29 de março de 2006


"Morena dos olhos d'água, tire os seus olhos do mar
vem ver que a vida ainda vale o sorriso que eu tenho
pra lhe dar". (Chico Buarque)

Jazz me blues
Raquel Medeiros

Todo mundo sabe o que é se sentir só
Alguns sentem mais que outros
Outros fingem mais que alguns.

Solidão é blues sem blue
É pendurar no varal a roupa do amor morto
Com a esperança de que o vento seque a roupa
E traga para o tecido vazio um amor novo
É ver a noite desfilar insana e destilar insônia.

Todo mundo sabe o que é chorar
Alguns choram por falta de saúde
Outros por excesso de saudade.

Choro é jazz que jaz
É desidratar enquanto rega as plantas
Com a esperança de que a água que hidrata ali
Não maltrate, não mate a vida que corre aqui
É chuva que dia de sol nenhum consegue secar.

Hoje é dia de ser só
É dia de chorar
Um sorriso negado
Um recado atrasado
Um nó muito apertado
Um samba cantado em dó.

Com o coração nublado
E na falta de alento
Acendo um cigarro e sento
E sinto que sinto tanto
E que hoje tenho na solidão e no pranto
O meu fado.

Sobremesa: "A vida da gente é mistério/ a estrada do tempo é segredo/ o sonho perdido é espelho/ o alento de tudo é canção/ o fio do enredo é mentira/ a história do mundo é brinquedo/ o verso do samba é conselho/ e tudo o que eu disse é ilusão". (Paulinho da Viola)

16 de março de 2006



"Life is what happens to you
while you're busy making other plans."
(John Lennon)


Escritas da memória
Raquel Medeiros

Sabia que não devia ficar lembrando certas coisas. É tirar casca de ferida. É apertar o lugar da pancada. É colocar sapato apertado no pé calejado. É masoquismo intencional.
A cidadezinha onde cresceu não era muito habitada. Algumas casas pequenas; outras grandes. Casas amarelas, brancas e até azuis. Mais entre elas sempre havia uma árvore, um espaço por onde o vento passava. Por onde o vento passeava.
A menina cresceu e precisou sair de lá. Foi um choro, um sofrimento. Masoquismo necessário. Era hora de crescer, de amadurecer. Mas da mamória, o que não saía era aquele vento, a sensação de liberdade, de leveza e de vida em todas as direções.
Longe, fez o que tinha que fazer - conquistou coisas: trabalho, amor, sofrimento, amizades e desafetos.
Um dia sentiu tantas saudades, apertou tanto a ferida, que ficou sem ar. E o pulmão sufocado pediu pra voltar. Quando chegou na cidadezinha, não havia mais vento. As pessoas tinham construído casas tão altas que parecia que queriam morar no céu mesmo antes de morrer. Curioso é que também construíram um quadrado que as trazia de volta para o chão. Eram dezenas na mesma grande casa vertical, mas poucas delas se conheciam.
O masoquismo inevitável do progresso construiu uma barreira contra o vento. E a menina, agora mulher, precisou construir uma barreira contra a saudade, pra não morrer por falta de ar.

Sobremesa: "A gente vive a fazer anacolutos, pra que as metáforas não se desenvolvam e se transformem em bombardeios sem nenhum eufemismo". (Raquel Medeiros)

