20 de julho de 2006


"El tango es un pensamiento triste
que se puede bailar"
(Enrique Santos Discépolo)

Ela. Ele. Eles...
(Raquel Medeiros)

Ela
Encara o espelho. A toalha ainda envolve o corpo. Na vitrola, Chico Buarque, "Não, solidão, hoje eu não quero me retocar nesse salão de tristeza onde as outras penteiam mágoas". Meia-calça e cinta-liga. Uma taça de vinho. Um cigarro. Vestido vermelho. Vermelho nos lábios e na flor do cabelo. Salto alto. Perfume no colo e na nuca. Cabelos presos e pensamentos soltos. Uma última taça para criar coragem. Um passo excitante na frente do outro hesitante. Desliga a vitrola. Acende um cigarro. Sai.

Ele
Encara o espelho. A toalha ainda envolve a cintura. Na vitrola, Frank Sinatra, "Something in your eyes was so inviting, something in your smile was so exciting". Meias pretas. Uma dose de uísque. Um cigarro. Calça preta. Camisa idem. Tenta arrumar o cabelo. Sapatos bem engraxados. Perfume nos pulsos e na nuca. Chapéu inclinado e pensamento reto. Uma dose de uísque para tomar coragem. Um passo viril na frente do outro vil. Desliga a vitrola. Acende um cigarro. Sai.

Eles
Ele a leva para a pista de dança. Os passos traiçoeiros e o apuro duvidoso do par denunciam o tango. Na vitrola, Carlos Gardel, "Del fondo de mi copa su imagen me obsesiona, es como una condena, su risa siempre igual, coqueta y despiadada, su boca me encadena, se burla hasta la muerte la ingrata en el cristal". Num ritmo pernicioso, executam o mais lascivo dos balés. Se entregam entre braços, pernas e olhares. Não se pode afirmar o que os une - amor, dúvida, desilusão, solidão. Mas nunca se viu, naquela pista de dança, um casal assim. Ela, pólvora. Ele, sangue.

Sobremesa: "Descubrimos vos y yo en el triste carnaval/ una música brutal/ melodías de dolor/ despertamos vos y yo/ y en el lento divagar/ una música brutal encendió nuestra pasión/ dame tu calor/ bébete mi amor". (Gotan Project)

10 de julho de 2006


"Mas o que eu quero é lhe dizer
que a coisa aqui tá preta".
(Chico Buarque)

* Ilustração de Rafal Olbisnki

Antipoema (trechos)
Fernando Bonassi

Alguns números dessa história

4 e meio bilhões de habitantes em confusão; 146 nações desunidas; 20 anos de ditadura; 11 contra 11; 2 torres gêmeas sacudidas; 32 dentes imaturos; 12 meses para pagar; 9 meses de gestação até a dilatação; 3 por 4 no RG; 30 mil mortos nas ruas de Chernobyl; uma puta que o pariu; 27 bichos no jogo da sorte; 24 horas de prazo com o destino; 5 dias de folia por 1 de arrependimento; 2 cabeças (uma que pensa e uma que pulsa); 2 lados da mesma moeda; 2 forças antagônicas; 2 bombas atômicas; 241 bilhões de dólares em armamentos; 7 anos de azar por espelho; 40 ladrões; 40 passageiros em pé; 36 lápis de cor; 10 metros num segundo é a gravidade das coisas desse mundo; 3 desejos irrealizáveis; 1 gênio da lâmpada; 7 pecados capitais; 7 orifícios do coração; 7 estrelas da Ursa Maior; 5 elementos; 54 cartas por baralho viciado; uma sintonia incompreensível e 9 sinfonias inacabadas; 123 quilômetros de congestionamento; 2 Coréias separadas; 2 pra lá, 2 pra cá; 2 pilotos por equipe; 8 cavalos no páreo; 24 quadros por segundo; 4 patas; 200 metros com barreiras intransponíveis; 1 trocado de aumento; 1 par de sapatos para Dorothy; 1 homem de lata; 1 homem, uma mulher; uma bala na agulha; 1 geração perdida; 26 milhões de banguelas comendo rapadura; 176 milhões de touxas à espera do futuro.

Sobremesa: "É pirueta pra cavar o ganha-pão/ que a gente vai cavando só de birra, só de sarro/ e a gente vai fumando que, também, sem um cigarro/ ninguém segura esse rojão". (Chico Buarque)

3 de julho de 2006


"De repente sou uma equilibrista muito cansada
de suster a todos por um cordel. Vou deixar cair".
(Adélia Prado)

*Imagem - Edward Hopper

O amor que a gente tinha
Raquel Medeiros

Não me peça pra calar agora. Essa é a minha hora de falar, está bem escrito aqui, no roteiro. Eu não preciso ter um final triste. Também está escrito aqui.
Onde foi que meu personagem se perdeu do teu? Foi na hora da mudança?! Eu sabia... Senti que algo tinha ficado no caminho, tinha se perdido. Nos perdemos.

