25 de janeiro de 2005


Glub - Alexandre Fermar

* Obrigada pela ilustração, Alexandre. Tem dias que ela perece um espelho... beijos.

Ví(cio)s
Raquel Medeiros

Telefone e despertador tocando ao mesmo tempo. Não quero levantar. Ainda estou sob efeito das drogas da madrugada – o som do trem noturno no seu percurso sem desvio, alguns comprimidos coloridos, resquícios de presença masculina nos lençóis e a insônia (desta não me livro nunca!).
Telefone e despertador tocando ao mesmo tempo. Parecem ensaiados. Não levanto. Sei que não conseguiria falar com ninguém hoje. Sinto uma dor fina e insuportável no peito. E algo interrompendo a passagem da saliva. Estou irremediavelmente engasgada... Deve ter sido um daqueles comprimidos coloridos...

Sobremesa: "E agora Maria?/ o amor acabou/ a filha casou/ o filho mudou/ teu homem foi pra vida/ que tudo cria a fantasia/ que você sonhou/ apagou à luz do dia/ e agora Maria?/ vai com as outras/ vai viver com a hipocondria." (Alice Ruiz - paródia do poema "José", de Carlos Drummond de Andrade)

20 de janeiro de 2005


Letters of desire - Yuko Shimizu

Há um voyeur em cada um de nós
Raquel Medeiros

Não espere que eu diga “eu te amo”. Aliás, não espere que eu ame você. Esse amor que você grita aos quatro cantos é mero capricho seu, é um jeito de tentar me fazer ficar, de enganar alguns dos meus órgãos-não-racionais.
Mas como é bom num dia como hoje te vestir na fantasia de carrasco e contar minhas mágoas aqui. O quanto você me faz sofrer... quando nega o jogo e o fogo; quando viaja; quando volta e dorme; quando não dorme em casa...e tantas outras coisas que só dizem respeito a nós dois.
Você até fica mais sexy nessa fantasia de carrasco que na de “homem apaixonado”. Você não sabia, mas é isso que me faz ficar. Eu nunca te falei que era um pouco masoquista? Certo, talvez nem tão pouco assim... eu te amo. Volta logo que eu tô com saudades. E vontades também.

Sobremesa: "Paixão é quando o demônio está nu/ sexo com quem ama é muito mais satânico/ não precisa ser um amor pra sempre/ pode ser um amor de repente/ qualquer amor inferniza." (Clarice Lispector)

14 de janeiro de 2005

Onde está a poesia?
Raquel Medeiros

Onde está a poesia?
Dizem que foi rua acima
Reclamando a paz perdida
Dizendo que tem mais o que fazer da vida
Que se preocupar em fazer rima.

Onde está a poesia?
Dizem que foi na casa da vizinha prosa
Reclamando a alegria perdida
Dizendo que tem mais o que fazer da vida
Que ser letra dolorosa.

Onde está a poesia?
Dizem que dobrou a esquina
Reclamando a juventude perdida
Dizendo que tem mais o que fazer da vida
Que ser velha ao invés de menina.

Onde está a poesia?
Dizem que foi pra outro país
Reclamando a felicidade perdida
Dizendo que tem mais o que fazer da vida
Que ficar nesse blog infeliz.

Sobremesa: "Tem dias que ela se revolta/ com a letra torta/ com a felicidade morta/ eu que não quero confusão/ deixo ela num canto/ louvo o riso/ respeito o pranto/ e ela que volte quando estiver pronta/ quando quiser o coração." (Raquel Medeiros)

11 de janeiro de 2005


Charlie Brown - Andrei Formiga

* Adorei a foto, e o Charlie Brown. Obrigada. =)

