão
Inativo como um canhão
Indefeso à provocação
Mudo como a solidão
Morto como a inspiração.

Sobremesa: "O perdão não põe a mesa/ mas pode salvar o jantar/ o erro repete o feito/ repete o feio/ e pode ser tarde pra voltar". (Raquel Medeiros)

30 de agosto de 2004

Segunda-feira
Raquel Medeiros

Na segunda-feira é difícil pôr os sapatos
Depois dos dias de pés descalços
Depois de andar sem contar os passos
Depois dos beijos e abraços
Que criam tantos laços
Mas laços não são cadarços
Ah, malditos sapatos!

Sobremesa: "Segunda não é dia de sobremesa/ é dia de feijão com arroz/ é dia de pensar como dois, sem ser dois". (Raquel Medeiros)

27 de agosto de 2004

Viagem de ida
Raquel Medeiros

Vamos sair desse lugar
Essa casa já deu o que tinha que dar
Os tapetes estão cheios de dores
E a parede prestes a desabar.

A hora é de arrumar a mala
Colocar a comida da alma
E o cheiro que esse café exala
Porque certas coisas não podem faltar.

Põe as roupas antigas
Tão acostumadas com a pele
Leva também as palavras amigas
Ditas, quem sabe, na hora do jantar.

Mas deixa a ferida
A fúria e a vontade de ficar
Leva força e doçura na lida
Pois acredite, é preciso muita sede de vida
Pra espantar o medo de mudar.

Sobremesa: "Vamos viajar agora? / viagem de verdade / tudo planejado em cima da hora / já falei pra minha mãe que tenho idade / mesmo assim ela me lembra / leve sua escova e que Deus o tenha". (Tiago Tenório)

26 de agosto de 2004

Pretensão de poesia...rima o tempo inteiro. E na sobremesa, o mesmo confeiteiro.

Fuga
Raquel Medeiros

Corre até aquela ponte
Antes que ela desmonte
Antes que eu te desaponte
E desista de esperar.

Anda até aquele parque
Antes que o fogo se alastre
Antes que a polícia venha e lacre
E macule o nosso lugar.

Caminha até aquela praia
Antes que a barreira caia
E invada o nosso mar.

Sobe até aquele monte
Até que dê pra ver no horizonte
Um lugar pra gente se aninhar.

Sobremesa: "Eu andei escutando 'eu tenho pressa de vencer, eu tenho pressa!'/ mas pressa pra quê?/ vencer é chegar ao final, e final soa bem mal/ Vamos voltar ao começo?/ quando a gente se conheceu?!/ e aquele primeiro beijo!/ Pensando melhor... vamos nos apressar, o ônibus vai partir!/ e sem você eu não vou conseguir!". (Tiago Tenório)


25 de agosto de 2004

A alma insiste em escrever, em descrever. E a sobremesa é de um amigo. Amigo de pouco tempo contado e muito vivido.

Armadura – Arma dura
Raquel Medeiros

O corpo vai ao sol. A alma ainda tímida, até ameaça ver os primeiros raios. Pobre alma, tão medrosa, tão hesitante. Se a carne é fraca; a alma é covarde.
O grande sonho da alma é que o ano tenha apenas duas estações: outono e inverno. Impossível, já falei pra ela. Mas ela insiste: ‘no verão, eu não saio’.
Então fica aí, presa dentro deste corpo apertado, muito menor que você. Fica aí escondida do sol; escondida da gente; escondida da vida. Parece que é feita de água; tem medo de evaporar. Parece que é feita de sorvete; tem medo de derreter.
Ela é feita mesmo de sonho. Tem medo que o sol evapore seus sentimentos; derreta suas aspirações. Fica aí mesmo... pensando no que poderia ser aqui fora. Bem ou mal, você está a salvo dentro do corpo. Ou não...