Quando ouvi o barulho abafado de vidro quebrado, achei que fosse algum prato, algum copo. Mas nem era, era o amor que a gente tinha...
Eu que pensava que ele era forte, que resistiria ao tempo e à má sorte... Ele não resistiu à mudança. Caiu naquela rua... Desesperança.

Sobremesa: "Nosso amor foi uma valsa triste/ um curta-metragem de tolerância-curta". (Raquel Medeiros)

28 de junho de 2006


"Gossip face" - Muntsa Vicente

Um trago de amor
Raquel Medeiros

Me faça acordar com beijos curtos porém gentis.
Não importa quantos cigarros ficaram no cinzeiro na última discussão. Não me venha com tratamento ou terapia, que minhas fobias solto na fumaça. Pouco importa as cicatrizes físicas. Amor sem dor não rima.

Amor nem sempre é nuvem no meio do caminho. Às vezes é pedra nos rins. É mal líquido que escorre entre os dedos, e tão sólido que pode matar se cair repentinamente no coração desavisado.

Perdoa se nas palavras o amor parece pouco, parece parco. É louco, e loucura não se explica. Se assume ou se nega. É pegar ou largar. É delícia e dor na mesma proporção. E se não há retribuição, é melhor calar.
Me faça dormir com beijos longos porém febris.

Sobremesa: "Pergunte pro seu Orixá/ amor só é bom se doer". (Vinicius de Moraes e Baden Powell)

1 de junho de 2006


Drawing for canvas in bar - Elph


Relato passado de angústia presente
Raquel Medeiros

Tenho medo das tuas mãos. De ler nelas verdades sobre mim. Sobre nós. De ter meu futuro ironicamente traçado nas tuas tortas linhas.
Nunca fui reta. Nem sempre estive certa. De alguns buracos não consegui desviar. Algumas quedas me recusei a evitar.
Tive doces e amargas surpresas. Jantares meticulosamente preparados pra ninguém, e convidados que me surpreenderam quando tinha um uníco prato de sopa rala pra oferecer.

Tenho medo dos teus olhos. De ver verdades sobre mim. Sobre nós. De ter a minha face assustadoramente refletida nos teus vidros escuros.
Esse teu eterno espelho de mim, que tentei encobrir com lençóis grandes e que, ainda assim, revelaram cada cicatriz, física e emocional.

Cravo a face no travesseiro pra abafar o choro. Não descanso. Canso dessas idas e vindas. Dessas despedidas. Choro por egoísmo, que altruísmo é sempre tarefa do vizinho.

Não escrevo coerentemente. Não ando coordenadamente. Não penso racionalmente. Essas palavras saem feito sangue que não estanca, assim como esses passos tortos.
Esses pensamentos impulsivos, impossíveis de descrever.

Sobremesa: "Cresce o ponto bem no meio do amor seu centro/ assim como o que a gente sente e não diz cresce dentro". (Paulo Leminski)

23 de maio de 2006



"Existiria verdade, verdade que ninguém vê
se todos fossem no mundo iguais a você".
(Tom Jobim e Vinicius de Moraes)

Berimbau (trecho)
Vinicius de Moraes e Baden Powell

Quem é homem de bem não trai
O amor que lhe quer seu bem
Quem diz muito que vai, não vai
Assim como não vai, não vem
Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
O dinheiro de quem não dá
É o trabalho de quem não tem
Capoeira que é bom não cai
Mas se um dia ele cai, cai bem

(...)

Se não tivesse o amor
Se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar
Melhor era tudo se acabar.

(...)

Sobremesa: "Tristeza não tem fim/ felicidade sim". (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)

26 de abril de 2006


"Por afrontamento do desejo, insisto na maldade de escrever".
(Ana Cristina Cesar)

Declaração de bens e males
Raquel Medeiros

Declaro, antes de qualquer coisa, que esta declaração é parcial e passional.
Não tenho muito dinheiro, aliás, nunca tive. E o pouco que tenho, mais cedo ou mais tarde, vou ter que dar parte dele ao governo. Ainda não pago imposto, mas já paguei promessa mesmo não sendo religiosa.

Quando criança, fui pediatra e professora, sem nunca ter feito graduação. Desisti de ser pediatra quando descobri que as crianças não vão a consultórios para brincar. Ainda não desisti de ser professora.
Já fui mocinha e vilã. O filme não passou nos cinemas, e ainda não teve um final. Acho que vou chorar no fim. Eu sempre choro.
Fui bailarina, leve no corpo. Bailarina de quedas e calos. Na adolescência deixei o balé pela permanência na escola. Na vida adulta deixei pela exigência do trabalho.
Nunca acreditei em príncipe encantado. Primeiro porque princesas são loiras e eu não sou. Segundo porque achava aquelas roupas ridículas e tinha medo de cavalos. Caí de um por volta dos 9 anos de idade.

