20 de setembro de 2007


Winter’s here
And there ain’t nothing gonna change. (Beth Gibbons)

Lamento
Raquel Medeiros

Noite. Ela construindo na mente cada detalhe. Primeiro foram os ombros... ah! Como queria encostar a cabeça naquele ombro e ver a vida passar como num filme. Os braços, armas de um abraço infalível. Como era difícil e doído pensar e não ter. Imaginar e não sentir.
Cada pormenor surgindo como num plano detalhe que vai abrindo e revelando todas as virtudes e discrepâncias (a essa altura tão bem-vindas). Lembrou que ele adora essa palavra – discrepância. Lembrou que o lugar ao seu lado continuava vazio.
Ainda havia uma esperança de dormir. E de encontrá-lo, quem sabe, num sonho. Mas não. O contraste das nuvens no céu ficando cada vez maior. A saudade que latejava no peito dela também.
Onde ele estaria agora? Seria possível promover hoje um encontro com o futuro? Ela sabia que não. Já era dia.

Sobremesa: Teu olhar mata mais do que bala de carabina/ que veneno extriquinina/ que pexeira de baiano/ teu olhar mata mais que atropelamento de automóvel/ mata mais que bala de revólver. (Adoniran Barbosa)

21 de agosto de 2007


"I know I stand in line until you think
you have the time to spend an evening with me"
Something stupid – Nancy Sinatra

Jogo
Raquel Medeiros

Eu aqui tentando escrever sobre antropologia e ele sai com essa. “Vamos jogar...”. Eu precisava terminar o capítulo, pelo menos o parágrafo. Fiz de conta que não ouvi e que não queria. Mas ele me conhece e insistiu. “Vamos jogar...”. Eu abandonei o parágrafo e o Lipovetsky e sentei na frente dele. “O que você quer jogar?”, falei num tom desafiador. Ele me olha dizendo que minha tática não vai funcionar, desconfio que ele sabe exatamente o que fazer e tem uma certeza irritante de que eu vou gostar. Confesso que adoro quando ele me deixa assim, me excita ainda mais.

- Então, esse jogo não vai começar?
- Já começou. Diz ele.

Ainda não entendi bem qual o jogo, mas antevejo o intuito e gosto. Deixo-me levar pelas cartas que ele tem na manga, e alguns territórios já começam a ser tomados. Eu reluto, sem muito afinco. Ele é um ditador e me castiga por não obedecer as suas ordens. Admito que ele fica ainda mais charmoso na fantasia de carrasco.

Agora que já conheço o jogo, tento inverter os papéis e consigo. Ele me olha com surpresa e com uma felicidade que ele não admite, mas sente. Provoco batalhas, verdadeiros bombardeios em todos os nossos sentidos. Agora estamos de igual pra igual. Uma guerra declarada, o inferno. O calor é tão grande que o mundo evapora, o tempo se desfaz em relógios que derretem como uma pintura de Dalí. Surreal, mas, sobretudo humano. Exaustos, sorrimos ao final de um duelo sem perdedor.

Venho para o computador, e enquanto escrevo esse texto, ouço sua voz rouca entre um gemido e outro, acabando de acordar. “Vamos jogar...”.

Sobremesa: "O amor é o único jogo no qual dois podem jogar e ambos ganharem”. (Erma Freesman)

31 de maio de 2007


Ela não sabe quanta tristeza cabe numa solidão.
(Baden Powell e Vinicius de Morais)

*imagem de Joe Sorren.

Tudo embrulhado
Raquel Medeiros

Ando enjoando de tudo. Enjoada de tudo. Uma vontade de vomitar quando olho olhos rasos, sorrisos falsos e abraços desonestos. Eu odeio gente desonesta. Na fala e nos gestos. Vontade de vomitar quando ouço (começar) elogios rasgados e rasgáveis.

Argh! Odiar é forte demais, mas é preciso. É preciso navegar, odiar, amar, ser forte e dar com os ombros, com os pés, com as mãos e com silêncios aos barulhos que nos vão atrapalhando o caminho. Antes fossem pedras! Pelo menos daria pra riscar uma amarelinha no chão e tentar chegar ao céu num pé só.