Mesmo enrugadas, não haviam mãos tão amadas quanto as dela
Raquel Medeiros

Quando a conheci já vivia sozinha. Filhos casados morando longe. Visitas periódicas no verão, e no Natal. Mas nas segundas-feiras, dias chuvosos e tristes éramos só nós dois.
Era uma mulher de grandes silêncios e de gestos significativos. Eu ouvi seus segredos e ela sempre dizia que eu havia trazido a alegria de volta àquela casa, mesmo quando a sujava depois das brincadeiras no quintal.
E a vida que antes se resumia à lágrimas na sala grande e vazia, agora era contada por passeios, brincadeiras e carinhos ao som da tv.
Os anos foram passando, eu fui crescendo e vendo ela perder cada vez mais o viço da pele e a audição. O volume da tv cada vez mais alto. Eu também já tinha um certo cansaço, e notando o dela, já não subia mais na saia de retalhos, mas demonstrava meu carinho e gratidão balançando o rabo, e pousando minha cabeça em seu colo, quando sentava na poltrona, que de tão antiga, já tinha a forma do corpo dela.
Um dia ouvi um barulho estranho, e ao entrar na sala, lá estava seu corpo, quieto e frio. Seu sangue espalhado no assoalho escuro. Eu latia e uivava num pedido de socorro. Os vizinhos vieram, e no velório a casa estava cheia como nunca. Eu queria que ela estivesse viva pra ver todos os netos correndo pela casa, todos os filhos reunidos, abraçados.
Eu fui pra o meu canto, e senti quando uma mão me fez um carinho solidário. Mas eu sabia... Nada confortaria a ausência dela, nem tiraria a certeza de que um dia seria eu.

Sobremesa: "Irreconhecível/ me procuro lenta nos teus escuros/ como te chamas, breu?/ tempo." (Hilda Hilst)

10 de janeiro de 2005


Portrait of Emily - Joe Sorren

A solidão é senhora
Raquel Medeiros

- Descreve o cheiro do teu amor, Maria.
- Acho que não consigo... mas posso tentar...
Maria fechou os olhos, e como se não houvesse mais ninguém naquela sala, desatou a falar:
- É cheiro de tarde com poesia, com beijos dados à frente de casas de portões pequenos. É cheiro de saudades e vontades que não têm fim...
É cheiro de verdades ditas no silêncio, e nas tantas reticências que saem dele e refletem em mim...
É cheiro que provoca essa eterna procura por sílabas e rimas. Mas amor não tem forma, nem métrica.
Descrever o cheiro dele assim, sem tê-lo, assumo que vou fracassar... desistir... Pois sua ausência não me traz nenhum alento, ao assustador movimento de pensar e não tocar... de escrever e não sentir...
Só sei que tudo o que eu queria agora era o cheiro dele... sentí-lo em longas paradas na nuca...
Ah, releve a incapacidade de descrever...é uma maldade ficar lembrando do cheiro... do gosto... dele...
Por hora, essa é a melhor definição que consigo fazer...
Quando abriu os olhos, não havia mais ninguém na sala, mas o cheiro dele estava espalhado por todo o lugar... Há muito tempo ela não sentia... Essa era a segunda sessão de terapia, desde a morte do Fernando. Depois disso, Maria não voltou mais pra terapia... nem pra casa...

Sobremesa: "I seem to lose the power of speech/ you're slipping slowly from my reach/ you grow me like an evergreen/ you've never seen the lonely me at all/ (...)/ without you I'm nothing." (Placebo)

5 de janeiro de 2005


"Ying and yang" - Yuko Shimizu

A toda “não-ação” corresponde uma reação
Raquel Medeiros

De um lado, a sala – mesa, cadeiras, papéis, e ele. De outro, uma máquina fria e ela. Seguia-o com os olhos e com um desejo que não tinha tamanho... aliás, tinha sim – era imenso. Havia desejo demais... gente demais... ele de menos...
Ele saía. Deixava-a a ver navios. Ela mesma se sentia um, ancorada na cadeira, de onde não conseguia sair. Sabia que não era uma embarcação feita pra ficar presa no porto, mas sair dali - naquele momento - era impossível.
Formava-se um grande intervalo entre a saída e a volta dele. Ela esperava e divagava acerca do cheiro dele, da textura da pele, e das tantas possibilidades que aquele conjunto lhe proporcionava. Havia desejo demais... gente demais... ele de menos...
Ela cruzava as pernas na vã tentativa de senti-lo enroscado entre elas. Contorcia-se na cadeira, massacrando o desejo e algumas partes do corpo. O voyerismo era latente, e percebia-se uma certa dose de masoquismo. Nem tinha idéia de como certas torturas podiam ser mais prazerosas que carinhos singelos.
Quando ele voltava, ela seguia - com os olhos e a imaginação - cada centímetro dele. E como cada pedacinho era tentador! Boca, nuca, olhos, ombros... Ele a deixava faminta, sedenta. Havia desejo demais... gente demais... ele de menos...
Ele ia e vinha, passeava na frente dela. Contornava a mesa, sumia. Parecia fazer de propósito, mas não era. E isso a deixava ainda mais instigada. Exasperada pela volta.
Ela queria que ele voltasse, e dissesse que por um decreto, ou mágica, a partir de então, se privariam da coletividade, e se entregariam ao individual. Que a partir de hoje, ela faria morada no corpo dele.
Numa dessas horas em que ele se mostra, ela vê e aperta as mãos como gostaria de apertar o corpo dele... ou abrir o maldito jeans e gozar enquanto sondava o desejo dele...
Não é um desejo manso. Não há acordo de cavalheiros entre a vontade e a impossibilidade. São dias de febre. De fome e sede. Mas ela não pode fazer nada, a não ser esperar... outro dia de tortura... ou o esperado dia do banquete...
Há desejo demais... gente demais... ele de menos...