Tenho o humor ácido, mas nunca consegui corroer a face de nenhum de meus desafetos.
Fui um feto que aprendeu desde o ventre a compartilhar espaço, comida e carinho. Mas sou egoísta quanto ao amor e a dor.
Estudo e trabalho. Um dia espero ver que isso valeu a pena.
Alguns dos meus sonhos não foram até o fim, ao contrário dos meus desenganos.
Às vezes acho o mundo divertido, noutras vezes parece um eterno domingo.

Já estive doente de corpo. Já tive doença na alma.
Tenho insônia, mas adoro dormir.
Sou flamenguista, portanto, masoquista.
Quero ter filhos, cachorro, um lugar para morar e outro para fugir.
Meu avô me iniciou no vício da leitura.
Meu pai me influenciou no vício do cigarro.
Minha mãe me ensinou que não posso ter tudo, e que isso não é, necessariamente, ruim.
Espero fazer muita coisa antes da morte chegar - arrumar a casa, educar os filhos, pagar as dívidas e sanar as dúvidas. E se não for muito, realizar parte dos meus sonhos.
Sou sonhadora e aprendi nos livros que isso pode ser bom ou ruim. Mas agora é tarde. Nasci assim.

Sobremesa: "Se o que eu sou é também o que eu escolhi ser/ aceito a condição". (Rodrigo Amarante)

20 de abril de 2006


Marla Singer - Fight Club

Pecado fluente
Raquel Medeiros

Você me assusta
Quando passa legivelmente
E me olha displicente
Ignorando brutalmente
Todo o meu temor.

Você me derruba
Quando me beija eficiente
E me olha ardentemente
Provocando lentamente
Todo o meu ardor.

Você me perturba
Quando me toma vigorosamente
E me possui incansavelmente
Marcando intensamente
Todo o meu amor.

Você me murcha
Quando me abandona de repente
E me deixa tristemente
Aumentando violentamente
A minha dor.

Sobremesa: "It's my big secret - keep you coming/ slow like honey/ heavy with mood". (Fiona Apple)

17 de abril de 2006


São demais os perigos desta vida

* Texto da minha pequena. Orgulho do clã. :***

Humano desolado humano
Rilma Medeiros

E Cecília sentia-se só. Mas será que em algum momento ela se reconheceu diferente disso?! Era o que ela se perguntava no alto do vigésimo quinto andar daquele prédio.
A visão era linda, bem diferente de tudo o que ela viu e viveu a vida inteira: chôro, solidão e muito, muito sofrimento. Palavras estas habituais no vocabulário de sua amarga existência.

Lembrou-se que até teve uma boa infância... Irmãos, brincadeiras, alguns amigos. Entretanto, a sensação que hoje experimentava era a de que algo faltava desde aquela época. Teve uma adolescência enleada: sonhos e projetos interrompidos, amores não correspondidos e um sentimento de solitude e angústia que teimava em atormentá-la, como se estivesse predestinada a uma vida pungente e taciturna.

Os anos passaram e em muitos as coisas mudaram. Aquela solidão parecia ter, finalmente, findado: bons amigos, paixões avassaladoras, algumas ainda platônicas, outras transformaram-se em amores correspondidos e serenos, mas Cecília ainda sentia falta de algo. Recordou naquele instante que um dia, conversando com seu avô, queixou-se desse vazio que sentia e que, por mais que tentasse, não conseguia preenchê-lo. Seu avô, com a sabedoria e serenidade as quais lhe eram bem peculiares, respondeu:
- Ceci, esse vazio que você sente todo ser humano possui. É ele que nos move à vida na busca por um preenchimento que na verdade nunca alcançaremos, pois é ele que nos estimula a desejar uma vida melhor, mais emocionante.

Cansada estava Cecília, e aquele vazio que, segundo seu avô, movia o ser humano a viver melhor, moveu-a até o vigésimo quinto andar do prédio do qual ela pulou com um único pensamento em mente: o vazio da vida só é preenchido com a morte.

Sobremesa: "O que será que será/ que dá dentro da gente que não devia/ que desacata a gente que é revelia/ que é feito aguardente que não sacia/ que é feito estar doente de uma folia/ que nem dez mandamentos vão conciliar/ nem todos os unguentos vão aliviar/ nem todos os quebrantos toda alquimia." (Chico Buarque)

11 de abril de 2006


"Não importa mais o que foi perdido, importa apenas o teu sorriso e nada
mais" - Paulinho da Viola

* Texto antigo e querido. ;)

River
Raquel Medeiros

River. Seu nome escrito assim mesmo, como rio. Os olhos dele. O meu acanhamento. O seu sorriso largo. O meu sorriso tímido. 13:00. O almoço. A conta. Eu pago. Você paga. Nós pagamos. A ida à biblioteca. A digestão. Eu recito Byron. Ele recita Sade. As segundas intenções. O desejo mútuo. A ida ao apartamento dele. As minhas mãos frias e suadas. A chave rodando na fechadura. A desistência. A desistência de desistir. Pé direito. Pé esquerdo. O vinho. A música. Chet Baker. O piano. o trompete. A dança. As taças vazias. O beijo com gosto de vinho. 19:00. O tesão. O sorriso. A troca de olhares. O desaparecimento das roupas. As mãos. Os seios. As costas. A boca. A nuca. A cama. Os quadris. O movimento. O sussurro. O suor. O deleite. O gozo. O descanso. O banho. A volta. O tesão. As repetições. O abraço. 23:00. O avanço da hora. O beijo de despedida. A volta pra casa. A distância. O jantar. O lugar vazio na mesa. Uma taça. O cigarro. 01:00. Acordo. O sonho. Não era verdade. Nem poderia. Não conheço nenhum River, escrito assim mesmo, como rio.