Ando com desejo de tudo. Uma vontade de comer a vida, pedacinho a pedacinho. Ora devagar e com cautela; ora ávida e com urgência. Vontade de devorar cada palavra, abraço e afago amigo. Mastigar música com as pernas. Saborear as palavras, sentindo cada combinação de sílabas, doce ou salgada. Beber a saliva, o suor, o vinho e a lágrima.

Entretanto há os indigestos e desafetos. E esse feto que (me parece) há em mim, já vem com 32 dentes que rasgam minhas vísceras como um veneno de rato. Já vem com dores e odores que me deixam um tanto enjoada. Volto ao início.

Sinto as contrações e contradições. Vou ali parir uma dor, uma lágrima, uma dúvida. E quem sabe nasça em mim algo melhor.

Sobremesa: "Se não tivesse o amor/ se não tivesse essa dor/ e se não tivesse o sofrer/ e se não tivesse o chorar/ melhor era tudo se acabar". (Baden Powell)

29 de maio de 2007


Pedro perdido esperando o pôr-do-sol
num dia nublado.

Pedro Perdido
Raquel Medeiros

A esperança perdida
num bilhete premiado
permanece pobre pedro lascado
perdido num monte de dívida.

O filho caçula perdido na praia
a mulher perdida no ônibus errado
com bala perdida na cara.

Perdeu até a rima
perder de cabo a rabo
parece mesmo sua sina.

Sobremesa: "Só não vá se perder por aí" (Mutantes)

2 de maio de 2007



*montagem - Leonardo Soares

Lembra do Haroldo?
Raquel Medeiros

Haroldo era um grande empresário. É verdade que existem “muitos” por aí, mas ele sim, era dono de uma grande e bem-sucedida empresa de fraldas descartáveis. “Ninguém quer limpar urina e merda, nem deixar de ter filhos”, pensava ele. E não estava de todo errado. Dinheiro entrando aos montes. Soberba sobrando aos potes.

Haroldo não tinha filhos. Nem os queria, aliás, nada nem ninguém que viesse depois usufruir toda a sua fortuna.

Um dia Haroldo viajava para Petrópolis em sua BMW. O modelo não importa. O que importa é que Haroldo bateu com o carro numa velocidade que era quase impossível acreditar que ele tenha saído com vida. Mas saiu. Paraplégico.

Depois do acidente Haroldo enclausurou-se em sua mansão, num condomínio fechado por ele e só dele. Comprou uma cadeira de rodas que só faltava jogar cartas e passou o resto dos seus dias sendo chupado por putas que ele pagava e xingava, e elas, como vingança, esperavam que ele estivesse próximo do gozo, se distanciavam e ficavam rindo da cara dele. Pobre empresário rico, o Haroldo.

Sobremesa: "Mas problemas não se resolvem/ problemas têm família grande/ e aos domingos saem todos a passear/ o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas". (Paulo Leminski)

13 de abril de 2007


foto de Penha que Juracy guarda até hoje.

Penha e Juracy
Raquel Medeiros

Juracy e Penha trabalhavam no mesmo pronto-socorro. Ela, atendente. Ele, operador da máquina de raio X.
- Faz um raio X de mim, Juracy.
Ele fez. E se apaixonaram. Juracy pôde conhecer muito mais coisas da Penha do que dava pra ver no exame - as angústias, os medos, os desejos e uma vontade louca de casar.
Mas o romance não durou muito. Penha pediu demissão quando viu Juracy fazendo um raio X numa mulher bem mais nova que ela.
Juracy ainda trabalha no mesmo pronto-socorro, e continua sem saber o que fazer com a aliança que havia comprado pra pedir Penha em casamento.

Sobremesa: "Mas foi uma ilusão/ uma insensatez/ há que pôr o chão nos pés". (Chico Buarque)

29 de março de 2007



* imagem - Yuko Shimizu

Desabafo de um homem recém-chegado às ruas daqui
Raquel Medeiros

Eles levantam mas não acordam.

De dia essas ruas se enchem de olhos cansados
Zumbis de passos automáticos
Distraídos e descuidados.