Sobremesa: "E existindo o desejo/ a gente começa a se desorganizar/ a pôr amor onde existe a turbulência/ porque a desordem é o imperativo do amor/ e eu que não sei se o amor é também a necessidade que se tem de instaurar a ordem no corpo." (Nélida Piñon)

3 de janeiro de 2005

Mesmo na queda, mantenha sempre o pensamento elevado
Raquel Medeiros

Passado o dia dos versos melosos
Me sobra alguma saudade
Dos dias gloriosos
Algum cansaço dos dias dolorosos.

Na caixa, ficaram os sorrisos
E as lágrimas tratei logo de enxugar
Quero que ela se encha de abraços
Lugares, desejos, amores e amigos.

Essa ânsia de viver não cessa
E mesmo que meu corpo por vezes tropeçe
Eu não canso de levantar
De limpar os arranhões
De jogar fora o salto quebrado
E rir do tombo levado
Que nem criança que cai
Mas sempre volta a brincar.

Sobremesa: "Eu lhe disse, então, se não quer discutir o amor, que afinal bem pode estar longe daqui, ou atrás dos móveis para onde às vezes escondo a poeira depois de varrer a casa, que tal se após tantos anos eu mencionasse o futuro como se fosse uma sobremesa?" (Nélida Piñon)

27 de dezembro de 2004


"Agora, imediatamente, é aqui que começa o primeiro
sinal do peso do corpo que sobe." (Ana Cristina Cesar)

* Imagem de "Vincent", primeira animação de Tim Burton.
Ambos dispensam comentários ("Vincent" e seu criador)

Degraus
Raquel Medeiros

De vez em quando levo um tropeço
De vez em quando carrego o cansaço.

De vez em quando vejo o fim da escada
De vez em quando não enxergo nada.

De vez em quando sinto solidão
De vez em quando alguém me dá a mão.

E enquanto escrevo continuo subindo
Já consigo até ver a porta do sótão.

Sobremesa: "Parece que há uma saída exatamente aqui onde eu pensava que todos os caminhos terminavam. Uma saída de vida. Em pequenos passos, apesar da batucada." (Ana Cristina Cesar)

25 de dezembro de 2004

Tentei postar uma foto, mas o hello não quis.
Hoje não tem sobremesa. Relevem... nem o prato principal eu consegui fazer...

Desejos Vãos
Florbela Espanca

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!...

21 de dezembro de 2004


"Custa-me a acreditar que se chegue um dia à
demonstração de que somos obra de um ser
supremo e não, como parece, de um ser muito
imperfeito que nos fabricou à laia de passatempo."
(Lichtenberg)

* Foto feita por Win Wenders, que era fotógrafo antes de ser cineasta.

Cada um tem, em seu próprio labirinto, o minotauro que merece
Raquel Medeiros

És imenso
E mais forte que eu
Minha fé já morreu
Desse teu veneno intenso.

E ter que enfrentar
Quando quero fugir
E ter que resgatar
O tão fragil palpitar
Do coração que não pára de partir.

Esperar ou me atirar?
A fumaça do cigarro que nunca encerra
E que não traz resposta ou alento
A esta criatura
Pequena demais pra tanto sofrimento.

Sobremesa: "Avançavam assim pelas páginas/ maldizendo e fascinados/ e a maga terminava sempre por enroscar-se como um gato sobre uma poltrona/ cansada de incertezas." (Julio Cortázar)

13 de dezembro de 2004


Hapless - Edward Gorey

*Adoro demais esse Gorey. Desenhos e textos.
Esse desenho aí em cima é uma "tradução" das minhas últimas semanas...
Tô cansada pra atualizar isso aqui também. Já já eu volto. Mas a minha medida de "já" pode ser diferente da sua...

