24 de novembro de 2010



"O sexo está nelas, e o mundo está nelas. E a loucura reside nesse mundo." (Vinicius de Moraes)


Inquietude


Somos dramáticas, segundo ela. Queremos amor de mais, beleza de mais, realizações de mais. Ganhar o jogo no domingo não nos satisfaz, não ganhamos o dia numa partida de videogame. Mesmo na alegria, estamos inquietas, queremos mais, queremos tudo.

Na contramão, estamos sempre procurando o caminho do meio, o equilíbrio. Mas o que é isso para quem é – naturalmente – desequilibrada?! Nem todo mundo nasceu pra malabarista. Por isso, existem os palhaços que fazem de si a própria piada, os mágicos que iludem e há os bailarinos, que na beleza da dança esquecem os próprios calos.

Mulher tenta sempre ser um pouco equilibrista, mesmo quando a vontade é pôr fogo no circo. Um chá, yoga, comida, cerveja, sexo, cigarro, uma corrida no quarteirão. O equilíbrio está sempre em algo que não nos pertence. Não é nosso. Equilibramos a dor com o salto, o batom e a cor das unhas com o desejo, o tamanho da saia com o pecado, o cabelo com a vontade de mudar. No dia seguinte, tênis, acetona, jeans e lenço.

Somos tantas. Enlouquecidas, melancólicas, saudáveis, destrutivas, apaixonadas, incomodadas, tranqüilas, infernizadas, encantadoras. Pacote completo, sem manual de instrução.


Sobremesa: "Diz Frank Sinatra que a arte de conquistar uma mulher se resume em compreender o que ela não diz... Terá Sinatra razão?" (Clarice Lispector)

2 de agosto de 2010


Edward Hopper, Solitary figure in theater, 1902-04

Das Dores

Invejo a chuva que escorre na janela. O céu chora sem constrangimento quando a angústia aperta. Eu não. Tenho que sofrer sem soluço, sem alarde. Tenho que pagar as contas, ligar pra diarista, fazer a feira e fingir que o rio flui sem turbulência. Tenho que ser forte e distribuir bom dias como se realmente fosse.

A dor pode apontar com aquela música enviada num email, com um trecho do livro aberto ao acaso, com um perfume que caminha dentro do ônibus, num convite, entre o almoço e a sobremesa, na hora que você precisa estar centrada, concentrada.

Mas choro exige entrega, e nem sempre convém. Como evitar o olhar de estranhamento no sacolejo do coletivo, na mesa de trabalho, entre as estantes da livraria?

E vou levando, engolindo o que a essa altura já é mais veneno que desabafo. Uma guerra fria que mata a paciência, o bom humor, o apetite, o sono. E que sangra no travesseiro, encharcado de dúvidas.


Sobremesa: Um táxi, por favor.

12 de julho de 2010


Harvey Pekar e Robert Crumb.

American Splendor

É preciso acordar bem, descansada e sem olheiras. Corretivo suaviza o último. Fazer o melhor no trabalho, juntar as melhores palavras até para vender pesadelo. Alimentar-se bem e resolver todas as dívidas em duas horas de almoço. É preciso controlar o corpo e o tempo, mesmo sabendo que quem ri por último é o último. Ser melhor vizinha, irmã, filha, amiga, mulher, dona de casa, cidadã. E depois é preciso dormir oito horas. Porque é melhor. Sem contestação.

É preciso ser melhor, em tudo. E nunca somos o suficiente.

Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Salve Clarice.

As frustrações e paixões cotidianas, o funcionário da mesa ao lado, o cidadão americano, a incapacidade de ser diferente. De ser melhor?
Assim conheci Harvey Pekar, irônico, ácido e frágil. Cheio de falhas, dores e paixões. Tão talentoso e tão triste. De tão ranzinza se tornou engraçado. E sem querer ser melhor, se tornou único. Imperfeito, como qualquer humano. Perfeito como só os anti-heróis conseguem ser.


Sobremesa: Cleveland, 8 de Outubro de 1939 — 12 de Julho de 2010.

25 de abril de 2010


muso para sempre.