Eles dormem mas não descansam.

À noite essas ruas se enchem de olhos risonhos
Tão cheios de graça
Tão vazios de sonho.

Eles vivem mas não sentem.

Sobremesa: "Ilusora de pessoas de outros lugares/ a cidade e sua fama vai além dos mares". (Chico Science)

19 de março de 2007


ilustração de John John Jess

[Trecho]
Dalton Trevisan

Ao tirar a calcinha, ele rasga. Puxa com força e rasga. Vai por cima. Ó mãezinha, e agora? Com falta de ar, afogueada, lavada de suor. Reza que fique por isso mesmo.

Chorando, suando, tremendo, o coração tosse no joelho. Ele a beija da cabeça ao pé — mil asas de borboleta à flor da pele. O medo já não é tanto. Ainda bem só aquilo. Perdido nas voltas de sua coxa, beija o umbiguinho.

Deita-se sobre ela — e entra nela. Que dá um berro de agonia: o cigarro aceso na palma da mão. Mas você pára? Nem ele.


Sobremesa: "Se é canto de Ossanha não vá/ que muito vai se arrepender". (Baden Powell/ Vinícius de Moraes)

22 de fevereiro de 2007


Adolfo e Rosália num banco de praça em Vila Prudente


Romance Chiclete

Raquel Medeiros


A abertura do papel – a porta para a eternidade.
Adolfo e Rosália se conheceram num banco de praça no bairro de Vila Prudente. Ela vestia amarelo e tinha um penteado esquisito desses que só se desfaz com bastante água quente. Ele vestia jeans e uma camisa dos Stones. Ela preferia Beatles, mas achava que Mick Jagger tinha mais charme que John Lennon.
Adolfo ofereceu um chiclete à Rosália, que de prontidão aceitou. Mastigaram-se com o desejo da primeira vez e com a avidez da última.

A sensação de eternidade que aquilo proporcionava era inevitável. Fazia os olhos de ambos brilharem. Coisas em comum – a mesma rua, o mesmo colégio, o mesmo filme do Coppola e – claro – o gosto por chicletes. E este não acabaria nunca.


A mastigação – macia e doce.
A relação deles era tão intensa, parecia que o chiclete estimulava a mastigação excessiva. E era tudo tão macio que Rosália e Adolfo quase flutuavam quando saíam juntos. E isso não era raro. Os moradores de Vila Prudente se referiam ao casal como “casal-chiclete”. Eles adoravam. Mascavam ainda com mais afinco e sorriam para todos.

Adolfo dormia quase todas as noites na casa da amada. Era um casamento em regime semi-aberto, aliás, como a maioria é. Mascavam como se o mundo pudesse acabar ali em volta deles, que nem dariam conta. Mas dar conta por que, se eles tinham a eternidade bem presa entre os dentes?!


O cansaço – a eternidade finita do céu da boca.
Depois de 5 anos, o maxilar da relação estava cansado de tanto mascar. Não conseguiam mais fingir que o doce ainda estava lá, e depois de tanto tempo na boca, o chiclete já não tinha – nem de longe – a maciez primeira.

Foi um choque quando se deram conta que mantinham aquilo muito mais por apego do que por vontade. A saliva ácida, os dentes fracos e um amargo no fim da linha. Chiclete com gosto de fel.

Um dia Rosália sentou no banco da mesma praça onde se conheceram. Pensou, mastigou e pesou o quanto era difícil admitir que não queria mais aquela eternidade. Ela tirou o chiclete da boca, colou embaixo do banco da praça e nunca mais viu Adolfo.

Sobremesa: "Adeus você/eu hoje vou pra o lado de lá/ eu tô levando tudo de mim/ que é pra não ter razão pra chorar". (Los Hermanos)

16 de dezembro de 2006


"somos românticos-realistas" - Richard Linklater

*Julie Delpy e Ethan Hawke, em Before Sunset.

Sem sinal de fumaça
Raquel Medeiros

Noite insone, como de costume. Na mesa, um maço de cigarros. Vazio. Sinto vontade de fumar e me culpo por isso. O dia não foi bom. Escaldante por fora. Angustiante por dentro. Uma vontade de deixar tudo pra trás. De me deixar pra trás. De não saber quem sou.