Inveja daquela que nunca cansa do salto
E nem tem calos no pé
Eu já joguei tudo pra o alto
Inclusive a fé.
(Raquel Medeiros)

Sobremesa: "Abraço rima com cansaço/ mas abraço é bom/ e o cansaço já me tirou o tom". (Raquel Medeiros)

6 de dezembro de 2004


...amor, amigo e riso são as únicas coisas que satis(fazem) o dia.

* O meu melhor e maior abraço pra você, Tiago. =**************

Não esquece
Raquel Medeiros

Não esquece
Que aqui tens a minha melhor palavra
Aquela que vai da minha alma
Pra sua alma.

Não esquece
Que aqui tens o meu melhor sorriso
Aquele que nunca é falso
Ou indeciso.

Não esquece
Que aqui tens o meu melhor abraço
Aquele que construiu tantos laços
Aquele que vence qualquer cansaço.

Não esquece
Que aqui tens a minha mão
Aquela que não deixa cair
Nem o corpo; nem o coração.

Sobremesa: "Mãe é verbo/ é substantivo/ é adjetivo/ é exclamação/ e mesmo que a voz cale/ tudo o que ela disse/ fica na memória/ na alma/ e não tem ausência/ que tire a presença do coração." (Raquel Medeiros)

3 de dezembro de 2004


A vontade que nunca vai embora - A vontade de nunca ir embora.

* Carola e João. Um mês de amor. Dois queridos. Queridos demais. Apaixonados. Que é assim que a vida vale a pena.
E podia ser qualquer um de nós, de vocês. Mas hoje o dia é deles... Beijos. =)

Que a saudade que traz o pranto nunca seja maior que a vontade de ser tanto
Raquel Medeiros

Me dá uma gota da tua saliva quente
Que eu faço um mar
Porque o teu desejo deixa o meu ascendente
Não é chuva que molha somente
É tempestade que faz tudo transbordar.

Me dá um pedaço da tua carne quente
Que eu faço um banquete
Porque o teu desejo deixa o meu ardente
Não é entrada somente
É refeição completa que faz tudo saciar.

Me dá um tempo do teu movimento quente
Que eu faço uma dança
Porque o teu desejo deixa o meu permanente
Não é rebuliço de ancas somente
É uma agitação no corpo e na mente
Que não quer findar.

Sobremesa: "Hoje é dia de arrumar a mala/ pra viajar/ hoje é dia de arrumar a casa/ e colocar a saia rodada/ pra esperar o amor chegar/ no coração a vontade faz morada/ e a saudade vai ficar na passagem comprada/ manda um abraço pra aquela tangerina/ um abraço bem apertado/ pois nunca vi um ser tão amado/ como essa menina." (Raquel Medeiros)

1 de dezembro de 2004

O refrão (in)cansável dos dias
Raquel Medeiros

Mais uma manhã. Ela, sentindo-se aquela mulher que faz tudo sempre igual. Com a diferença que ela não tinha ninguém pra esperar, nem pra beijar-lhe a boca cheia de feijão.

Café fraco e com adoçante. Duas torradas, pra não engordar. Pra quê? Se não tinha ninguém que lhe notasse a evidência das costelas. E se o corpo estava mais leve, o coração pesava mais que uma daquelas grandes melancias.

Faxina na casa e lençóis limpos. Pra quê? Se aquela cama não sentia outro cheiro senão o do amaciante. Fazia tanto tempo que não tocava o corpo de um homem, que sequer lembrava o nome do último. Talvez Haroldo... lembrava de algum Haroldo... lembrança distante. Podia ser alguém com quem deitou. Ou o enfermeiro que aplicou a glicose no seu último grande porre.

Mais uma manhã. Ela sentindo-se aquela mulher que faz tudo sempre igual. Com a diferença que ela não tinha ninguém pra esperar, nem pra beijar-lhe a boca com paixão.

Café fraco e amargo. O adoçante acabou.

A única coisa que não acaba na vida da Sandra é a rotina maçante. E a lembrança distante de um certo Haroldo... que podia ser alguém com quem deitou. Ou o cara do andar de baixo, que levou o resto do seu adoçante.

Sobremesa: "Últimos dias do ano/ Andava no ar uma agitação insólita/ todos indo e vindo/ se encontravam/ se separavam/ Pela manhã/ depois de uma noitada no bar ou em casa de alguém/ Eduardo se interrogava ao espelho/ um dia mais velho/ Que estou fazendo da vida?/ se perguntava, e saía para o trabalho." (Fernando Sabino)

29 de novembro de 2004

Textos antigos, só pra tirar um pouco o mofo.