Vol. 1

Eu que te amo e por vezes resisto, sigo me identificando com os cronópios. Os calos nos pés decorrentes do meu descuido, as olheiras-fruto das nossas conversas insistentes madrugada afora. Nem sempre é adequado, perdemos o ônibus com a cabeça já perdida. Nos damos mal. E nessa hora, sempre aparece um fama, eu te disse. Não importa. Seguimos entrando nos bares onde a música convida, dançando nossos próprios passos, descompassados. Bebemos vinho e falamos sobre saudades, pessoas distantes, poemas e histórias inúteis.
Os famas sentados no bar riem de nós que rimos de nossos tropeços. Eles não sabem o que é ter ressaca, nunca ficam bêbados, nos condenam e seguem para suas casas. Um banho e um copo de leite quente antes de dormir.
E nós, continuamos na rua, vagando pelas calçadas do centro, rodopiando e cantando nossas canções preferidas. Depois sentamos num balcão, tomamos um café para curar nossas dores, a bebedeira, a saudade, as cicatrizes da guerra e os amores que perdemos pelo caminho.
No dia seguinte, os famas acordam cedo, tomam café com frutas e pão quente, enquanto lêem seus jornais na ordem dos cadernos. Nós cronópios acordamos sem saber que horas são, colocamos um vinil na vitrola e nos emocionamos quando toca aquele refrão. Não seguimos roteiro, a vida é que nos segue, encantada com nossos olhos de novidade sobre o horizonte, essa linha nunca reta pra nós.


Sobremesa: "Por isso ganhamos o direito de falar assim um com o outro, agora que sem a mínima possibilidade imaginável acaba de me chegar sua resposta, sua própria garrafa-ao-mar espatifando-se nos rochedos desta baía para me encher de uma delícia sob a qual pulsa uma espécie de medo, um medo que não aplaca a delícia, que a torna assustadora, situando-a fora de toda carne e de todo tempo como você e eu sem dúvida sempre quisemos, cada um à sua maneira". (Julio Cortázar)

11 de agosto de 2009


às vezes eu não sei quando é chuva ou quando é choro.

Acordar

Sonhar com você no inverno
é como aguçar a saudade
é como temperar com pimenta moída
e em seguida secar as lágrimas
com as mãos ainda sujas.

Ardência que chuva nenhuma ameniza
vontade grande e grave.

Te escrevo cartas com perfume e música
e os barcos que construo com elas
descem as ruas sem encontrar teu porto
à deriva, sigo esperando o verão.

Sobremesa: "Sossegue coração/ ainda não é agora/ a confusão prossegue/ sonhos a fora". (Paulo Leminski).

2 de junho de 2009


"Revolto-me, logo existo". (Albert Camus)

(visita)

O fim da frase: "você tem fogo?"
Nina Lemos

- Você tem fogo?

Quem na vida nunca usou essa estratégia de paquera? Ela sempre foi muito simples e simpática. E você nem precisava fumar. Podia fingir, dar uns tragos e depois jogar o cigarro fora. Ou nem acender. Essa era apenas uma maneira de chegar em alguém. Bacana. E também uma forma de fazer amigos.

Quantas amizades não foram feitas na noite com essa perguntinha simples? Muitas. Quantas histórias de amor não começam com “então, ele foi me pedir um cigarro”. Pronto. Tudo isso acabou. Em breve ninguém mais vai poder fumar dentro de nenhum lugar em São Paulo. Nem no show de rock de um pretê que te deixa nervosa. Nem lá pelas cinco da manhã na boate, quando você não sabe mais o que fazer com as próprias mãos depois de cinco conversas com um bonitinho e “nada dele te beijar”.

Também acabou a cumplicidade da ala de fumantes. “Onde vamos sentar?” “Ah, lembrei, você também fuma”. Ou mesmo a gentileza do homem que não fuma mas aceita a área de fumantes só para nos agradar. Acabou. Não existirão mais áreas de fumantes em restaurantes.

E os cafés? O que serão deles? O que fazer naquela hora em que você acaba de beijar o cara pela primeira vez e está decidindo se vai ou não para a casa dele? Quer dizer, você acaba indo sempre, mas é bom fumar um cigarro para pensar.

E as discussões? E agora? Como vai ser? Melhor nem pensar nos pés na bunda. Imagina levar um pé na bunda em um restaurante e não poder fumar na hora em que ele diz que “veja bem, melhor a gente ser mesmo só amigo”. E no Studio ou coisa parecida, depois que aquele seu caso acaba de agarrar outra na sua frente? Desespero.

Cigarro faz mal pra caramba. Mas já tem muito texto falando sobre isso hoje na Internet. O que lamento nesse espaço é que nunca mais, no meio do clube, ouvirei a frase: “Você tem fogo?”. Triste. (extraído daqui)

Sobremesa: "Desconfia dos que não fumam". (Mário Quintana)

29 de maio de 2009

Para inspirar o fim de semana e esperar a vinda deles.