Por isso desejo um cigarro. Não consigo levantar nem pra contar os trocados para um maço. A que horas você volta? Não quero jantar sozinha de novo. Não quero ver Before Sunrise sozinha e ficar com saudades dos nossos diálogos. Não quero adormecer no sofá e acordar sozinha, nessa espera vã. Não quero levantar e ter que encarar os outros e a mim mesma. Não quero enfrentar a rotina sozinha. Não consigo.

E aquelas nuvens de chuva resolveram se espremer sobre os meus olhos. Mas apesar da dor, do choro e desse imenso vazio, só te peço que quando voltares traga-me um maço de cigarros.

Sobremesa: O inverno aqui durou muito tempo/ não sei precisar/ mas tive crises de choro fantasiadas de resfriados contínuos/ foi uma pneumonia branda/ eu suo frio só de pensar em injeção/ mas todos os dias me forçava a tomar uma dose cavalar de ânimo pra enfrentar a vida. (Raquel Medeiros)

15 de dezembro de 2006


Depression 1 - Yuko Shimizu

Domênico Silva
Raquel Medeiros

Escrevo diante da janela aberta. Os tímidos raios de sol das primeiras horas do dia criam um leve contraste com o verde-lodo do prédio. Apartamentos apertados e fedorentos. Gritos, gemidos e garrafas quebrando são a trilha sonora da madrugada. Por isso só consigo escrever a essa hora do dia. Hora em que a maioria dorme.

Moro sozinho. De vez em quando minha mãe me visita. sabe como é, filho único... Reclama da minha bagunça e do meu cigarro; da minha barba mal feia e do queijo mofado. Reclama e joga na minha cara os arranhões nos seus joelhos, frutos de suas orações, de centenas de contas de rosário repetidas fervorosamente ao longo desses meus quase quarenta anos. Ela era uma vítima. Sempre foi. Primeiro de Deus; depois do meu pai. E agora, do único filho.

Eu sempre quis escrever sobre outras coisas. Coisas belas - o canto dos pássaros no verão, a sensualidade discreta das escolares, amores bem-sucedidos. Mas o que me era servido como inspiração eram vizinhos barulhentos e asquerosos, e uma mãe que parecia carregar consigo as chagas de Cristo.

Eu até conseguia enxergar meu único livro acabado, empoeirado e abandonado na prateleira de uma livraria vagabunda. Livro curto, dividido em três capítulos.

A Patética Vida de Domênico Silva.
Primeiro capítulo: Filho céptico de de mãe devota.
Segundo capítulo: Como conseguir tirar inspiração do lodo.
Terceiro capítulo: Aqui jaz Domênico Silva, carrasco da própria mãe.

Sobremesa: "Sobre meus ombros semeiam centenas de tempestades/ como se o mundo fosse um campo crivado de espadas/ Minha alma aplaude/ 'destruam esse corpo/ essa casca inimiga que me consome/... jaula de muitos metros...'/ que desfrutem, tudo/ e dancem seus rituais sobre minhas costelas". (Marina Ráz)

30 de novembro de 2006


Sem fantasia

As(minhas) mulheres de Chico
Raquel Medeiros

Na segunda sou uma
Das minhas meninas
Já saio sozinha
Como as notas
Da canção
Levo meu destino
No trabalho-fardo
Iluminado de sim
Atrapalhado de não.

Na terça sou
Tereza Tristeza
Do cotidiano
Sem solução
Tire meu lugar
Da mesa
Que o enjôo
É gritante
E o carnaval
É dia distante.

Na quarta sou
A Rosa
Saio pra comprar
Cigarro
E volto sorridente
Mas da alegria
Sou passageira
A ficha cai ligeira
Quando a santa
Troca meu nome
E some com meu sono.

Na quinta sou
Cecília
Invejo a orquestra
Afinada
Respiro pouco
E soletro l-o-u-c-o
Na madrugada
Na insônia desvairada
Mil refletores
E nada de amores
Pra me fazer
De morada.