6 de fevereiro de 2006


Masks in Venice - Evgen Bavcar

How sexy is the silence?
Raquel Medeiros

A primeira vez que o vi foi num desses bares de luz pouca, com meninas de minissaia sentadas em máquinas de pinball quebradas. Som alto e ruidoso.
Dei três voltas, tomei quatro doses de tequila, dei três espirros e sentei aliviada e corajosamente na mesa em que ele estava. Sem dizer nada, levei um cigarro à boca e ele acendeu, sem hesitação.
Mal dei o último trago e ele me puxa para o centro do bar. Dançamos. Sem pisões no pé. Sem calos. Sem uma única palavra. E eu que sempre fui oxítona de má fé, me senti à vontade naqueles braços. Gargalhei e encarei-o. Sem ensaios.
Encaixe perfeito de lábios, de línguas. De trato e de tato. De olfato e paladar. Algumas voltas e eu não enxergava mais ninguém. Não ouvia nada além da música. E antes que minhas pernas cansassem, estávamos deitados em lençóis que eu não conhecia, mas reconhecia o cheiro neles. O meu e o dele. Não sabia seu nome, se tinha emprego ou não, nem mesmo se aquela era a sua cama, mas naqueles lençóis só haviam resquícios de nós dois.
Ele foi embora sem que eu soubesse se aquele silêncio duraria depois da música. Sem saber se nos apaixonamos.
Tantas outras vezes cruzei as portas daquele bar. As mesmas máquinas de pinball que nunca consertam. A mesma tequila barata. Mas não havia silêncio.
Dancei. O corpo movimentando-se conforme a música. Confome as regras do “estar só”. Conforme a dor. Fechei os olhos acreditando que tudo vai ficar bem. Que vou conseguir dançar outras músicas. “São dois pra lá. Dois pra cá.”

Sobremesa: "Mas é carnaval, não me diga mais quem é você/ amanhã tudo volta ao normal/ deixa a festa acabar, deixa o barco correr/ deixa o dia raiar que hoje eu sou da maneira que você me quer/ o que você pedir eu lhe dou, seja você quem for/
seja o que Deus quiser". (Chico Buarque)

20 de janeiro de 2006


"Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo"
(Vinícius de Moraes)


* Parceria de letras e de vida. De prosa e de poesia. Somos "Rodrigueanas".

Na companhia da luz
Tyara Veriato

Ela estava ocupada em esperar, por isso passou o dia alimentando a ansiedade com pequenos indícios, que iam do toque do telefone, passando pelos os sons vindos da esquina, até a imaginação de como seria a chegada. Acomodou-se na calçada pra ver o carro chegar, depois viu que a melhor estratégia era esperar no pé do portão, com a causalidade de quem acabou de sair. Gostava de provocar encontros furtivos, eram acasos friamente planejados. "Já que o destino não faz, faço eu", a lógica era essa. Às vezes entrava, tomava um copo d'água, olhava para o relógio e dava uma volta na casa, sempre atenta a qualquer barulho. Quando ouvia, saía desembestada, parava a um metro do portão e desfilava calmamente em direção à rua. Foi um dia de pupilas dilatadas e reflexos aguçados. Quando o sol se pôs, estava exausta, mas não desistiu da espera, passou a observar da varanda os faróis dos carros, afinal, na noite as surpresas vêm na companhia da luz.

Sobremesa: "Vou colocar batom vermelho escrevendo "desejo" nos lábios/ sapatos altos calçados lentamente entre uma tragada e outra/ vou arrumar a casa/ enfeitar com flores e fazer um delicioso jantar/ vou colocar gotas de perfume enquanto penso em dedos a acompanhar essas gotas que percorrem o arrepio da pele/ vou acender outro cigarro e caminhar em direção ao portão/ vestido justo colado ao corpo/ espera injusta colada à alma." (Raquel Medeiros)

17 de janeiro de 2006


Let's play together

Rayuela (trecho)
Julio Cortázar

O jogo da amarelinha joga-se com uma pequena pedra que é preciso empurrar com a ponta do sapato. Ingredientes: uma calçada, uma pedrinha, um sapato e um belo desenho feito com giz, preferivelmente colorido. No alto, fica o Céu, em baixo a Terra, é muito difícil chegar com a pedrinha ao Céu, quase sempre se calcula mal e a pedra sai do desenho.
Pouco a pouco, porém, vai-se adquirindo a habilidade necessária para salvar as diferentes casinhas (caracol, retângulo, fantasia, esta pouco usada) e um dia se aprende a sair da Terra e levar a pedrinha até o Céu, até entrar no Céu (...) o pior é que, justamente nesse momento, quando ainda quase ninguém aprendeu a levar a pedra até o Céu, a infância acaba de repente e se chega nos romances, na angústia do divino foguete, na especulação do outro Céu ao qual também é necessário aprender a chegar. E, por se ter saído da infância (...) esquece-se que, para alcançar o Céu, é preciso ter como ingredientes, uma pedrinha e a ponta do sapato.

