25 de junho de 2008


Valentina de Guido Crepax

Intervalo

Enquanto passa
olhos de dúvida
tentando ler fumaça.

Sobremesa:"Como se pudessem chegar a algum lugar onde elas mesmas não estivessem". (Alice Ruiz)

13 de junho de 2008


morning sun - edward hopper

Para L., com carinho

Tem dias que acordo tão descrente. Não acredito no ‘bom dia’ das pessoas, nem se as nuvens no céu são de chuva. Descreio que Deus exista e que esteja olhando pra mim e por mim lá de cima (logo eu, tão miudinha...). Duvido da preocupação das pessoas no trabalho com a minha saúde. Às vezes sou como São Tomé. Às vezes nem vendo acredito.
Mas o sol arde lá fora e eu sinto na pele. A saudade produz lágrimas e eu sinto no embaço na vista. A dor está aqui, eu sinto no peito. Em isso tudo eu acredito. Às vezes mais do que devia. Mais do que queria.
Hoje eu me senti tão próxima de uma pessoa querida. Pessoa que não vejo há tempos, mas que o meu carinho não diminuiu com a distância e os obstáculos rotineiros. Sinto na alma.
Ela escreveu um texto sobre a perda recente do avô. Mas não escreveu com caneta de lamúria. Isso que mais me tocou. Um texto tão bonito, falando de música, de brincadeira, da mágica que acontece entre avós e netos. Senti a vista embaçar, o peito apertar e uma vontade enorme de dar-lhe um abraço.
Tem dias que eu acordo tão descrente. Mas uma flor, uns sentimentos traduzidos em palavras, pessoas de carne, osso e coração, me fazem acreditar que nem tudo está perdido, a gente é que se perde às vezes. Bom mesmo é se encontrar.

Sobremesa: “A cada mil lágrimas sai um milagre”. (Alice Ruiz)

21 de maio de 2008

Sexta-feira é dia de ligar a vitrola e mastigar música com as pernas, com os braços, com os pés,...

Quem viu o filme O fabuloso destino de Amélie Poulin já ouviu Yann Tiersen
Às vezes eu ouço a mesma música repetidas e incansáveis vezes.

Yann Tiersen - Rue des cascades


Sobremesa: "In the cascade, in the cascade/ you washed me". (Yann Tiersen)

14 de maio de 2008

My way

Ai que saudades eu tenho do Sinatra... Quando ele faleceu, eu tinha 18 anos, não fumava nem bebia, mas achava um charme sem igual aquele cigarro que ele ostentava numa das mãos e o copo de uísque na outra. Lembro que meu pai chorou quando soube da morte, e ouviu todos os vinis que tinham lá em casa. Lembro que me deu vontade de chorar quando vi as matérias, ouvi as músicas e vi meu pai derramar lágrimas por alguém que nem conhecia, mas que gostava tanto.

Hoje acordei com meu pai ouvindo e vendo as homenagens à morte do Sinatra. Senti-me com 18 anos, vendo meu pai lacrimejar os olhos e se emocionar como há 10 anos. Hoje ostento um cigarro numa das mãos (de vez em quando uma dose de uísque na outra) e uma vontade de sentar e ouvir – agora – os meus vinis tão queridos dele.
Herdei algumas coisas do meu pai e, uma delas é essa paixão pelo Sinatra e essa saudade que parece não ter fim.

Com vocês, uma das parcerias mas lindas dele - com Tom Jobim. Uma coisa é certa, se ele não fosse americano, seria carioca. Um charme só.



Sobremesa: "Yes there were times, I'm sure you knew/ when I bit off more than I could chew/ but through it all when there was doubt/ I ate it up and spit it out/ I faced it all and I stood tall/ And did it my way". (My Way, com aquela voz e aqueles olhos azuis, inconfundíveis).

6 de maio de 2008


para colorir o prato, melhorar da gripe e curar o tédio.

foto por joão faissal.
tratamento por leo.