Na sexta sou
Ana de Amsterdam
Da compra, da venda
Da troca de pernas
Da cerveja gelada
Da seda e da risada
Carta marcada
No jogo da sorte
Às vezes dou azar
O ardor das docas
Na boca do mar.

No sábado sou
Bárbara
Desesperada e nua
Na esperança de ser tua
Quando a noite chegar
Agonizando uma
Paixão vadia
Feito uma hemorragia
Vem buscar minha boca crua
E morde como carne tua.

No domingo sou
Beatriz
Moça triste
Pintada de atriz
Andando com os pés
No chão
A felicidade
É uma amarelinha
Feita de giz
Mas vem a chuva
E apaga o céu
Na véspera da segunda
A alegria é de papel.

Sobremesa: "Eu quero te contar das chuvas que apanhei/ das noites que varei no escuro a te buscar/ eu quero te mostrar as marcas que ganhei/ nas lutas contra o rei/ nas discussões com Deus/ e agora que cheguei/ eu quero a recompensa/ eu quero a prenda imensa dos carinhos teus". (Chico Buarque)

17 de outubro de 2006



"No puede ser que nos separemos así,
antes de habernos encontrado." Cortázar


Um pouco do que resta
Raquel Medeiros

Resta em mim algo que não cessa
que quando no cérebro acaba
no coração recomeça.

Resta uma dose de veneno intenso
De dor intensa de prazer imenso
De desejo que sempre avança.

Resta um inferno nas entranhas
E uma estranha saudade na alma
Resta a tormenta que acalma.

Resta a esperança vestida de vontade
Resta a vontade despida de pudor
E uma força de buscar no amor
A felicidade disfarçada de eternidade.

Sobremesa: "O poema é pobre/ e nas entrelinhas/ a inspiração é nobre/ o querido e saudoso Poetinha/ ah, se todos fossem iguais a ele..." (Raquel Medeiros)

23 de agosto de 2006


"É que há em mim agora uma dor profunda específica,
com tantas facetas quanto os olhos de uma mosca, e
devo dar à luz essa monstruosidade de modo a ficar
novamente leve" (Sylvia Plath)

Carta à Annabel
Raquel Medeiros

Annabel,

Em cada linha sua sinto o fardo de carregar o pouco peso do corpo e a obesidade da alma. O sono que não chega e o cansaço que não sai. A vontade de desistir maior que a necessidade de lutar.
Mas a guerra não termina até que se contem os mortos (que os enterrem!), que se cuide dos feridos e se cure as feridas.
Não consegue escrever. Não consegue ouvir música. Não consegue passar do primeiro capítulo do livro. Não consegue achar o significado no dicionário. Tantos já te traduziram, Annabel, mas nenhum deles te consola. Nenhum deles sente exatamente como você.
A vida é corrida de obstáculos. É salto mortal. É um nado nem sempre sincronizado. Nos pés, os calos. Nos olhos, enchente. Mas no teu jogo sem treino ainda há tempo de tentar se equilibrar na barra. De vencer a maratona com um único pensamento - um passo de cada vez.
Você me preocupa, Annabel. Coma, mesmo que a sopa esteja rala. Beba, mesmo que o café esteja frio. Levante, mesmo que a apatia se vista de gravidade.
Assuma a maternidade de suas virtudes e defeitos. Alimente o primeiro e eduque o segundo. Mas não seja ausente de si, Annabel. Não deixe de ser.

Sobremesa: "As ruas estão tristes, Annabel/ a marchinha de carnaval acompanha o funeral do teu corpo vivo/ não morra na véspera/ não faça a (in)digestão antes mesmo de comer/ resista, Annabel/ não desista". (Raquel Medeiros)

20 de julho de 2006


"El tango es un pensamiento triste
que se puede bailar"
(Enrique Santos Discépolo)

Ela. Ele. Eles...
(Raquel Medeiros)

Ela
Encara o espelho. A toalha ainda envolve o corpo. Na vitrola, Chico Buarque, "Não, solidão, hoje eu não quero me retocar nesse salão de tristeza onde as outras penteiam mágoas". Meia-calça e cinta-liga. Uma taça de vinho. Um cigarro. Vestido vermelho. Vermelho nos lábios e na flor do cabelo. Salto alto. Perfume no colo e na nuca. Cabelos presos e pensamentos soltos. Uma última taça para criar coragem. Um passo excitante na frente do outro hesitante. Desliga a vitrola. Acende um cigarro. Sai.