14 de maio de 2009

Très chic. Très sexy.
Diane Kruger e Quentin Tarantino.

5 de maio de 2009


O céu de Belo Horizonte depois de uma manhã
de muita chuva, relâmpagos e trovões.


Aristóteles,

Já faz tanto tempo... acho que enferrujei. Desaprendi.
2008 foi um ano de ponderações. Meses de vai-e-vem, de puxa-encolhe. Meses de alegria intensa, mesmo no trabalho desgostoso. Meses de uma tristeza imensa, que insistia em andar espremida na minha bolsa, para todo canto. Dores acentuadas, falta de apetite, insônia.

Eu penso demais. E fui descobrindo aos poucos que isso também dói.

Uns dias eu quis ser outra – menos ansiosa, teimosa. Mais tolerante e serena.
Uma paralisia no meio de tudo isso me fez pensar que é preciso parar (sem trocadilho). Mastigar bem ajuda a digestão. Olhar com calma diminui o erro.

Rir mais, sem reserva. Chorar mais, sem vergonha. Ser feliz sem culpa.
É preciso amar mais, antes que o amor acabe.

E as alegrias também foram muitas. Aprendi muito – isso nem sempre é ser feliz. Mas aprendi coisas importantes e que estavam escondidas no embaço da vista, pelo cotidiano, pela luta diária pra levantar, pela espera.

Amigo, talvez eu tenha estado mais ausente da mesa do bar, da platéia. Mas é que a vida andava tão boa na sala dos amigos, no meu sofá, nos meus discos e livros, nos braços dele.

Perdi uns jogos, ganhei malícia para outros. Saber deixar é tão importante quanto lutar pelo que deve ficar. Deixei muitas coisas. E tenho lutado diariamente por outras.
E é tão bom ver a vida seguir. Meu sobrinho nasceu, uma semana exatamente antes do Natal. E eu que sempre ficava melancólica e um tanto cansada do ano, dessa vez me vi mais leve. E com uma esperança boa – mesmo que às vezes tola – no peito.

A vida segue Aristóteles, e isso independe se você corre com o rio ou fica à beira contemplando a vida alheia. Então, se é assim, quero ser sujeito, correr junto com o leito, me deixar levar, me deixar ser. Não me interessa a vida alheia. Aprendi que se houver felicidade à minha volta – aos meus e aos outros – cada um cuida de si. Porque a gente começa a desejar o mal alheio quando tem muito dentro da gente, num ato desesperado de disseminar o que a gente não consegue se livrar.
Eu quero mais é ser feliz. E chorar, e ficar cabreira, mas no fim do dia ouvir minhas músicas, olhar o meu bem e ser feliz. E desejo isso pra você também.

Sobremesa:

18 de março de 2009

Two For The Road

Ann e Cooper se conheceram e se separaram ainda nos tempos de colégio. Mas não era uma história qualquer para terminar junto com o ano letivo. Eles tinham o que chamamos de química e partilhavam afinidades e sonhos.

Dez anos depois, eles se encontram e resolvem seguir juntos numa viagem de carro em busca dos seus sonhos. Uma chance única e última para tornar realidade os devaneios lúcidos de antes.

Essa é a história do mais novo projeto do produtor Marc Collin (produtor também do Nouvelle Vague), chamado Two For The Road, numa referência ao filme homônimo de 1967, dirigido por Stanley Donen, estrelado por Audrey Hepburn e Albert Finney. Nos vocais, a cantora dinamarquesa Katrine Ottosen e o cantor ítalo-americano Valente (Ann e Cooper, respectivamente).

Um disco para ouvir a dois ou a sós. Deixo aqui uma espécie de clipe da música que leva o nome do disco. No vídeo, cenas do filme de 67.

Dá vontade de viajar a dois. Uma delícia.