Sobremesa: Maria tinha uma pedra, um sapato e um caminho/ no meio do caminho, a pedra entrou no sapato/ e Maria nunca alcançou o Céu". (Raquel Medeiros)

6 de janeiro de 2006




"Sem você sou pá furada."
(Rodrigo Amarante)

Sem sinal de fumaça
Raquel Medeiros

Noite insone, como de costume. Na mesa, um maço de cigarros. Vazio. Sinto vontade de fumar e me culpo por isso. O dia não foi bom. Ensolarado por fora. Nublado por dentro. Uma vontade de deixar tudo pra trás. De me deixar pra trás. De não saber quem sou. Por isso desejo um cigarro. Não consigo levantar nem pra contar os trocados para um maço. A que horas você volta? Não quero jantar sozinha de novo. Não quero ver Before Sunrise sozinha pela quinta vez e ficar com saudades dos nossos diálogos. Não quero adormecer no sofá e acordar sozinha, nessa espera vã. Não quero levantar e ter que encarar os outros e a mim mesma. Não quero enfrentar a rotina sozinha. Não consigo. E aquelas nuvens de chuva resolveram se espremer sobre os meus olhos. Mas apesar da dor, do choro e desse imenso vazio, só te peço que quando voltares traga-me um maço de cigarros.

Sobremesa: "O inverno aqui durou muito tempo/ não sei precisar, mas tive crises de choro fantasiadas de resfriados contínuos/ foi uma pneumonia branda/ Eu suo frio só de pensar em injeção/ mas todos os dias me forçava a tomar uma dose cavalar de ânimo pra enfrentar a vida". (Raquel Medeiros)

30 de dezembro de 2005



"Luiza e Tomé", por Henri Cartier Bresson


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Sebastian

Através de um código, Luiza e Tomé sabiam exatamente a hora do encontro. Era sempre numa casinha afastada de onde trabalhavam. Era um casinha simples, de poucos quartos. Tão obstinados que eram, alugaram a casa e reformaram. Ninguém sabia. Só Luiza e Tomé. Colocaram uma cama e um som para satisfazer o lado bom da vida. Luiza fez questão de haver uma cozinha funcional. Tomé exigiu uma pequena adega. Na verdade, não se conteram. Pintavam uma parede, compravam um cd. Compravam uma planta, tiravam fotos e penduravam nas paredes. Ali era como a casa de árvore que toda criança sonha em ter. Um lugar secreto, só deles. E era tudo como sempre sonharam. Mas faziam sem perceber. Pintaram a parede do quarto de leitura de verde. Compraram estante, livros, poltrona, luminária. Panelas, garfos, facas, temperos, geladeira, fogão, bebedouro e até quatro lixeiros (o Tomé é desses preocupados com reciclagem). Compraram guarda-roupas, roupas, lençóis, edredons, algemas, lenços e mais lenços e um cabide lindo. Uma mesinha de madeira, jogos, abajus, pufes, televisão e um pequeno dvd. Depois de uns meses compraram um berço e pararam um de frente para o outro. "Onde estamos?", perguntou Luiza. "De vida feita", respondeu calmamente o Tomé. Luiza deu um sorriso maroto e alisou a barriga.

Sobremesa: "Quando passamos um pelo outro/ tu me dás o prazer de teus olhos, do seu rosto, da tua carne/ e eu te retribuo com o prazer do meu peito, das minhas mãos, da minha barba". (Walt Whitman)

26 de dezembro de 2005





















Madonna - Kenneth Andersson

* À mulher mais admirável que eu conheço. Da Paz no nome, e na alma.

Paz
Raquel Medeiros

Sonha. Alimenta. Gera. Cria. Trabalha. Acalenta. Constrói. Cuida. Sente. Pensa. Ri. Chora. Insiste. Enfeita. Encanta. Luta. Vence. Verbos traduzidos por um substantivo único. Feminino e singular. Mãe.

Sobremesa: "Moça, olha só o que eu te escrevi/ é preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê". (Los Hermanos)

15 de dezembro de 2005

Elliot's attraction to all things uncertain
(Joe Sorren)

Classificados
Raquel Medeiros

Compro um ano novo, 2006, com muitas portas e janelas. Com ar quente na nuca e ar frio na rua. Travas elétricas para palavras que não devem ser ditas e tapas que não devem ser dados. Alarme para os inimigos. Air bag para o perigo dos maus pensamentos. Tração nos braços e pernas para sair das situações difíceis. Bancos sem encosto e sem mau-olhado. Cintos de segurança para os dias turbulentos e teto solar para espantar o mofo da alma. Direção variável e chave de ignição codificada para o coração. Pago à vista pra receber em 12 prazerosos meses. Tratar com a proprietária deste vale.