Vocabulário lúdico culinário


Pimenta – Cor que salta aos olhos. Sabor que se ingerido em excesso faz o suor saltar aos poros. Meninas animadas num samba afinado. Desejo que diverte, mas não adverte. No olho do outro é refresco, no nosso é incêndio. Pode ser líquida, mas não é mole. Pode ter dedos de moça, mas não é santa. Dia de calor excessivo. Turistas sem aviso e sem melanina quarando ao sol do meio-dia. Cor que acomete os que não estão preparados para o elogio, fora ou queda na frente do sujeito de desejo. Batom e unhas vermelhos. A cilada ruiva onde Roger Habbit se meteu. As mulheres de Chico e do Shiko. Sexo. Com ou sem amor. Na cama, no sofá, no elevador. Em pé, sentado, deitado, como for.


Sobremesa: "Vem mansa porque a contradança é mais audaciosa". (João Nogueira e Paulo César Pinheiro, na voz da apimentada Elis Regina)

1 de maio de 2008


doce de banana by mama.
foto by me.

Vocabulário lúdico-culinário

Doce
– Palavra açucarada que às vezes acompanha o algodão. A razão de João e Maria ficarem atraídos pela casa de biscoitos. Sabor agradável que fica na boca dos amantes após o beijo. Dias ensolarados ou chuvosos, desde que compartilhados com os que amamos. Um olhar junto. Uma goiabada com queijo. Um beijo com desejo. Um abraço com todo o conjunto. Sorriso de criança. Qualquer sorriso que venha de dentro e ultrapasse os dentes. Um eu te amo dito ao ouvido com destino direto ao coração. Pôr-do-sol de mãos dadas. Amigos verdadeiros. Amor de verdade. Receita feita com punhados de cuidado e baldes de carinho. Nome que se pronunciado na cozinha atrai formigas gigantes que andam sobre duas pernas, e beijinhos e carinhos sem ter fim.

Sobremesa: "Com açúcar, com afeto/ fiz seu doce predileto/ pra você parar em casa". (Doce feito por Chico Buarque, encomendado por Nara Leão)

23 de abril de 2008

Meu primeiro meme (indicado por Igor), e acho que o mais difícil de responder – eleger os 5 discos que me influenciaram ou mais me marcaram. Sou fã de listas, mas 5 é covardia. Injustiças serão inevitáveis, mas admito que foi uma delícia revirar a estante e a memória pra fazer o top 5 da minha vitrola-cachola. O critério foi de ordem cronológica que cada um deles chegou aos meus ouvidos.

Abbey Road – The Beatles (1969)



Eu cresci ouvindo Beatles, meu pai gostava até das versões da Jovem Guarda. Foi difícil escolher um álbum preferido, mas o Abbey Road contém algumas das músicas que mais gosto da banda – “Oh! Darling”, “I want you (She’s so heavy)”, “Something”, “Because” e “She came in through the bathroom window”. Acho até que caberia um top 5 só de discos deles (mas isso é uma opinião de fã. rs).
Ontem vi o musical “Across the universe”. Achei o filme lindo, com uma perfeita escolha de músicas, que passeia por todas as fases do FabFour. Recomendo o filme e, principalmente o(s) disco(s). Há quem discorde, mas pra mim eles foram a melhor banda de rock de todos os tempos.


Life - The Cardigans (1994)



A primeira música que ouvi do Cardigans foi “Rise and Shine”. Um dia, andando no shopping, encontrei esse disco por R$ 14,00. Para não ter dúvidas, pedi pra ouvir. Não foi preciso ir além da primeira faixa - “Carnival” - pra decidir levá-lo. É, com certeza, um dos discos da minha vida. Pop rock cheio de influências sessentistas, marcado pela voz inconfundível da Nina Persson. E, para minha surpresa, lá no finzinho do disco, encontro um belíssimo cover do Black Sabbath, “Sabbath bloody Sabbath”. Os discos seguintes da banda também são adoráveis e bem diferentes deste primeiro. Ainda assim, o Life continua sendo o melhor – em minha opinião. Um disco para ser ouvido num dia de sol. Um disco pra deixar a gente feliz.