Sobremesa: "Não me importa juras de amor eterno/ importa que o amor seja céu e inferno/ interno e externo/ seja como for/ fostes um sonho de amor/ adormeci no meu leito/ acalentada em teu peito/ e acordei afogada num rio de solidão e dor". (Raquel Medeiros)

7 de abril de 2006



"A vida é a arte do encontro, embora
haja tanto desencontro pela vida".
(Vinícius de Moraes)

Fragmentos do vazio II
Raquel Medeiros

Ali, no mesmo vagão da mulher das más escolhas, está um velho, catando alguma coisa na bolsa, como um mágico que procura um coelho numa cartola furada. Uma procura urgente, parecia que faltava pouco para que seu juízo chegasse ao final.
Cata insistentemente, e enfim retira da bolsa algumas fotografias. E mesmo em meio a tantas rugas, é possível ver suas expressões. Lágrimas contidas e um tanto considerável de nostalgia explícita.

Ele pega uma das fotografias e solta as outras no colo. Pára e deixa que as lágrimas contidas reguem a pele enrugada. Na foto, já amarelada, alguns jovens sorriem. O cenário parece ser uma praia, e um dos rapazes - de roupa de banho branca e preta - parece muito com o velho, antes dos cabelos brancos, das marcas do tempo e do sofrimento. Ao seu lado, uma linda moça emoldurada por um maiô preto. Ela sorria e era visível sua felicidade e seu viço. A pele branca e a abundância de suas formas eram o padrão de beleza da época. Uma bela mulher.

O velho acaricia a foto, mais precisamente a imagem da moça. Contorna sua face e seu corpo com os dedos como se pudesse tocá-la de fato. Tira os óculos e chora compulsivamente, como uma criança. Depois ri compulsivamente, como uma criança. Enfim cai num sono profundo, deixando cair os óculos que não vai mais precisar.

Sobremesa: "Porque o tempo é uma invenção da morte/ não o conhece a vida - a verdadeira/ em que basta um momento de poesia/ para nos dar a eternidade inteira". (Mário Quintana)

4 de abril de 2006



Little red riding hood in ribbon - Shimizu

Fragmentos do vazio
Raquel Medeiros

... A maldita quadrilha de Drummond: ela-que-amava-ele-que-amava-outra. Nunca foi boa com escolhas. Nem as roupas (listras com bolas, xadrez com losangos); muito menos com homens. Se um a espancava de um lado; o outro nem lhe dava a chance do amor. Do recomeço.

Resolve pegar o trem sozinha, pois assim nasceu, e assim haveria de morrer. Mesmo que o outro lado cama não esteja vazio. Tem gente que vem ao mundo e sai dele sem conhecer o tal amor, aquele que é feito de doação, cuidado e zelo. Ela só conhecia o amor da renúncia. Sempre por parte dela. E só.

Entra no vagão. Este está tão vazio quanto as esperanças que ela carrega. Na bolsa, um espelho no qual nem tem coragem de ver refletido o trapo em que se transformou. Um batom gasto e uns poucos trocados. Doses homeopáticas de uma vida que ela escolheu mal. Doses cavalares de um vazio que a escolheu.

Sobremesa: "Tudo pisado, tudo partido/ tudo no chão jogado/ e em cada canto/ teu desencanto/ tua melancolia/ teu triste vulto desesperado/ ante o que eu te dizia/ E logo o espanto e logo o insulto/ o amor dilacerado/ e logo o pranto ante a agonia do fato consumado." (Vinícius de Moraes)

29 de março de 2006


"Morena dos olhos d'água, tire os seus olhos do mar
vem ver que a vida ainda vale o sorriso que eu tenho
pra lhe dar". (Chico Buarque)

Jazz me blues
Raquel Medeiros

Todo mundo sabe o que é se sentir só
Alguns sentem mais que outros
Outros fingem mais que alguns.

Solidão é blues sem blue
É pendurar no varal a roupa do amor morto
Com a esperança de que o vento seque a roupa
E traga para o tecido vazio um amor novo
É ver a noite desfilar insana e destilar insônia.

Todo mundo sabe o que é chorar
Alguns choram por falta de saúde
Outros por excesso de saudade.