Sobremesa: "Esperando a festa, esperando a sorte, esperando a morte, esperando o Norte/ esperando o dia de esperar ninguém, esperando enfim, nada mais além da esperança aflita, bendita e infinita do apito de um trem". (Chico Buarque)

26 de novembro de 2005




















Júlio Cortazar e um de seus gatos.

Rayuela - trecho (capítulo 5)
Júlio Cortázar

Essa vez, e só essa vez, excitado como um matador mítico para quem matar é devolver o touro ao mar e o mar ao céu, maltratou a Maga numa longa noite da qual pouco falariam mais tarde, fez dela Pasífae, dobrou-a e usou-a como a uma adolescente, conheceu-a e exigiu-lhe as servidões da mais triste puta, magnificou-a em constelação, teve-a entre os braços cheirando a sangue, fê-la beber o sêmen que corre pela boca como um desafio ao Logos, chupou-lhe a sombra do ventre e do sexo, erguendo-a depois até o seu rosto, para untá-la de si mesma, numa ótima operação de conhecimento que só o homem pode dar à mulher, exasperou-a com pele e pêlo e baba e queixumes, esvaziou-a até o máximo da sua magnífica força, lançou-a contra um travesseiro e um lençol e sentiu-a chorar de felicidade contra seu rosto, que um novo cigarro devolvia à noite do quarto e do hotel.

Sobremesa: "Nem tudo estava perdido/ que dos dois dependia tentar um encontro legítimo/ agora ela conhecia as regras do jogo/ talvez nos fossem favoráveis dado que não faríamos outra coisa senão nos procurar." (Júlio Cortázar)

19 de novembro de 2005




















Sphere port - MC Escher

Regulamento
Raquel Medeiros

No meu andamento
Passo lento
No rosto, o vento
No corpo, o tempo.

No meu comprimento
Corte e caimento
Fora, passatempo
Dentro, pensamento.

No meu centro
Eterno confrontamento
De um lado, intenso
De outro, isento.

No meu comportamento
Justo dicernimento
Aos amigos, reconhecimento
Aos inimigos, esquecimento.

No meu sentimento
O coração oriento
À dor, esmagamento
Ao amor, comprometimento.

No meu julgamento
Rimas argumento
Acerto, com intento
Erro, sem lamento.

No meu falecimento
Perfeito acabamento
Aos segredos, convento
Aos desejos, cumprimento.

No meu regulamento
Regras invento
Atenuo o envelhecimento
Acentuo o renascimento.

Sobremesa: "Eu vim com pão, azeite e aço/ Me deram vinho, apreço, abraço/ o sal eu mesmo faço." (Millôr Fernandes)

2 de novembro de 2005




















"Para a mesa que vai ser posta,
para você o que você gosta: diariamente."
(Marisa Monte e Nando Reis)


* Outdoor da Calvin Klein. Foto por Steven Klein.

As marcas do amor
Raquel Medeiros

Coca-cola de segunda à sexta. Uma taça de Merlot no sábado à noite, antes do prato principal, naquele restaurante italiano. Mais tarde, uma cama comprada na Tok&Stok, com lençóis de seda para beijos altos e tato apurado. Chet Baker no nosso Phillips. Domingo de manhã, maçãs e morangos comprados num pequeno supermercado perto de casa. À tarde, ver um filme no nosso Sony. Preguiça. Gula. Cobiça. Luxúria.

Um machucado no peito. Merthiolate spray na ferida. Já vem com sopro. Não dói, mas também não sara. Não pára. Não cala. Palavrões retirados de um texto de Millôr, devidamente cuspidos no rosto protegido com Sundown 15 FPS. Protege do sol, mas não protege do incêndio.