Os Afro sambas – Baden Powell e Vinícius de Moraes (1966)




Uma das junções mais perfeitas da música. Baden é um gênio, de uma precisão e honestidade que me emocionam. Esse disco – que não tem nada a ver com a Bossa Nova – marca a passagem (ou seria viagem?) dos dois aos terreiros de candomblé, regadas a doses diversas de uísque escocês. É visceral, pesado. Não há como passar ileso ao violão de Baden ou às letras de Vinícius. Descobri esse disco já adulta (apesar do meu pai ouvir os dois desde a minha infância). E sempre que ouço me soa forte, como se chegasse na alma da gente.
Quando Baden virou evangélico, renegou esse álbum. Se é demoníaco eu não sei, mas “pergunte pr'o seu Orixá, o amor só é bom se doer”.


Bloco do Eu Sozinho – Los Hermanos (2001)



Eu detesto Anna Júlia (até hoje) e relutei ouvir qualquer coisa da banda por culpa dessa música. Mas um dia vendo a mtv (num tempo em que tinha mais música), vi o clipe de “Todo carnaval tem seu fim”. Acho que chorei quando vi aquele confete caindo ao som dos metais. Uns dias depois comprei o disco num site. O universo carnavalesco sempre me deixou nesse misto de alegria e tristeza, e esse disco me soa exatamente assim: me emociona a melancolia das letras mas ao mesmo tempo as melodias me deixam feliz. Mais feliz ainda por ter descoberto essa banda. Fui para todos os shows no circuito Paraíba-Pernambuco, e num deles, consegui levar meus pais (minha mãe adora LH). Os discos seguintes, Ventura e 4 são lindos, mas o Bloco... é meu xodó. Pode dizer que é emo, pseudo-intelectual, o que for. Esse disco pra mim é phoda. E tenho dito, ouvido, cantado... até o apagar da velha chama.


Oh! The Grandeur – Andrew Bird (1999)



A mais nova paixão da estante. Minha irmã me passou uma música dele (não desse álbum). Fui vasculhar (três vivas para a internet!!) e mon petit ami Leo baixou esse disco. O Andrew ganhou esse pseudônimo de “bird” por causa do seu assobio. È formado em música clássica e sabe experimentar sem perder o tom nem a graça. Esse disco é belíssimo, parece música francesa antiga (ele é americano). Um disco pra dançar (no melhor estilo cheek to cheek), ou enlouquecer com a primeira faixa “Candy shop”. Fechem os olhos, se imaginem num daqueles cafés bem charmosos (cabaret também combina muito), peçam uma dose e deliciem-se.


Os meus indicados:
Digs
Fermar

Sobremesa: "Oh honey pie my position is tragic/ come and show me the magic of your Hollywood song". (The Beatles)

18 de abril de 2008


woman on her way home
matt murphy


Todo dia é primeiro de abril


Pesava pouco mais de 40 quilos, mas ao final do dia, sua alma indicava uns 200.
Acordar era difícil. Levanta, come alguma coisa – quando a náusea está mais amena – toma um banho e sai. Enquanto espera o ônibus pensa “o que estou esperando aqui? O que estou fazendo aqui, esperando?".
Mesmo assim pegava o ônibus e ia para o trabalho.

“Fulano é um ótimo médico, leve seu filho lá”. E Fulano havia sido acusado de pedofilia em 3 das 5 cidades onde morou.

“Essa farmácia é ótima! Credibilidade e qualidade que você só encontra aqui”. Mas o dono – na verdade – era um traficante, que vendia farinha pra evitar filhos e lexotan fantasiado de ass infantil.

“Uma cabeleireira com um olho mágico, 5 minutos e você tem o corte dos seus sonhos”. Na verdade você tem o corte por 5 minutos, depois seus cabelos vão começar a cair.

E depois de tanto mentir por profissão, ela cansava das pessoas que mentiam por vocação. Dava náuseas ouvi-las falar, sentia nojo de olhos recheados de falsidade, de sorrisos que só escondiam a punhalada pelas costas.
O que a confortava é que a sua vida – fora do trabalho – era de verdade. O amor, as amizades (àquelas mais de colo que de copo), o ombro da mãe, a cumplicidade da irmã, o choro, o riso, o abraço, a fome e o fastio, a insônia e o cansaço, a música e a dança.
A dor de mentir não amenizava no final do mês, mas era necessária porque – ao contrário do seu trabalho – suas contas eram todas verdadeiras e não aceitavam mentiras como desculpa!
Ela não tem sonhos de grandeza, o que ela quer mesmo é – num futuro breve – ter o dia mais preenchido com pequenas verdades que com grandes mentiras.