Ele
Encara o espelho. A toalha ainda envolve a cintura. Na vitrola, Frank Sinatra, "Something in your eyes was so inviting, something in your smile was so exciting". Meias pretas. Uma dose de uísque. Um cigarro. Calça preta. Camisa idem. Tenta arrumar o cabelo. Sapatos bem engraxados. Perfume nos pulsos e na nuca. Chapéu inclinado e pensamento reto. Uma dose de uísque para tomar coragem. Um passo viril na frente do outro vil. Desliga a vitrola. Acende um cigarro. Sai.

Eles
Ele a leva para a pista de dança. Os passos traiçoeiros e o apuro duvidoso do par denunciam o tango. Na vitrola, Carlos Gardel, "Del fondo de mi copa su imagen me obsesiona, es como una condena, su risa siempre igual, coqueta y despiadada, su boca me encadena, se burla hasta la muerte la ingrata en el cristal". Num ritmo pernicioso, executam o mais lascivo dos balés. Se entregam entre braços, pernas e olhares. Não se pode afirmar o que os une - amor, dúvida, desilusão, solidão. Mas nunca se viu, naquela pista de dança, um casal assim. Ela, pólvora. Ele, sangue.

Sobremesa: "Descubrimos vos y yo en el triste carnaval/ una música brutal/ melodías de dolor/ despertamos vos y yo/ y en el lento divagar/ una música brutal encendió nuestra pasión/ dame tu calor/ bébete mi amor". (Gotan Project)

10 de julho de 2006


"Mas o que eu quero é lhe dizer
que a coisa aqui tá preta".
(Chico Buarque)

* Ilustração de Rafal Olbisnki

Antipoema (trechos)
Fernando Bonassi

Alguns números dessa história

4 e meio bilhões de habitantes em confusão; 146 nações desunidas; 20 anos de ditadura; 11 contra 11; 2 torres gêmeas sacudidas; 32 dentes imaturos; 12 meses para pagar; 9 meses de gestação até a dilatação; 3 por 4 no RG; 30 mil mortos nas ruas de Chernobyl; uma puta que o pariu; 27 bichos no jogo da sorte; 24 horas de prazo com o destino; 5 dias de folia por 1 de arrependimento; 2 cabeças (uma que pensa e uma que pulsa); 2 lados da mesma moeda; 2 forças antagônicas; 2 bombas atômicas; 241 bilhões de dólares em armamentos; 7 anos de azar por espelho; 40 ladrões; 40 passageiros em pé; 36 lápis de cor; 10 metros num segundo é a gravidade das coisas desse mundo; 3 desejos irrealizáveis; 1 gênio da lâmpada; 7 pecados capitais; 7 orifícios do coração; 7 estrelas da Ursa Maior; 5 elementos; 54 cartas por baralho viciado; uma sintonia incompreensível e 9 sinfonias inacabadas; 123 quilômetros de congestionamento; 2 Coréias separadas; 2 pra lá, 2 pra cá; 2 pilotos por equipe; 8 cavalos no páreo; 24 quadros por segundo; 4 patas; 200 metros com barreiras intransponíveis; 1 trocado de aumento; 1 par de sapatos para Dorothy; 1 homem de lata; 1 homem, uma mulher; uma bala na agulha; 1 geração perdida; 26 milhões de banguelas comendo rapadura; 176 milhões de touxas à espera do futuro.