Tristeza e decepção afogadas em garrafas de Johnnie Walker Red e um maço do novo Free. Agora free. Agora só. Nenhuma mensagem. Nenhuma chamada não atendida no Siemens MC 60. Portishead ao vivo em Roseland. Tragos entre agudos e graves. Saudade aguda. Tristeza grave. A solidão do gato de um livro de Cortázar. Corta os pulsos com Gillette cega. Esgota-se como um conta-gotas. Não morre. Estanca o sangue com um coagulante da Roche. Estanca a vida, mas não estanca a dor. Adormece com dois comprimidos de Neozine. Acorda depois de três dias, calça um par de Havaianas, porque depois de tanto cinza, fez um dia de sol.

Sobremesa: "Para brincar na gangorra: dois". (Marisa Monte e Nando Reis)

25 de outubro de 2005














Audrey Tautou e Mathieu Kassovitz em

Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain

Taquicardia
Raquel Medeiros

Se é dia, espero
Se é noite, exaspero.

Pernas que vacilam
Tez que enrubesce
Esse desejo sempre cresce
Nas minhas mãos
Que oscilam.

Se é dia, espero
Se é noite, exaspero.

Que o amor não me cegue
Mas me cerre os olhos
E quando a noite
Pintar o céu de negro esmalte
Que o amor me agarre
E não me solte.

Se é dia, espero
Se é noite, exaspero.

Que a mão que afaga
Me apedreje
Em dias masoquistas
E que despeje em minha pele
Todas as suas
Vorazes carícias.

Se é dia, espero
Se é noite, exaspero.

Que não seja prisão
Que não seja missão
Que não seja obrigação
Que seja sina
Que seja rima
No íntimo coração

Se é dia, espero
Se é noite exaspero.

Que seja viril
Que seja charmoso
Como música no vinil
E que por hora temeroso
Jamais seja vil.

Se é dia, espero
Se é noite, exaspero.

Que me acalente
Que me tente
Sereno na dor
Ardência,
Me livre de qualquer amor
Que não seja febril.

Se é dia, espero
Se é noite, exaspero.

Que nem sempre seja alinhado
Que haja aqui e ali
Uma bifurcação na estrada
E que seja o sujeito nunca indeterminado
Da minha ação mais desejada.

Se é dia, espero
Se é noite exaspero.

Sobremesa: "We were talking.../ about the space between us all/ and the people/ who hide themselves behind a wall of illusion/ never glimpse the truth/ when it's far too late... when they pass away.../ We were talking about the love/ we all could share/ when we find it.../ to try our best to hold it there (with our love)/ with our love we could save the world/ if they only knew..." (The Beatles)

16 de setembro de 2005























"Para um substantivo pobre
Só um predicativo nobre
Aufere graça ou ilusão."
(Julliana Veloso)


Looser
(Raquel Medeiros)

Quem perde a asa
E ainda quer ser passarinho
Não merece um ninho
No quintal da minha casa.

Quem perde o respeito
E ainda quer ser amado
Não merece afago
Nem lugar no meu peito.

Quem perde a passagem
E ainda quer ser visita
Não merece a vista
No percurso da viagem.

Quem perde a esperança
E ainda quer ser lembrado
Não merece ser retrato
Na minha lembrança.

Quem perde o trato
E ainda quer ser enfeitado
Não merece cuidado
Nem delicadeza do meu tato.

Quem perde a razão
E ainda quer ser alcançado
Não merece ser amparado
No momento do furacão.

Quem perde a qualidade
E ainda quer aquisição
Não merece renovação
No prazo de validade.

Quem perde o essencial
E ainda quer ser o foco
Não merece lugar no bloco
Do meu carnaval.

Quem perde a garantia
E ainda quer ser sina
Não merece doçura da minha rima
Só merece o desprezo da minha poesia.

Sobremesa: "Tem sempre o dia em que a casa cai/ pois vai curtir seu deserto vai/ mas deixa a lâmpada acesa/ se algum dia a tristeza quiser entrar/ e uma bebida por perto/ porque você pode estar certo que vai chorar." (Vinicius de Moraes e Toquinho)

6 de setembro de 2005













"I'm so tired of playing
playing with this bow and arrow" (Portishead)

* Na foto, Beth Gibbons.