6 de março de 2009


foto por Evgen Bavcar

Ladeira abaixo

Olinda. Domingo de carnaval. Meio-dia. Tenho uma coisa pra lhe dizer, “acabou”, disse ele. Ela não entendeu, e sorrindo, pediu que ele repetisse. “ACABOU”, e sumiu em meio a super-heróis e palhaços. Ela parou por uns segundos e foi levada pela multidão. Me segura que senão eu caio. Uma rainha de copas destronada, sedenta por cortar a cabeça de alguém. Nas Vassourinhas as pessoas enlouquecem. Levou um tombo que a fez ficar descalça. Não faltava mais nada.
Onde fica a minha casa? Pensou. E na confusão, lembrou que estava hospedada na casa de um tio dele. Não voltaria. Não é vantagem. Deixaria suas roupas e a esperança de que ele sentisse um tanto de remorso. Confete, serpentina, suor, choro, chuva, calor, polícia fantasiada e ladrão sem fantasia, mas cheio de imaginação. O frevo doía como ferida aberta. Alegria demais. Cores demais. Beijos em muitos e aos montes. No meio da multidão, espremida entre princesas, fadas e demônios. Tanta gente e ela tão só. É de amargar.
Tonta e desorientada, começou a cantar – num ritmo fúnebre - enquanto tentava abrir espaço entre os foliões: Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor.

Sobremesa: "Na frente sigo eu/ levo o estandarte de um amor, o amor que se perdeu no carnaval/ lá vai meu bloco, lá vou eu também/ mais uma vez sem ter ninguém". (bloco da solidão)

14 de outubro de 2008


Campden Hill- Bill Brandt, 1947


This song's like a lost ship at sea


Sua carta soou como uma brisa depois de um dia exaustivo, calmaria depois de tanto solavanco em ônibus velho.
Acabo de chegar da labuta que me devora. Sinto estar tão cansada, entediada e sem um trocado para te enviar um mimo que seja. Adorei os biscoitos. Vieram a calhar num jantar que não tinha o encanto do apetite nem a presença de um par. Guardei alguns para depois. Estou só amigo, como nunca.

Hoje me deparei pensando nos planos que fiz outrora, no que eu ingenuamente chamava de sonho, e que hoje não passam de lamentos em noites ébrias, pensamentos tão distantes que parecem histórias de antepassados, de vidas passadas, de um filme antigo.
A vida aqui anda lenta. Tento – todos os dias – acordar com bons pensamentos, ser gentil com os estranhos e compreensiva com os próximos. Mas como é difícil estar feliz consigo, olhar-se no espelho e não ter a sensação de que algo se perdeu no caminho. Às vezes me arrumo, me pinto e saio por aí fantasiando encontros felizes. Um gole depois outro. E no fim da noite – uns trocados a menos e um desequilíbrio a mais – estou mais triste que antes.

Sinto vontade de chorar quando penso em tudo isso, e evito o quanto posso, mas nem sempre consigo. Estar tão só não ajuda muito, fico aqui rodeada de pensamentos e roupas sujas. Uma preguiça de por tudo em ordem. Uma incapacidade de ser melhor.
Preciso ir amigo. Estou muito cansada de tudo para te dizer algo além. Minhas pálpebras pesam como chumbo – nuvens carregadas prestes a chover. Outro dia te escrevo mais, quem sabe notícias boas... Por enquanto não posso. Tenho cutículas crescendo na ponta dos dedos como ervas daninhas.

Sobremesa: "O meu mundo não é como o dos outros; quero demais, exijo demais/ há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista/ sou antes uma exaltada,com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!". (Florbela Espanca)

5 de setembro de 2008

I need some fine and you, you need to be nicer.

Peter Svensson é lindo e Nina... she rocks.

26 de agosto de 2008


eleven a.m. - edward hopper

Sexta-feira

Acordou como sempre – com dívida de sono - mas com uma dúvida se teria sido sonho mesmo. Dava pra sentir o cheiro – pensou. Será que as pessoas se encontram enquanto dormem? Não, não, isso é roteiro pra filme existencialista belga. Eu tenho contas a pagar – constatou.

A manhã no trabalho foi leve – coisa rara numa sexta-feira.
A tarde – como de costume – demorou a passar. Mil coisas a fazer. Leia. Escreva. Revise. Tente outra vez sem essa expressão. Tente outra vez sem tédio. Tente outra vez. Tente outra.
Por volta das 18:00, enquanto olhava a tela do computador, as letras se embaralhavam em meio as lágrimas saídas de um olho só. Meu ouvido dói. Meu olho esquerdo não pisca. Minha língua está dormente. Meus lábios não se movem coordenadamente.

Você está com paralisia facial – disse a mãe.

É, existe uma paralisia facial, decorrente de um vírus no ouvido, agravada por stress – disse o médico.

Quatro comprimidos de corticóide por dia. Depois de duas semanas diminui pra dois, depois um, e então meio comprimido por dia. Antibiótico de 4 em 4 horas, por 30 dias. Colírio e gel pra não ressecar o olho. Curativo em cima pra tentar dormir.