Choro é jazz que jaz
É desidratar enquanto rega as plantas
Com a esperança de que a água que hidrata ali
Não maltrate, não mate a vida que corre aqui
É chuva que dia de sol nenhum consegue secar.

Hoje é dia de ser só
É dia de chorar
Um sorriso negado
Um recado atrasado
Um nó muito apertado
Um samba cantado em dó.

Com o coração nublado
E na falta de alento
Acendo um cigarro e sento
E sinto que sinto tanto
E que hoje tenho na solidão e no pranto
O meu fado.

Sobremesa: "A vida da gente é mistério/ a estrada do tempo é segredo/ o sonho perdido é espelho/ o alento de tudo é canção/ o fio do enredo é mentira/ a história do mundo é brinquedo/ o verso do samba é conselho/ e tudo o que eu disse é ilusão". (Paulinho da Viola)

16 de março de 2006



"Life is what happens to you
while you're busy making other plans."
(John Lennon)


Escritas da memória
Raquel Medeiros

Sabia que não devia ficar lembrando certas coisas. É tirar casca de ferida. É apertar o lugar da pancada. É colocar sapato apertado no pé calejado. É masoquismo intencional.
A cidadezinha onde cresceu não era muito habitada. Algumas casas pequenas; outras grandes. Casas amarelas, brancas e até azuis. Mais entre elas sempre havia uma árvore, um espaço por onde o vento passava. Por onde o vento passeava.
A menina cresceu e precisou sair de lá. Foi um choro, um sofrimento. Masoquismo necessário. Era hora de crescer, de amadurecer. Mas da mamória, o que não saía era aquele vento, a sensação de liberdade, de leveza e de vida em todas as direções.
Longe, fez o que tinha que fazer - conquistou coisas: trabalho, amor, sofrimento, amizades e desafetos.
Um dia sentiu tantas saudades, apertou tanto a ferida, que ficou sem ar. E o pulmão sufocado pediu pra voltar. Quando chegou na cidadezinha, não havia mais vento. As pessoas tinham construído casas tão altas que parecia que queriam morar no céu mesmo antes de morrer. Curioso é que também construíram um quadrado que as trazia de volta para o chão. Eram dezenas na mesma grande casa vertical, mas poucas delas se conheciam.
O masoquismo inevitável do progresso construiu uma barreira contra o vento. E a menina, agora mulher, precisou construir uma barreira contra a saudade, pra não morrer por falta de ar.

Sobremesa: "A gente vive a fazer anacolutos, pra que as metáforas não se desenvolvam e se transformem em bombardeios sem nenhum eufemismo". (Raquel Medeiros)

6 de fevereiro de 2006


Masks in Venice - Evgen Bavcar

How sexy is the silence?
Raquel Medeiros

A primeira vez que o vi foi num desses bares de luz pouca, com meninas de minissaia sentadas em máquinas de pinball quebradas. Som alto e ruidoso.
Dei três voltas, tomei quatro doses de tequila, dei três espirros e sentei aliviada e corajosamente na mesa em que ele estava. Sem dizer nada, levei um cigarro à boca e ele acendeu, sem hesitação.
Mal dei o último trago e ele me puxa para o centro do bar. Dançamos. Sem pisões no pé. Sem calos. Sem uma única palavra. E eu que sempre fui oxítona de má fé, me senti à vontade naqueles braços. Gargalhei e encarei-o. Sem ensaios.
Encaixe perfeito de lábios, de línguas. De trato e de tato. De olfato e paladar. Algumas voltas e eu não enxergava mais ninguém. Não ouvia nada além da música. E antes que minhas pernas cansassem, estávamos deitados em lençóis que eu não conhecia, mas reconhecia o cheiro neles. O meu e o dele. Não sabia seu nome, se tinha emprego ou não, nem mesmo se aquela era a sua cama, mas naqueles lençóis só haviam resquícios de nós dois.
Ele foi embora sem que eu soubesse se aquele silêncio duraria depois da música. Sem saber se nos apaixonamos.
Tantas outras vezes cruzei as portas daquele bar. As mesmas máquinas de pinball que nunca consertam. A mesma tequila barata. Mas não havia silêncio.
Dancei. O corpo movimentando-se conforme a música. Confome as regras do “estar só”. Conforme a dor. Fechei os olhos acreditando que tudo vai ficar bem. Que vou conseguir dançar outras músicas. “São dois pra lá. Dois pra cá.”

Sobremesa: "Mas é carnaval, não me diga mais quem é você/ amanhã tudo volta ao normal/ deixa a festa acabar, deixa o barco correr/ deixa o dia raiar que hoje eu sou da maneira que você me quer/ o que você pedir eu lhe dou, seja você quem for/
seja o que Deus quiser". (Chico Buarque)

20 de janeiro de 2006


"Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo"
(Vinícius de Moraes)


* Parceria de letras e de vida. De prosa e de poesia. Somos "Rodrigueanas".