Sobremesa: "Prepara-se o café / mistura-se o leite / molha-se o pão / cria-se o silêncio / ouve-se apenas o coração / não agüento mais me escutar / é sempre o mesmo discurso / dor, medo e solidão". (Tiago Tenório)

23 de agosto de 2004

Neste verão, vou mergulhar no inverno
Raquel Medeiros

Mais uma carta. Mais uma vez a tristeza, a melancolia.
Me sinto ora pisando em ovos - e tenho medo de quebrá-los; ora pisando em cacos de vidros, tentanto, em vão, fazer com que a dor física sufoque a emocional.
Faz um lindo dia de sol lá fora. Coloquei as roupas e os sapatos pra secarem. Mas a alma, esta insiste em permanecer no inverno. Estação que gosto muito - é verdade - e que alma está mergulhada há um tempo. Temo que ela morra afogada, ou mesmo não queira sair de lá. Será que pra ela é mais confortável? Movimentos mais lentos, ausência de sons externos, nada de humanos egoístas. Só peixes tranqüilos, preocupados com a sua próxima refeição.
Sabe, até que a água parece um lugar bastante agradável. No inverno as pessoas têm medo de entrar nela. E isso proporciona tempo suficiente pra se ficar sozinho, pensar sobre as coisas, com movimentos e pensamentos lentos; sem pressa de emergir.
Sabe de um coisa? Acho que vou dar um mergulho. Um profundo mergulho. Volto já. Porém minha concepção de "já" pode ser diferente da sua.

Sobremesa: "Faço longas cartas pra ninguém/ e o inverno no Leblon é quase glacial". (Inverno - Adriana Calcanhoto)

20 de agosto de 2004

Black letter day
Raquel Medeiros

Esta é um carta triste. Triste porque assim estou eu. Triste por saber que devo fazer algo, mas tenho as mãos atadas. Revejo os fatos e reparo, tal qual o pensamento do poeta inglês, Blake: "quem deseja, mas não age, gera a pestilência". Eu acrescento: fica cada dia mais triste.
A tela de um computador frio fita-me sem graça. Ele é minha ponte a quem desejo. A todo momento borro a tela com palavras buscadas a esmo. Tento fazer, ao mesmo tempo em que me acho, uma poesia singela nestas poucas linhas pra te encantar. Não consigo rimar poesia com alegria, só com melancolia. A dor é fria, fria.
Nos dias frios, melhor seria não nascer; parece que foram feitos para se amar. Para se contar rugas de expressão formadas em cada sorriso bobo a frente do espelho. Tristeza? Não, confiança num dia ensolarado que vem após a tempestade. Até prefiro o inverno ao verão, mas de vez em quando sinto necessidade de dar um banho de sol nas roupas, na alma.
Essa carta está prolixa. Temerosa e instável, como a vida. Queria conseguir organizar as idéias de maneira simples. Porque sei que, apesar da complexidade do dia, é na simplicidade que está a verdade.

Sem sobremesa.

17 de agosto de 2004

Knives out
Raquel Medeiros

Cheiro forte; cheiro de morte
Porque você, com uma faca de bom corte
Acabou com tudo.

E agora já não me resta sorte
Nem sombra de quem um dia foi forte
A poesia é finda
O poeta, mudo.

Sobremesa: "Give me a reason to love you/ give me a reason to be a woman". (Glory box - Portishead)

13 de agosto de 2004

O velho e o gato
Raquel Medeiros

Antônio, seus 87 anos, sua cadeira de balanço, seu cochilo depois do almoço. O gato sentado no seu colo, pensava na quantidade de coisas pelas quais Seu Antônio já teria passado. Viu tantas coisas serem inventadas; tantas coisas serem destruídas. Viu três dos seus nove filhos morrerem. Também perdeu um neto, o Luizinho, atropelado por um ônibus. Seu Antônio detestava ônibus - pelo Luizinho, e também porque preferia a viagem de trem.
O gato se perguntava se nas sete vidas as quais tinha direito, veria tanta coisa quanto o velho.
Seu Antônio dormia com a tranquilidade de quem cumpriu a missão aqui. Poderia morrer ali mesmo, naquela cadeira. Aliás, seria um belo fim para ele. Morrer na sua cadeira, durante o seu cochilo pós-almoço. A cadeira balançando, diminuindo o ritmo do balanço, até parar. Seria perfeito. Seria poético. E ele - o gato - ali no seu colo, presenciando tudo. O único espectador.
A pessoa da família que o gato mais gostava era o velho. Pensando bem, a sua vida não teria muita graça sem ele. O gato olhou atentamente para o velho, viu que ele ainda respirava e ficou aliviado. Desejou morrer antes de Seu Antônio. Ali mesmo, no seu colo. Na sua cadeira de balanço. No cochilo depois do almoço.