Amanhã
Raquel Medeiros

Amanhã eu não sei
Talvez eu acorde sedado
E pegue o ônibus errado
Só pra ver onde vai dar.

Amanhã eu não sei
Talvez eu acorde inspirado
E minta desavergonhado
Só pelo prazer de enganar.

Amanhã eu não sei
Talvez eu acorde endemoniado
E mate o cara errado
Só pela distração de ver sangrar.

Amanhã eu não sei
Talvez eu acorde finado
E finja estar acordado
Só pra esse verso rimar.


Poema deixado embaixo da porta
Raquel Medeiros

E se falta o abraço
Eu posso desatar esse maldito laço
Que me enforca
Ao invés de me enfeitar.

Por mais que me sobre bondade
A grande verdade
É que o desdém me sufoca
Mais do que posso suportar.

Mas não se importe
Que com um pouco de sorte
Em breve me verás morta
E nem precisa fingir chorar.

Sobremesa: "Esse papel de parede de fungo/ não combina com a decoração do teu quarto/ mas cai bem com a do coração/ no entanto, não deixa isso se alastrar/ abre portas e janelas/ arranca o teto/ e deixa o sol entrar". (Raquel Medeiros)

23 de novembro de 2004

A insustentável certeza de não ter
Raquel Medeiros

Sobrava ainda um pouco de café. Restavam ainda alguns poucos cigarros, e uma tristeza tão grande que não cabia no pequeno apartamento.
Há três horas antes, ele ainda estava lá – esvaziando o guarda-roupa, embrulhando os livros e o estômago dela, levando a Billie Holiday embora... Ao som de ofensas, socos e pontapés morais.
Fim de relacionamento sempre dói, deixa alguma cicatriz, nem que seja lá no cantinho do tornozelo. Com ela não era diferente. Tinha marcas nos pulsos, e nos seios. O peito apertado e a cabeça rodando tanto que precisou sentar, ali, na poltrona dele, que dali a alguns dias ele mandaria buscar, e seria mais um lugar vazio - além da cama, e do coração dela.
Não tinha força pra levantar. Queria sair, comprar mais café, cigarros, e quem sabe um pouco de alegria. Mas não conseguia. Nunca foi a menina que levantava rápido da queda e limpava displicentemente o joelho.
Sempre foi a que ficava muito tempo ainda no chão, vendo os arranhões, o sangue, e a sua incapacidade de lidar com a visão de quem está embaixo, esperando a mão, a ajuda, o abraço.
Acabou o café. Acabaram os cigarros. Mas a tristeza estava lá – mais espaçosa que nunca.
Conseguiu levantar com grande esforço. Foi no quarto, pegar a bolsa pra ir à rua. O cheiro dele espalhado no quarto, as gavetas vazias, a ausência dos sapatos dele. Foi um choro doído. O choro que não saiu quando ele bateu a porta.
Despencou na cama, que assim como a tristeza, parecia grande demais pra ela. Mas agora era só dela.

Sobremesa: "Se você me ama/ por que não se concentra?" (Ana Cristina Cesar)

22 de novembro de 2004

texto velho... de uma época em que a esperança vencia a espera.

Na balança, a espera pesa mais que a esperança
Raquel Medeiros

Um postal da dor
Na esperança de um amor
Essa é a vida da Mariah.

Sonhos pálidos
Olhos já cansados
Da lida difícil de levar.

Pôs um vestido estampado
Cheirando a guardado
Com um perfume pra enganar.

Um pouco de cor nos lábios
Há tempos ressecados
Pela ausência do beijar.

Esperou mas ele não veio
E sua vida ficou assim sem recheio
Morreu, entediada, esperando o amor chegar.

Sobremesa: "A esperança deseja o abraço/ a espera fomenta o cansaço/ pelo menos uma hora na vida/ a gente já morreu na ponta da faca da demora/ que faz passar a hora/ faz esgotar o tempo/ faz a beleza ir embora/ e estragar o sentimento". (Raquel Medeiros)

18 de novembro de 2004


"Sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada,
uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!''
(Florbela Espanca)

*A foto é de Gustavo Soares. =****

Ninguém perde a gente. A gente é que se perde.
Raquel Medeiros

Hoje é dia de mudar a alma de casa. Desocupar os cômodos. Acabar com o incômodo. Esvaziar o corredor, com malas cheias de coisas velhas e em desuso. Jogar fora as panelas vazias, cuja ferrugem já me causou diversas doenças – algumas reais outras inventadas por mim. Porque doença costuma trazer um certo charme à tristeza, dá credibilidade.