Na companhia da luz
Tyara Veriato

Ela estava ocupada em esperar, por isso passou o dia alimentando a ansiedade com pequenos indícios, que iam do toque do telefone, passando pelos os sons vindos da esquina, até a imaginação de como seria a chegada. Acomodou-se na calçada pra ver o carro chegar, depois viu que a melhor estratégia era esperar no pé do portão, com a causalidade de quem acabou de sair. Gostava de provocar encontros furtivos, eram acasos friamente planejados. "Já que o destino não faz, faço eu", a lógica era essa. Às vezes entrava, tomava um copo d'água, olhava para o relógio e dava uma volta na casa, sempre atenta a qualquer barulho. Quando ouvia, saía desembestada, parava a um metro do portão e desfilava calmamente em direção à rua. Foi um dia de pupilas dilatadas e reflexos aguçados. Quando o sol se pôs, estava exausta, mas não desistiu da espera, passou a observar da varanda os faróis dos carros, afinal, na noite as surpresas vêm na companhia da luz.

Sobremesa: "Vou colocar batom vermelho escrevendo "desejo" nos lábios/ sapatos altos calçados lentamente entre uma tragada e outra/ vou arrumar a casa/ enfeitar com flores e fazer um delicioso jantar/ vou colocar gotas de perfume enquanto penso em dedos a acompanhar essas gotas que percorrem o arrepio da pele/ vou acender outro cigarro e caminhar em direção ao portão/ vestido justo colado ao corpo/ espera injusta colada à alma." (Raquel Medeiros)

17 de janeiro de 2006


Let's play together

Rayuela (trecho)
Julio Cortázar

O jogo da amarelinha joga-se com uma pequena pedra que é preciso empurrar com a ponta do sapato. Ingredientes: uma calçada, uma pedrinha, um sapato e um belo desenho feito com giz, preferivelmente colorido. No alto, fica o Céu, em baixo a Terra, é muito difícil chegar com a pedrinha ao Céu, quase sempre se calcula mal e a pedra sai do desenho.
Pouco a pouco, porém, vai-se adquirindo a habilidade necessária para salvar as diferentes casinhas (caracol, retângulo, fantasia, esta pouco usada) e um dia se aprende a sair da Terra e levar a pedrinha até o Céu, até entrar no Céu (...) o pior é que, justamente nesse momento, quando ainda quase ninguém aprendeu a levar a pedra até o Céu, a infância acaba de repente e se chega nos romances, na angústia do divino foguete, na especulação do outro Céu ao qual também é necessário aprender a chegar. E, por se ter saído da infância (...) esquece-se que, para alcançar o Céu, é preciso ter como ingredientes, uma pedrinha e a ponta do sapato.

Sobremesa: Maria tinha uma pedra, um sapato e um caminho/ no meio do caminho, a pedra entrou no sapato/ e Maria nunca alcançou o Céu". (Raquel Medeiros)

6 de janeiro de 2006




"Sem você sou pá furada."
(Rodrigo Amarante)

Sem sinal de fumaça
Raquel Medeiros

Noite insone, como de costume. Na mesa, um maço de cigarros. Vazio. Sinto vontade de fumar e me culpo por isso. O dia não foi bom. Ensolarado por fora. Nublado por dentro. Uma vontade de deixar tudo pra trás. De me deixar pra trás. De não saber quem sou. Por isso desejo um cigarro. Não consigo levantar nem pra contar os trocados para um maço. A que horas você volta? Não quero jantar sozinha de novo. Não quero ver Before Sunrise sozinha pela quinta vez e ficar com saudades dos nossos diálogos. Não quero adormecer no sofá e acordar sozinha, nessa espera vã. Não quero levantar e ter que encarar os outros e a mim mesma. Não quero enfrentar a rotina sozinha. Não consigo. E aquelas nuvens de chuva resolveram se espremer sobre os meus olhos. Mas apesar da dor, do choro e desse imenso vazio, só te peço que quando voltares traga-me um maço de cigarros.

Sobremesa: "O inverno aqui durou muito tempo/ não sei precisar, mas tive crises de choro fantasiadas de resfriados contínuos/ foi uma pneumonia branda/ Eu suo frio só de pensar em injeção/ mas todos os dias me forçava a tomar uma dose cavalar de ânimo pra enfrentar a vida". (Raquel Medeiros)