Não leia. Não assista filmes com legenda. Não costure. Não fique no computador. Não beba. Não chocolates. (...).

Posso ouvir música?

Não muito alto, nem em fones de ouvido. Repouso, você precisa de muito repouso.


E assim a vida ganhou uma pausa inesperada. Os livros acumulando poeira. Bolor no bolo de chocolate. Cinqüenta e-mails não lidos. Trinta noites mal dormidas (além das tantas acumuladas nos seus quase 30 anos). Nenhum sorriso em um mês. Nada programado, por tempo indeterminado.


E, ao final de 30 dias, mais uma sentença:
Trinta dias desse remédio, dois comprimidos por dia. Dez sessões de fisioterapia. E duas injeções por semana, durante um mês.


Voltou rápido para o trabalho, mas o sorriso veio lento. Dores de cabeça todos os dias - nenhuma de ressaca. Chá de espinheira santa para o estômago, erva doce pra dor, camomila pra dormir. Dois pequenos hematomas na nádega e dor muscular às terças e sextas.

Às vésperas de acabar o tratamento, já 100% recuperada dos movimentos, ela só pensava o quanto era bom mastigar, enxergar e falar direito e, vez por outra, rir disso tudo.


Sobremesa: "já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou, e tudo fugiu, e tudo mofou, e agora, José?" (Carlos Drummond de Andrade)

13 de agosto de 2008


Cena de 'Crash - Estranhos Prazeres', de David Cronenberg

Sete canções em uma noite

Um banho demorado. Lingerie escolhida com prazer e vestida com exaltação. O vestido vermelho acetinado já provocava na pele sensações do que estaria por vir. Sapatos negros. Salto fino, alto. Aparentemente displicente, estudava cada ínfimo pormenor. Reflexo atraente do hábito feminino. Já estava pronta, mas levava horas, uma dose de whisky e uma música no repeat para chegar até ele.

Turning now I see no reason
The voice of love so out of season
I need you now
But you can't see me now


No bar, o piso pressente o nervoso dos passos masculinos enquanto a aguarda. Ele senta à mesa e inclina o copo de whisky. Em estado puro, escorrega na língua, invade a boca e desliza pela garganta, queimando-o.

No don’t try to manipulate
I would rather take control.


Os ponteiros do relógio do bar giram preguiçosamente, ironia estampada em cada minuto. Ele pousa o copo vazio, ergue o braço num gesto que afasta o punho do casaco, descobrindo o relógio, na esperança de que esses ponteiros não o olhem com negligência.

Again, we go ‘round and round
I’ll get the drinks
I guess it’s always my round

“Can you get me a drink?”


Ela chega falsamente discreta. Desliza o acetinado do vestido nele, num abraço seguido de desculpas pelo atraso. Ambos sabem que as desculpas não cabem e que toda a espera – se não necessária – era inevitável. Exasperado, revirou os olhos no pensamento repetido: mulheres! Ela sorriu de forma inesperada, como se pudesse decifrá-lo. Duas doses, dessa vez com – pouco – gelo. O que ela queria era deixar-se levar pelo desejo e provocá-lo até ele demonstrar - sem qualquer margem para dúvidas - que a queria tanto como ela a ele.

Hold me close enough to drink my rose
The devil in my pocket turned to gold
Sorry to warn you, you’re in a daze
Tonight I’ll love you, but tomorrow go away
.

Num gesto que ela não podia prever, ele terminou a dose e determinou que ela fizesse o mesmo. Não foram para muito longe dali. Uma esquina qualquer e um carro qualquer estrategicamente estacionado.

What’s the fun in playing it safe?

Ele a coloca de encontro ao carro e se encaixa no meio das suas coxas. Ela tenta afastá-lo, inutilmente. Ele prende com força os punhos magros dela, numa das mãos. Ela reclama sem rigor e sem resposta. A dor da luxúria que se obriga a prolongar. Boca. Língua. Mãos. Braços. Pernas. Grandes avanços e pequenos recuos.

Say, say my name
I need a little love to ease the pain


Ela geme enquanto tenta morder os ombros dele, sem êxito. Ele olha-a, dominador. Sabe que o cetim, o vermelho nos lábios, os sapatos negros de salto fino, a lingerie, a risada no bar, o abraço de desculpas, os dentes afiados... Tudo culminaria na rendição.