Hoje é dia de esquecer sentimentos como afeto, esperança e alegria. É dia de ficar entre a coragem e a covardia. É a bulimia de bons sentimentos. Eu os tomo pra mim, me alimento e depois os vomito. E isso não começou hoje. Já faz tanto tempo que já devo ter uma úlcera emocional – mais uma doença inventada.
Há tempos meus olhos já não se atrevem a fitar os olhos dos outros, desses estranhos, que um dia me foram tão familiares. Meus olhos agora só procuram por uma porta, uma saída...

Hoje é dia de, apesar da distância, dar uma certa satisfação às pessoas que dividem esta casa comigo. Fico em dúvida se escrevo uma carta, se escrevo com batom em todos os espelhos dos banheiros, se ponho um recado na geladeira – bem ali, junto da foto do nosso último verão. Eu e meu corpo que não preenchia o biquini, e a cada onda mais forte lá se ia a parte de cima. Na foto, parecia divertido. Mas hoje não é mais, e minha condição não me deixa lembrança daquela menina que adorava construir castelos. Hoje não construo nada, nem castelo de cartas.

Amanhã é dia de nascer de novo. Num outro lugar, quem sabe até mais bonita. Mais saudável de corpo e mente. Mais confiante. Quem sabe até eu nasça numa família de pessoas conhecidas. Nasça homem e tenha com o que preencher o calção de banho.

Mas hoje, nada de cartas. Nada de espelhos de banheiros riscados com batom. Nada de recado junto à foto do último verão. Eu não sei fazer isso. Nunca soube o que dizer a eles. Hoje não vai ser diferente. Afinal, o que se diz quando se precisa morrer?

Meus olhos acharam, enfim, a saída. Não era uma porta, mas a janela serviu.

Sobremesa: "Não terei podido fazer-te viver isto/ escrevo assim mesmo para você que me lê/ porque é uma maneira de quebrar o cerco/ de te pedir que procures em ti mesmo se não tens também um desses gatos/ desses mortos que amaste/ e que estão nesse aí que já me exaspera mencionar com palavras de papel." (Julio Cortázar)

16 de novembro de 2004

Sleep darling, do not cry
Raquel Medeiros

Da última vez
Trocamos sorrisos pequenos
E abraços amenos
Que não eram meus nem seus.

Agora vês!
Nem abraços nem beijos na despedida
E na hora da partida
Respondestes o meu “até breve”
Com um “adeus”.

Sobremesa: Lutar contra a foice do tempo é vão/ tentar esconder a tristeza é covardia/ hoje é dia de sangrar o coração/ é dia de admitir que amanhã pode ser de alegria/ mas hoje não. (Raquel Medeiros)

11 de novembro de 2004

A difícil condição
Raquel Medeiros

Os gatos vêm aqui com suas unhas afiadas
As pessoas sentam com suas aflições
Sentam com seus cigarros e me queimam o braço
E ainda tem quem ache fácil ser sofá...

As pessoas discutem seus problemas
Discutem sobre o cardápio
Discutem sobre o assoalho
E me batem com os punhos
E ainda tem quem ache fácil ser mesa...

As pessoas vêm com seus pesadelos
Com seus sonhos bizarros
Trazem qualquer um pra deitar em mim
E me causam insônia
E ainda tem quem ache fácil ser cama...

Os gatos vêm com suas unhas afiadas
As pessoas vêm com seus problemas
Discutem o cardápio, o assoalho
Me batem com o punho
E me causam insônia
E ainda tem quem ache fácil ser gente...

Sobremesa: "Traz qualquer coisa de sobremesa/ pudim ou torta de limão/ que às vezes cansa ser assim/ às vezes eu não quero ser são/ tudo o que faço é zombar de mim/ é rir da eterna condição/ e disso tudo ter um fim/ a paixão e a batida do coração/ bom é quando morre o sentimento ruim/ e no lugar fica o perdão/ se isso não fizer sentido/ esquece, que é coisa de coração doído/ não tenta encontrar razão". (Raquel Medeiros)