30 de dezembro de 2005



"Luiza e Tomé", por Henri Cartier Bresson


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Sebastian

Através de um código, Luiza e Tomé sabiam exatamente a hora do encontro. Era sempre numa casinha afastada de onde trabalhavam. Era um casinha simples, de poucos quartos. Tão obstinados que eram, alugaram a casa e reformaram. Ninguém sabia. Só Luiza e Tomé. Colocaram uma cama e um som para satisfazer o lado bom da vida. Luiza fez questão de haver uma cozinha funcional. Tomé exigiu uma pequena adega. Na verdade, não se conteram. Pintavam uma parede, compravam um cd. Compravam uma planta, tiravam fotos e penduravam nas paredes. Ali era como a casa de árvore que toda criança sonha em ter. Um lugar secreto, só deles. E era tudo como sempre sonharam. Mas faziam sem perceber. Pintaram a parede do quarto de leitura de verde. Compraram estante, livros, poltrona, luminária. Panelas, garfos, facas, temperos, geladeira, fogão, bebedouro e até quatro lixeiros (o Tomé é desses preocupados com reciclagem). Compraram guarda-roupas, roupas, lençóis, edredons, algemas, lenços e mais lenços e um cabide lindo. Uma mesinha de madeira, jogos, abajus, pufes, televisão e um pequeno dvd. Depois de uns meses compraram um berço e pararam um de frente para o outro. "Onde estamos?", perguntou Luiza. "De vida feita", respondeu calmamente o Tomé. Luiza deu um sorriso maroto e alisou a barriga.

Sobremesa: "Quando passamos um pelo outro/ tu me dás o prazer de teus olhos, do seu rosto, da tua carne/ e eu te retribuo com o prazer do meu peito, das minhas mãos, da minha barba". (Walt Whitman)

26 de dezembro de 2005





















Madonna - Kenneth Andersson

* À mulher mais admirável que eu conheço. Da Paz no nome, e na alma.

Paz
Raquel Medeiros

Sonha. Alimenta. Gera. Cria. Trabalha. Acalenta. Constrói. Cuida. Sente. Pensa. Ri. Chora. Insiste. Enfeita. Encanta. Luta. Vence. Verbos traduzidos por um substantivo único. Feminino e singular. Mãe.

Sobremesa: "Moça, olha só o que eu te escrevi/ é preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê". (Los Hermanos)

15 de dezembro de 2005

Elliot's attraction to all things uncertain
(Joe Sorren)

Classificados
Raquel Medeiros

Compro um ano novo, 2006, com muitas portas e janelas. Com ar quente na nuca e ar frio na rua. Travas elétricas para palavras que não devem ser ditas e tapas que não devem ser dados. Alarme para os inimigos. Air bag para o perigo dos maus pensamentos. Tração nos braços e pernas para sair das situações difíceis. Bancos sem encosto e sem mau-olhado. Cintos de segurança para os dias turbulentos e teto solar para espantar o mofo da alma. Direção variável e chave de ignição codificada para o coração. Pago à vista pra receber em 12 prazerosos meses. Tratar com a proprietária deste vale.

Sobremesa: "Esperando a festa, esperando a sorte, esperando a morte, esperando o Norte/ esperando o dia de esperar ninguém, esperando enfim, nada mais além da esperança aflita, bendita e infinita do apito de um trem". (Chico Buarque)

26 de novembro de 2005




















Júlio Cortazar e um de seus gatos.

Rayuela - trecho (capítulo 5)
Júlio Cortázar

Essa vez, e só essa vez, excitado como um matador mítico para quem matar é devolver o touro ao mar e o mar ao céu, maltratou a Maga numa longa noite da qual pouco falariam mais tarde, fez dela Pasífae, dobrou-a e usou-a como a uma adolescente, conheceu-a e exigiu-lhe as servidões da mais triste puta, magnificou-a em constelação, teve-a entre os braços cheirando a sangue, fê-la beber o sêmen que corre pela boca como um desafio ao Logos, chupou-lhe a sombra do ventre e do sexo, erguendo-a depois até o seu rosto, para untá-la de si mesma, numa ótima operação de conhecimento que só o homem pode dar à mulher, exasperou-a com pele e pêlo e baba e queixumes, esvaziou-a até o máximo da sua magnífica força, lançou-a contra um travesseiro e um lençol e sentiu-a chorar de felicidade contra seu rosto, que um novo cigarro devolvia à noite do quarto e do hotel.

Sobremesa: "Nem tudo estava perdido/ que dos dois dependia tentar um encontro legítimo/ agora ela conhecia as regras do jogo/ talvez nos fossem favoráveis dado que não faríamos outra coisa senão nos procurar." (Júlio Cortázar)

19 de novembro de 2005




















Sphere port - MC Escher

Regulamento
Raquel Medeiros

No meu andamento
Passo lento
No rosto, o vento
No corpo, o tempo.

No meu comprimento
Corte e caimento
Fora, passatempo
Dentro, pensamento.

No meu centro
Eterno confrontamento
De um lado, intenso
De outro, isento.

No meu comportamento
Justo dicernimento
Aos amigos, reconhecimento
Aos inimigos, esquecimento.

No meu sentimento
O coração oriento
À dor, esmagamento
Ao amor, comprometimento.

No meu julgamento
Rimas argumento
Acerto, com intento
Erro, sem lamento.

No meu falecimento
Perfeito acabamento
Aos segredos, convento
Aos desejos, cumprimento.

No meu regulamento
Regras invento
Atenuo o envelhecimento
Acentuo o renascimento.