* Os clientes citados são de mentira. Mas que diferença faz?!


Sobremesa: "Na segunda-feira, parte da família foi para os seus respectivos empregos, já que é preciso morrer de alguma coisa". (Julio Cortázar)

11 de abril de 2008


eu quero paz...


Um galho de arruda para aliviar meu coração

Raquel Medeiros

Hoje estou me sentindo cansada, como quando era criança e minha avó dizia “essa menina tá ‘mufina’, se não for doença, é mau-olhado”. A doença não vinha, mas o cansaço não saía. Era uma moleza estranha, uma fraqueza para andar, para viver. Aí vinha minha avó, me rezar com um galhinho de arruda. Depois de umas palavras de amor e fé ditas bem baixinho (porque tem gente que acha que Deus é surdo) era o pobre galho que ficava ‘mufino’.

Em mim, já não havia mais peso... era uma sensação boa e leve. Ela falava com carinho e aquelas folhas percorriam meus braços, minha cabeça, minhas pernas, minhas dores. E ao final, levavam todas elas (as dores) embora pra algum lugar longe de mim.
Era um ritual mágico. Tinha que ser num lugar aberto (pra que a dor não se escondesse debaixo de algum armário, dentro de uma gaveta esquecida aberta). Tinha que ser de dia e, o mais importante, a reza tinha que vir de alguém com o coração cheio de sentimentos bons, e isso ela tinha de sobra...
Minha mãe diz que eu pareço com ela. Era pequena, teimosa, fumante, adorava café e detestava ameixas e mamão.

Costurava uns vestidinhos com um bolso interno, pra não ser assaltada ao sair do banco com sua pequena aposentadoria. Levava rosquinhas sempre que ia lá em casa. Um maço de cigarros para o meu pai e um agrado até para o cachorro. Fazia um cafuné tão bom que a gente fazia fila pra sentar no chão entre as suas pernas. Detestava que a fizessem de boba. Não fugia de briga, nem de festa. Andava sempre cheirosa e pintava o cabelo sozinha, no alto dos seus 86 anos.
Hoje estou me sentindo cansada. Queria uma reza com galho de arruda. Queria aquelas mãos enrugadas me fazendo cafuné.

Sobremesa: "Lembra o tempo que você sentia e sentir era a forma mais sábia de saber e você nem sabia?". (Alice Ruiz)

17 de março de 2008


desde cedo eu já trocava a noite pelo dia.

Texto para não dormir

Raquel Medeiros

O dia clareando a janela e meu sono difícil. Impossível adormecer as 6 e acordar bem às 7:30. “É melhor levantar de uma vez”, lamentei. E fiz. Tomei café, e enquanto fumava o primeiro cigarro do dia, veio o sono. Água fria nele!
Uma música, um carinho no cachorro, e lá vem ele de novo – o sono. Arrumo-me às pressas (pra evitar a elaboração de uma desculpa) e saio.

O sol inclemente lá fora. Sem pilha, sem música, sem paciência. Entro no ônibus. O cobrador reclama da coluna e me dá o troco sem responder meu bom dia. Acontece. Sento e quando o veículo começa a balançar menos sinto o peso nas pálpebras. “Acorda, Raquel, sua parada é a próxima”, constato.

Desço do ônibus, acendo um cigarro. O dia está lindo, mas quente como o inferno (e há quem pense que não é aqui). Chego ao trabalho, ligo o computador. Vejo emails, algumas notícias, a pauta do dia e levanto pra tomar um café antes que eu adormeça com a testa na tecla “z”.

Um café, um cigarro. Termino a minha pauta ainda de manhã. Um alívio seguido de um bocejo. Hora do almoço, Como pouco (o sono maior que a fome), volto para o trabalho (agora sim tenho certeza que o inferno é aqui). Sento no computador: nenhum email não lido, nenhum trabalho pra fazer, o dia muito quente (mesmo aqui dentro) para tomar o terceiro café.