Sobremesa: "Deixo tudo assim/ não me importo em ver a idade em mim/ ouço o que convém/ eu gosto é do gasto". (O velho e o moço - Los Hermanos)

12 de agosto de 2004

Por favor, entre sem bater
Raquel Medeiros

Ele vinha da rua, da boemia, de outras camas. Ela, já cansada de outros orgasmos – dos outros. A noite tinha sido intensa, mas a visita dele ela não podia recusar.
Tudo foi sarado com um beijo – a porta batida na cara, os palavrões inflamados, os insultos à sua perna manca. Ele sabia que para ela o dinheiro não valia muita coisa; mas doses de carinho compravam quase tudo. E assim ele comprou, inclusive o amor dela.

Sobremesa: “Mas é carnaval/ não me diga mais quem é você/ amanhã tudo volta ao normal/ deixa a festa acabar/ deixa o barco correr/ deixa o dia raiar que hoje eu sou da maneira que você me quer/ o que você pedir eu lhe dou/ seja você quem for/ seja o que Deus quiser”. (Noite dos mascarados – Chico Buarque)

9 de agosto de 2004

Sem abraço na despedida
Raquel Medeiros

Broncas e brigas me tiram do sério
Faça dar certo, por favor
E traga de volta aquela música
Porque eu já estou até me acostumando
Com a sua dor.

Eu fingindo dormir
Pra não te ver arrumando as malas
Esvaziando as gavetas
E escrevendo num bilhete
As suas últimas falas.

Levantei mecânica
Como fazia quando ainda era sozinha
Tive noções de saudade
Ao ver tudo pela metade
No quarto, na sala, na cozinha.

No bilhete, "até logo"
Mas sinto que não vais voltar
E a sua tatuagem
Vai virar miragem
Quando eu te ver passar.

Sobremesa: "Adeus você/ eu hoje vou pro lado de lá/ estou levando tudo de mim/ que é pra não ter razão pra chorar/ vê se te alimenta e não pensa que eu fui por não te amar". (Adeus você - Los Hermanos)

6 de agosto de 2004

Derreta
Raquel Medeiros

Há uma fina, mas resistente camada de gelo acima de mim, dificultando minha respiração, congelando meus sentimentos. Não consigo quebrá-la. Quebrei o punho e alguns órgãos internos tentando.
Aqui embaixo está muito frio. Perdi a cor. Perdi a dor. Tudo está dormente – meus lábios, seios, braços e anseios.
E você que me julgava forte. Venha aqui e veja com seus olhos o que restou da minha solidez. Veja o estrago da sua sordidez.
Eu fiquei aqui esperando você. Veio a noite e você... nada. Veio o dia e você... nada. Eu nado, nado e nada. Nada de você.

Sobremesa: "Oh can anybody see the light/ where the morn meets the dew/ and the tide rises". (Strangers - Portishead)

3 de agosto de 2004

Versos a duas mãos*
Raquel Medeiros

Palavras batizam filhos; batizam armas
Desistem dos desafios; desistem das más ações
Riem à falsidade dos elogios
Explodem à sinceridade dos palavrões.

Tão bom brincar com elas no céu da boca
Ruim é procurar a que melhor expressa
A que melhor descreve; a que melhor se adapta.

Desejo ou vontade?
Saudade ou falta?

Que as palavras estejam afiadas
Mas não te cortem a carne
Que cada verso seja a redenção dos meus pecados
Que perdoem a má escolha das sílabas,
A má disposição
A preguiça de procurar sinônimos
E só querer jogar com as que tenho à mão.

Dê-me uma delas; a mais bonita
A que condiz com a tua vontade
"Preciso pensar - essa é difícil
Mas acho que a palavra é liberdade".

Sobremesa: La dispute - Yann Tiersen (trilha sonora de O fabuloso destino de Amélie Poulin)

* Co-autor me fez prometer que não colocaria seu nome. Pronto. Promessa cumprida.