Naquele bar
Raquel Medeiros

Encontraria o amor naquele bar? Putas disputavam com travestis a atenção dos poucos homens que estavam lá. Desses poucos alguns não viam água e sabão há pelo menos três dias. Mas o que importava? Ela não queria casamento, nem filhos, nem casa hipotecada. Queria amor. E amor não precisa de cerimônias.
Era um bar deprimente. Luz pouca, balcão sujo, e uma velha máquina no canto tocando alguma coisa do Roberto. Uma música antiga, e pra ela, desconhecida.
Ela não era lá de se jogar fora. Um vestido vermelho, sedutor até certo ponto. Já gasto, já largo para o pouco corpo. Pernas finas cambaleavam num salto. O movimento desajeitado lhe emprestava algum charme, parecia elegante caminhar como se estivesse numa corda bamba.

Num canto do bar, um senhor calvo, magro. Boa aparência, barba feita. Bebia tequila e fumava um cigarro de menta. Era o que se podia chamar de uma pessoa sem rótulos. Não que isso fosse essencialmente bom. É como um vinho que você não sabe a procedência, e conseqüentemente não sabe se o tempo o fez ficar mais saboroso ou com gosto de vinagre.
Depois de algumas doses, ele chorava e falava de ter tido poucas mulheres, que lhe dedicavam palavras indecentes à noite e pela manhã sua carteira tinha algumas notas a menos, alguns objetos a menos no seu apartamento já tão vazio. Seu peito com um vazio a mais. Ele não queria casamento, nem filhos, nem cheiro de lavanda nos lençóis.Queria amor. E amor não precisa de grandes provas.

“Tem uns quartos ali atrás. Bem baratos e razoavelmente limpos”. Ela foi.Uma cama.Um ventilador barulhento. Uma luz amarelada. Tiraram os sapatos e deitaram. Um ao lado do outro. Ela olhava para o ventilador e pensava quantas voltas ainda teria que dar até que algo mudasse. Em seguida, deu um longo suspiro. Estava cansada das tantas noites que terminavam num quarto atrás de um bar. Mas ali, ao lado do homem sem rótulos, ela se sentia bem. Havia alguma mágica entre eles. Não eram duas pessoas que amenizavam a solidão um do outro. Era uma solidão conjunta, ainda assim grande, mas parecia melhor do que estar completamente só. Talvez fosse o amor. E amor precisa de cumplicidade.

Sobremesa: "Nobody loves me/ it's true/ not like you do" (Portishead)

1 de setembro de 2005














The second life of Samuel Tyne - Matt Murphy

De um gole só
Raquel Medeiros

Ele levanta e vai ao bar
Lá discute o futebol
A crise instalada
A reforma no banheiro
Tantas vezes adiada.

Ele trabalha e vai ao bar
Lá bebe a cachaça
Mas nada é de graça
Pelo menos o dinheiro da pinga
Ele precisa ganhar.

Quando volta do bar
Equilibrista nato
Eu já estou tão farta
Que quase enfarto
Só de vê-lo chegar.

Pede que lhe sirva o jantar
Eu cá nas minhas preces
“O que fiz pra merecer essa vida?”
E ponho mais um pouco de comida
No prato que depois vou lavar.

Sobremesa: “Quando a noite enfim lhe cansa/ você vem feito criança/ pra chorar o meu perdão/ qual o quê/ diz pra eu não ficar sentida/ diz que vai mudar de vida/ pra agradar meu coração/ E ao lhe ver assim cansado/ maltrapilho emaltratado/ como vou me aborrecer/ qual o quê/ logo vou esquentar seu prato/dou um beijo em seu retrato/ e abro os meus braços pra você”. (Chico Buarque)

27 de agosto de 2005















Ilustração de Mark Riden

Out of season
Raquel Medeiros

“And many rains turn to rivers
Winter’s here
And there ain’t nothing gonna change”

Doses cavalares de coragem pra levantar da cama mais trinta e cinco minutos de resistência e a dor de mais um dia começa a diminuir. Um pé na frente do outro pra qualquer lugar, que até para o precipício é preciso dar o primeiro passo.
Nas ruas, as pessoas estão sempre indo, vindo, chegando, saindo, esperando. Espera passar a chuva pra sair de casa. Espera o ônibus. Espera que a fome chegue ao meio-dia, e que o cansaço vá embora às duas da tarde. Espera que à noite haja algo melhor do que essa espera, algo que compense esse eterno ir e vir. Pode ser amor, ilusão, embriaguez, análise.
À noite, as ruas se enchem de olhares aflitos, de olhos famintos, de cigarros solitários, de corações remendados. Todas essas pessoas com um vazio que tem a audácia de querer ser preenchido. Um vazio personificado como uma divindade.