“Melhor escrever pra passar o sono”, penso. Termino e agora não sei mais o que fazer pra ele ir embora. Acho que vou encarar o café quente.

Sobremesa: "Eu faço samba e amor até mais tarde e tenho muito sono de manhã". (Chico Buarque)

20 de fevereiro de 2008


"Um homem com uma dor é muito mais elegante
caminha assim de lado, como se chegando atrasado
andasse mais adiante". (Paulo Leminski)


Minha vida sem mim

Raquel Medeiros

Amigo,

Sei do que passas e me falas. Aqui do outro lado não é diferente. Mudam as perdas, a temperatura do dia e as aflições cotidianas. No mais, acordo toda manhã com o pensamento de que está tudo bem – desejando com todas as forças (que às vezes perco no decorrer do dia) que fique mesmo tudo bem.

Te falei que sempre descubro outras de mim. È como uma pequena morte. Importa que não nos esqueçamos de que(m) sempre fomos e somos. O que me preocupa é a constatação de que o livre arbítrio não é tão livre pra nós.
Nessas horas é melhor pensar que sempre morremos um pouco pra nascermos melhores. E nesse caso, um ciclo se cumpre. Não vasculhe as xícaras quebradas que já não te servem café como antes. Guarde na caixa das coisas antigas, que ganham beleza por não estarem inteiras. O inacabado tem lá seu charme quando nos convencemos de que não foram mesmo feitos para ter um fim.
Já o começo - sempre difícil – traz de um lado a inabilidade de aprender a andar, pensar, escrever, sentir. De outro lado, traz a novidade, o olhar voltado para dentro e para frente. Adiante e avante, amigo!

Isso tudo aqui pode parecer palavra que sai fácil. E saiu, pois desta vez não sou eu quem sai do casulo depois de uma turbulência. Sei que estás um tanto perdido, confuso e armado até os dentes com uma faca cega. Entendo perfeitamente.
Quando isso me ocorre, eu tomo um café, acendo um cigarro – sei que não és deste vício – e ouço alguma música numa voz feminina, como um aconchego uterino. Um lugar quente e seguro, de onde meu novo eu sai e sofre com o frio. Mas o sol arde lá fora. Enquanto estivermos vivos, amigo, há sempre a redenção.

Para Diego.

Sobremesa: "Coisa dolorosa feita de barro e poeira/ o homem no seu quarto, de noite, pelejando pra escrever no papel/ com lápis, nó e tropeço, a dor do seu peito."(Adélia Prado)

19 de fevereiro de 2008


in the car - roy lichtenstein


Lembranças de viagem em três atos

Raquel Medeiros

Primeiro ato
Lembro de quando chegamos num novo destino. As malas bem arrumadas para não amarrotar meus vestidos, nem suas camisas. Compartilhamos o xampu, o creme dental e o espelho. Abrimos um vinho – ou cerveja, ou mesmo uma água sem gás – e brindamos o começo. Bebemos e acendemos nossos cigarros. Agora há um silêncio mútuo, um olhar cúmplice, um beijo apaixonado e o infinitivo 'enquanto durar'.

Segundo ato
Lembro das malas desarrumadas. Suas cuecas espalhadas e eu ainda tentando colocar alguma ordem como se aquele lugar fosse nosso quarto, nossa casa. Passamos o dia com uma preguiça inerente. As forças concentradas no corpo – do outro.

Terceiro ato
Lembro do nosso banho rápido, onde já nem conto teus sinais. Das roupas sendo jogadas sem paciência de volta à mala. A vontade de ficar e a porta que abre lentamente. Estamos indo para sempre.

Sobremesa: "O amor é uma agonia/ vem de noite/ vai de dia/ é uma alegria e de repente uma vontade de chorar".(Vinícius de Moraes)

28 de janeiro de 2008


people in the sun - edward hopper, 1960.

Música para um dia de verão.