Sobremesa: "É pirueta pra cavar o ganha-pão/ que a gente vai cavando só de birra, só de sarro/ e a gente vai fumando que, também, sem um cigarro/ ninguém segura esse rojão". (Chico Buarque)

3 de julho de 2006


"De repente sou uma equilibrista muito cansada
de suster a todos por um cordel. Vou deixar cair".
(Adélia Prado)

*Imagem - Edward Hopper

O amor que a gente tinha
Raquel Medeiros

Não me peça pra calar agora. Essa é a minha hora de falar, está bem escrito aqui, no roteiro. Eu não preciso ter um final triste. Também está escrito aqui.
Onde foi que meu personagem se perdeu do teu? Foi na hora da mudança?! Eu sabia... Senti que algo tinha ficado no caminho, tinha se perdido. Nos perdemos.

Quando ouvi o barulho abafado de vidro quebrado, achei que fosse algum prato, algum copo. Mas nem era, era o amor que a gente tinha...
Eu que pensava que ele era forte, que resistiria ao tempo e à má sorte... Ele não resistiu à mudança. Caiu naquela rua... Desesperança.

Sobremesa: "Nosso amor foi uma valsa triste/ um curta-metragem de tolerância-curta". (Raquel Medeiros)

28 de junho de 2006


"Gossip face" - Muntsa Vicente

Um trago de amor
Raquel Medeiros

Me faça acordar com beijos curtos porém gentis.
Não importa quantos cigarros ficaram no cinzeiro na última discussão. Não me venha com tratamento ou terapia, que minhas fobias solto na fumaça. Pouco importa as cicatrizes físicas. Amor sem dor não rima.

Amor nem sempre é nuvem no meio do caminho. Às vezes é pedra nos rins. É mal líquido que escorre entre os dedos, e tão sólido que pode matar se cair repentinamente no coração desavisado.

Perdoa se nas palavras o amor parece pouco, parece parco. É louco, e loucura não se explica. Se assume ou se nega. É pegar ou largar. É delícia e dor na mesma proporção. E se não há retribuição, é melhor calar.
Me faça dormir com beijos longos porém febris.

Sobremesa: "Pergunte pro seu Orixá/ amor só é bom se doer". (Vinicius de Moraes e Baden Powell)

1 de junho de 2006


Drawing for canvas in bar - Elph


Relato passado de angústia presente
Raquel Medeiros

Tenho medo das tuas mãos. De ler nelas verdades sobre mim. Sobre nós. De ter meu futuro ironicamente traçado nas tuas tortas linhas.
Nunca fui reta. Nem sempre estive certa. De alguns buracos não consegui desviar. Algumas quedas me recusei a evitar.
Tive doces e amargas surpresas. Jantares meticulosamente preparados pra ninguém, e convidados que me surpreenderam quando tinha um uníco prato de sopa rala pra oferecer.

Tenho medo dos teus olhos. De ver verdades sobre mim. Sobre nós. De ter a minha face assustadoramente refletida nos teus vidros escuros.
Esse teu eterno espelho de mim, que tentei encobrir com lençóis grandes e que, ainda assim, revelaram cada cicatriz, física e emocional.

Cravo a face no travesseiro pra abafar o choro. Não descanso. Canso dessas idas e vindas. Dessas despedidas. Choro por egoísmo, que altruísmo é sempre tarefa do vizinho.

Não escrevo coerentemente. Não ando coordenadamente. Não penso racionalmente. Essas palavras saem feito sangue que não estanca, assim como esses passos tortos.
Esses pensamentos impulsivos, impossíveis de descrever.

Sobremesa: "Cresce o ponto bem no meio do amor seu centro/ assim como o que a gente sente e não diz cresce dentro". (Paulo Leminski)

23 de maio de 2006



"Existiria verdade, verdade que ninguém vê
se todos fossem no mundo iguais a você".
(Tom Jobim e Vinicius de Moraes)

Berimbau (trecho)
Vinicius de Moraes e Baden Powell

Quem é homem de bem não trai
O amor que lhe quer seu bem
Quem diz muito que vai, não vai
Assim como não vai, não vem
Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
O dinheiro de quem não dá
É o trabalho de quem não tem
Capoeira que é bom não cai
Mas se um dia ele cai, cai bem

(...)

Se não tivesse o amor
Se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar
Melhor era tudo se acabar.

(...)

Sobremesa: "Tristeza não tem fim/ felicidade sim". (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)