“Everybody knows this time
shadows are drifting in silence
where lost can’t be found
everybody knows this time.”

É frio que fogueira nenhuma aquece. É insônia que remédio nenhum resolve. Essa velha saudade que vem desde o dia que se descobre que veio do ventre da mãe e que não pode mais voltar pra lá. Esse choro. Essa água de lágrima onde peixe nenhum consegue nadar, pois peixes não nadam em cachoeiras.

Sobremesa: "Que seja agosto/ ao meu mais fiel gosto/ sem receio de ser exposto/ posto e deposto/ e mesmo no desgosto/ seja sempre ao meu fiel gosto." (Raquel Medeiros)

* As músicas são, respectivamente, "Funny Time Of Year" e "Sand River", da Beth Gibbons.

18 de agosto de 2005

Michelle Pfeiffer e John Malkovich no filme
Ligações Perigosas.

It’s a fire
Raquel Medeiros

Passou a língua na nuca dele como se estivesse lambendo uma gota de sorvete que escorreu pela casquinha. Delicioso aquele pescoço. Visão do paraíso com o ardor do inferno. Quarenta graus na sombra.
Música no vinil. Os estalos do disco encobriam os beijos altos. Festim de palavras indecentes, ditas em tons agudos e graves. Melodia ascendente de gemidos e sussurros.
Falta de senso. Incenso. Incêndio.
Ela derretia com o toque dele como uma pintura de Dali. Goya. Glória.
Líquida e salgada, provocava ainda mais sede. E ele a bebia como um vinho de boa procedência, guardado na melhor adega, para a ocasião perfeita.
Lutam como se o prazer do outro fosse um território a ser explorado à exaustão. Investigação com indicações óbvias. Sêmen. Suor. Saliva. Sorriso.
Embriagados. Extasiados, se aninham nos braços um do outro. Descansam. Olhos nos olhos. Insones. Insanos. O desejo não cessa. Recomeça a música. Provocaram rimas. Gozaram versos. E quando o sol já aplicava tons claros no esmalte preto da noite, eles tinham incontáveis poesias desvairadas. Incansáveis odes proclamadas. Inspiração e ansiedade na espera de mais uma madrugada.

Sobremesa: "Eu faço samba e amor até mais tarde/ e tenho muito sono de manhã." (Chico Buarque)

28 de julho de 2005


"É que eu já sei de cor qual o quê dos quais e poréns,
dos afins, pense bem ou não pense assim." (Rodrigo Amarante)

Música pop sem refrão
Raquel Medeiros

Sapatos apertados para dança
Calos e estalos em aliança
Solo em desesperança
Entrar no ritmo às vezes cansa

Faca na garganta
Sangue que nunca estanca
Palidez que avança
Morrer às vezes cansa

Minha obra completa
É uma poesia incerta
Na trajetória nem sempre reta
A postura nem sempre é ereta.

Mas vamos aos fatos
Esse texto fraco
Só reflete
A minha falta de tato
Pra jogar fora
A pedra no sapato.

Sobremesa: "Life is what happens to you while you're busy making other plans." (John Lennon)

18 de julho de 2005

* Não consegui postar imagens. nem textos meus. Vai um trecho de Rayuela, de Júlio Cortázar.

Por que nos enganaríamos um ao outro? Não é possível viver ao lado de um saltimbanco das sombras, de um domador de cupins. Não é possível aceitar um cara que passa o dia desenhando com os anéis furta-cores feitos pelo óleo nas águas do Sena. Eu, com os meus cadeados e as minhas chaves de ar, eu, que escrevo com fumaça. Vou lhe poupar a resposta, pois vejo-a chegar: não há substâncias mais letais do que as que se metem por qualquer lugar, que se respiram sem saber, nas palavras, no amor ou na amizade. Já é tempo de me deixarem sozinho, só e sozinho.

Sobremesa: "Já conheço os passos dessa estrada/ sei que não vai dar em nada." (Chico Buarque)