Everynight
in every pore
The scales that do slither
Deliver me from…


Impossível saber quanto tempo ficaram ali, talvez 3 ou 4 orgasmos. Ela tenta dar jeito ao vestido e ao pensamento. Era humana, repetia silenciosamente, e o que a tornava humana - por mais inconciliável que pareça – era perder completamente a razão.


Sobremesa: “And my big secret/ Going to win you over/ Slow like honey, heavy with mood” (Slow like honey – Fiona Apple)

(As sete canções, por ordem: Funny time of year – Beth Gibbons and Rustin Man, Stay – Tricky, Puppy toy – Trick, The mating game – Bitter:Sweet, Dirty Laundry – Bitter:Sweet, Dissolved girl – Massive Attack, The Widow – The Mars Volta).

25 de junho de 2008


Valentina de Guido Crepax

Intervalo

Enquanto passa
olhos de dúvida
tentando ler fumaça.

Sobremesa:"Como se pudessem chegar a algum lugar onde elas mesmas não estivessem". (Alice Ruiz)

13 de junho de 2008


morning sun - edward hopper

Para L., com carinho

Tem dias que acordo tão descrente. Não acredito no ‘bom dia’ das pessoas, nem se as nuvens no céu são de chuva. Descreio que Deus exista e que esteja olhando pra mim e por mim lá de cima (logo eu, tão miudinha...). Duvido da preocupação das pessoas no trabalho com a minha saúde. Às vezes sou como São Tomé. Às vezes nem vendo acredito.
Mas o sol arde lá fora e eu sinto na pele. A saudade produz lágrimas e eu sinto no embaço na vista. A dor está aqui, eu sinto no peito. Em isso tudo eu acredito. Às vezes mais do que devia. Mais do que queria.
Hoje eu me senti tão próxima de uma pessoa querida. Pessoa que não vejo há tempos, mas que o meu carinho não diminuiu com a distância e os obstáculos rotineiros. Sinto na alma.
Ela escreveu um texto sobre a perda recente do avô. Mas não escreveu com caneta de lamúria. Isso que mais me tocou. Um texto tão bonito, falando de música, de brincadeira, da mágica que acontece entre avós e netos. Senti a vista embaçar, o peito apertar e uma vontade enorme de dar-lhe um abraço.
Tem dias que eu acordo tão descrente. Mas uma flor, uns sentimentos traduzidos em palavras, pessoas de carne, osso e coração, me fazem acreditar que nem tudo está perdido, a gente é que se perde às vezes. Bom mesmo é se encontrar.

Sobremesa: “A cada mil lágrimas sai um milagre”. (Alice Ruiz)

21 de maio de 2008

Sexta-feira é dia de ligar a vitrola e mastigar música com as pernas, com os braços, com os pés,...

Quem viu o filme O fabuloso destino de Amélie Poulin já ouviu Yann Tiersen
Às vezes eu ouço a mesma música repetidas e incansáveis vezes.

Yann Tiersen - Rue des cascades


Sobremesa: "In the cascade, in the cascade/ you washed me". (Yann Tiersen)

14 de maio de 2008

My way

Ai que saudades eu tenho do Sinatra... Quando ele faleceu, eu tinha 18 anos, não fumava nem bebia, mas achava um charme sem igual aquele cigarro que ele ostentava numa das mãos e o copo de uísque na outra. Lembro que meu pai chorou quando soube da morte, e ouviu todos os vinis que tinham lá em casa. Lembro que me deu vontade de chorar quando vi as matérias, ouvi as músicas e vi meu pai derramar lágrimas por alguém que nem conhecia, mas que gostava tanto.

Hoje acordei com meu pai ouvindo e vendo as homenagens à morte do Sinatra. Senti-me com 18 anos, vendo meu pai lacrimejar os olhos e se emocionar como há 10 anos. Hoje ostento um cigarro numa das mãos (de vez em quando uma dose de uísque na outra) e uma vontade de sentar e ouvir – agora – os meus vinis tão queridos dele.
Herdei algumas coisas do meu pai e, uma delas é essa paixão pelo Sinatra e essa saudade que parece não ter fim.

Com vocês, uma das parcerias mas lindas dele - com Tom Jobim. Uma coisa é certa, se ele não fosse americano, seria carioca. Um charme só.



Sobremesa: "Yes there were times, I'm sure you knew/ when I bit off more than I could chew/ but through it all when there was doubt/ I ate it up and spit it out/ I faced it all and I stood tall/ And did it my way". (My Way, com aquela voz e aqueles olhos azuis, inconfundíveis).