"Quando penso nos amores virtuais
Nas maquininhas digitais
Fico sem saber como fazer pra me convencer
O genoma e os neurônios saltitantes
Ficam alegres e falantes
O futuro até parece com uma patada de elefante
E a natureza serve só para combustível
E tudo o que deixamos queimar, sem se importar
Parece que perdemos o senso e o juízo
E agora o mundo vai se esquentar".
(futurismo - kassin +2)

Pra quem quiser ouvir mais dos moços.
http://www.myspace.com/morenodomenicokassin2

Sobremesa: qualquer picolé de fruta, de preferência com um ipod dentro. ;)

24 de janeiro de 2008


Room by the sea - Edward Hopper 1951

Eu que não esqueço
Raquel Medeiros

Eu não passo naquela rua do Cabo Branco sem lembrar do seu all star verde, das suas malas de madeira, dos retratos e desenhos em preto e branco, das viagens em terra, das descidas até o chão, dos goles, das risadas, dos abraços, das lágrimas, do pão de queijo, de ver o sol descer e a lua nascer do alto do prédio, do cheiro de incenso, da imagem de São Francisco de Assis, do aparelho de dvd que nunca funcionava, das mulheres de Chico, da angústia de Clarice, do cinzeiro-ninho das nossas fobias, dos tragos debaixo do jambeiro, das xícaras de café com açúcar, afeto e um silêncio cúmplice, do banho de mar-que-afasta-uruca que nunca tomamos e dos encontros e desencontros dos quais não escapamos.

Eu sinto tanta saudade que a memória às vezes falha, e cria histórias que não contamos e fatos que não vivemos.

Eu não passo naquela rua do Cabo Branco sem lembrar de mim.

Sobremesa: "Once there was a way, to get back home". (The Beatles)

11 de janeiro de 2008


Maria tinha uma pedra, um sapato e um caminho.
No meio do caminho a pedra entrou no sapato
e Maria nunca alcançou o céu. (Raquel Medeiros)

Strangers in the night
Raquel Medeiros

Quando eu e Julio nos encontramos na solidão do quarto, somos amantes contrários. Ele chega com a calma, sem a pressa de responder minhas perguntas (e são tantas!), com uma tranqüilidade admirável e intrigante. Eu chego com a ansiedade (as mulheres no geral sempre querem que o dia chegue à véspera), com a náusea a ser curada, com o vazio a ser preenchido. Mas chegamos os dois, assim como Oliveira e a Maga, sem nos procurar, mesmo sabendo que deveríamos e que vamos (inevitavelmente) nos encontrar.
Eu sigo suas indicações e me emociono “como pode um estranho saber tanto de mim?”. Da desordem que começa na minha bolsa e que se estende às questões sentimentais. O Julio sabe que o único caminho certo é o do sangue nas veias, e que todo o resto se move como num jogo de amarelinha. Um chão riscado, uma pedra na mão e fé no passo – onde quer que ele nos leve. Encontraremos o céu?

Sobremesa: "E, se nos mordermos, a dor é doce/ e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela/ E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura/ e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água". (Julio Cortázar. O Jogo da Amarelinha, capítulo 7).

23 de novembro de 2007


Gossip face - Muntsa Vicente

Amarcadamarca
Raquel Medeiros

Amar cada marca
Amar cada mar cá
Amar cá, dá marca.

Sobremesa: "só doer/não é dor/delícia/de experimentador" (Paulo Leminski)

30 de outubro de 2007



Portrait of the devil and his fingers
Joe Sorren

Retalhos do cotidiano sem backspace
Raquel Medeiros

“Computadores são demônios que as redações de jornal e as agências de publicidade usam pra infernizar a vida da gente”.
Acabo de ouvir isso de um cliente que, apesar da barba e cabelos grisalhos, não deve ter mais de 46 anos. Ele conseguiu me provar por a + b que não faz a mínima idéia do que fazer com essas criaturas sem chifre.

- Posso mandar um e-mail do seu computador?
- Claro. Fique à vontade.
- E como eu mando esse cartaz por e-mail?
- É só anexar.
- E como eu faço isso? Aliás, você faria isso?
- Faço sim, mas o arquivo está em corel. A pessoa pra quem você quer enviar tem corel?
- Não sei. O que é corel?
- Não vai por e-mail, muito pesado o arquivo.
- O que eu faço então?
- Reza.

Sobremesa: Eu adoro esses demônios que se instalam – alguns muito velhos e já sem tanto poder assim – nas redações, agências e todos os lugares (in)decentes do mundo. E me deleito com os ricos clientes mortais tão medrosos, tão teimosos, queimando no fogo do inferno, em meio a esses muitos e inevitáveis demônios. (Raquel Medeiros)

9 de outubro de 2007


Duas colheres de ânimo para começar o dia.

Amanhã não se sabe
Raquel Medeiros

“Não se afobe não, que nada é pra já”. Chico repete isso no meu ouvido e eu me repito como um mantra. Eu sofro de uma ansiedade quase doentia: minhas unhas estão ruídas, minhas olheiras estão enormes, minha insônia é visita constante e aqui e ali tenho ostentado um cigarro entre o indicador e o dedo médio. Mas não adianta, já diria o Leminski - que os problemas têm família grande - e cá estou eu a fazer sala para todos eles.

Não quero aqui fazer um texto pra chorar minhas pitangas, pois há coisas boas acontecendo neste tempo de semi-exílio. Tenho fumado menos que antes (apesar da angústia), tenho saído menos (e me poupado de companhias e ressacas indesejáveis), tenho dado passos – pequenos, porém firmes – para um projeto que sempre quis. Logo vocês vão saber. Tenho essa mania – agora, depois de velha – de ser mais cuidadosa em falar sobre meus planos, pra evitar a fadiga e o mau-olhado (depois de velha a gente também começa a acreditar em certas coisas).

Hoje não tem poesia, nem prosa. Só um feijão com arroz que tenho requentado nesses últimos meses. Mas sinto um gosto bom na boca, uma sensação boa no peito. É, além de uma fumante ansiosa, eu sou otimista. E apesar de ter dias – constantes – em que queria ficar invisível e deixar de ser substantivo – tristeza e dúvida -, acredito que ainda posso ser verbo – ser muito mais.

Sobremesa: "Se o tempo passou, espero que ninguém me leve a mal/ mas se o samba quer que eu prossiga/ eu não contrario não/ com o samba eu não compro briga/ do samba eu não abro mão". (Chico Buarque)

2 de outubro de 2007


"Mulher é desdobrável". (Adélia Prado)

As Três Marias
Raquel Medeiros

Maria das Dores
Não tinha pai nem mãe
Não sabia ler nem escrever
Mas carregava uma trouxa de roupa como ninguém
Lavava copo, prato e colher.
Enquanto vê seu reflexo no fundo da panela
Uma gota de suor escorre no rosto
Mas não há espaço para cansaço.
Nunca teve relógio
Mas sabe como o tempo é curto para tanto trabalho.
Enquanto torce a roupa ela chora sua sorte
E pensa na filha que carrega no ventre
“Antes de nascer já de bucho encostado no tanque”.

Maria Aparecida
Filha de Maria das Dores
Não tinha pai
Nasceu no quarto dos fundos
Sabia escrever o nome, mas não sabia ler
Cozinhava como ninguém
Vaca, boi, bode e o que viesse
Não tinha bicho que não morresse
Na ponta da sua faca
Não tinha gente que não a admirasse
Na ponta do garfo
Enquanto junta as penas da galinha
Sente pena da barriga já crescida.
“Cá estou eu com outra Maria no bucho”.

Maria do Socorro
Filha de Maria Aparecida
O pai foi assassinado
Apareceu no mundo antes do tempo
Aprendeu a ler e a escrever antes dos 5 anos
Cresceu e logo aprendeu a manusear arma
Não lavava, não passava
Não sabia cozinhar nem polir panela
Mas tinha sempre uma bala na agulha
E um olhar afiado
Não tinha gente que não tivesse medo dela
José foi morto na mira do seu olhar
E enquanto chorava, alisava a barriga
“Que esta Maria tenha mais sorte na vida”.

Sobremesa: "Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento/ e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas/ Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam/ mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar/ e quem chegar perto pega fogo". (Eduardo Galeano)