Sobremesa: "Eu vim com pão, azeite e aço/ Me deram vinho, apreço, abraço/ o sal eu mesmo faço." (Millôr Fernandes)

2 de novembro de 2005




















"Para a mesa que vai ser posta,
para você o que você gosta: diariamente."
(Marisa Monte e Nando Reis)


* Outdoor da Calvin Klein. Foto por Steven Klein.

As marcas do amor
Raquel Medeiros

Coca-cola de segunda à sexta. Uma taça de Merlot no sábado à noite, antes do prato principal, naquele restaurante italiano. Mais tarde, uma cama comprada na Tok&Stok, com lençóis de seda para beijos altos e tato apurado. Chet Baker no nosso Phillips. Domingo de manhã, maçãs e morangos comprados num pequeno supermercado perto de casa. À tarde, ver um filme no nosso Sony. Preguiça. Gula. Cobiça. Luxúria.

Um machucado no peito. Merthiolate spray na ferida. Já vem com sopro. Não dói, mas também não sara. Não pára. Não cala. Palavrões retirados de um texto de Millôr, devidamente cuspidos no rosto protegido com Sundown 15 FPS. Protege do sol, mas não protege do incêndio.

Tristeza e decepção afogadas em garrafas de Johnnie Walker Red e um maço do novo Free. Agora free. Agora só. Nenhuma mensagem. Nenhuma chamada não atendida no Siemens MC 60. Portishead ao vivo em Roseland. Tragos entre agudos e graves. Saudade aguda. Tristeza grave. A solidão do gato de um livro de Cortázar. Corta os pulsos com Gillette cega. Esgota-se como um conta-gotas. Não morre. Estanca o sangue com um coagulante da Roche. Estanca a vida, mas não estanca a dor. Adormece com dois comprimidos de Neozine. Acorda depois de três dias, calça um par de Havaianas, porque depois de tanto cinza, fez um dia de sol.

Sobremesa: "Para brincar na gangorra: dois". (Marisa Monte e Nando Reis)

25 de outubro de 2005














Audrey Tautou e Mathieu Kassovitz em

Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain

Taquicardia
Raquel Medeiros

Se é dia, espero
Se é noite, exaspero.

Pernas que vacilam
Tez que enrubesce
Esse desejo sempre cresce
Nas minhas mãos
Que oscilam.

Se é dia, espero
Se é noite, exaspero.

Que o amor não me cegue
Mas me cerre os olhos
E quando a noite
Pintar o céu de negro esmalte
Que o amor me agarre
E não me solte.

Se é dia, espero
Se é noite, exaspero.

Que a mão que afaga
Me apedreje
Em dias masoquistas
E que despeje em minha pele
Todas as suas
Vorazes carícias.

Se é dia, espero
Se é noite, exaspero.

Que não seja prisão
Que não seja missão
Que não seja obrigação
Que seja sina
Que seja rima
No íntimo coração

Se é dia, espero
Se é noite exaspero.

Que seja viril
Que seja charmoso
Como música no vinil
E que por hora temeroso
Jamais seja vil.

Se é dia, espero
Se é noite, exaspero.

Que me acalente
Que me tente
Sereno na dor
Ardência,
Me livre de qualquer amor
Que não seja febril.

Se é dia, espero
Se é noite, exaspero.

Que nem sempre seja alinhado
Que haja aqui e ali
Uma bifurcação na estrada
E que seja o sujeito nunca indeterminado
Da minha ação mais desejada.

Se é dia, espero
Se é noite exaspero.

Sobremesa: "We were talking.../ about the space between us all/ and the people/ who hide themselves behind a wall of illusion/ never glimpse the truth/ when it's far too late... when they pass away.../ We were talking about the love/ we all could share/ when we find it.../ to try our best to hold it there (with our love)/ with our love we could save the world/ if they only knew..." (The Beatles)

16 de setembro de 2005























"Para um substantivo pobre
Só um predicativo nobre
Aufere graça ou ilusão."
(Julliana Veloso)


Looser
(Raquel Medeiros)

Quem perde a asa
E ainda quer ser passarinho
Não merece um ninho
No quintal da minha casa.

Quem perde o respeito
E ainda quer ser amado
Não merece afago
Nem lugar no meu peito.

Quem perde a passagem
E ainda quer ser visita
Não merece a vista
No percurso da viagem.

Quem perde a esperança
E ainda quer ser lembrado
Não merece ser retrato
Na minha lembrança.

Quem perde o trato
E ainda quer ser enfeitado
Não merece cuidado
Nem delicadeza do meu tato.

Quem perde a razão
E ainda quer ser alcançado
Não merece ser amparado
No momento do furacão.

Quem perde a qualidade
E ainda quer aquisição
Não merece renovação
No prazo de validade.

Quem perde o essencial
E ainda quer ser o foco
Não merece lugar no bloco
Do meu carnaval.

Quem perde a garantia
E ainda quer ser sina
Não merece doçura da minha rima
Só merece o desprezo da minha poesia.

Sobremesa: "Tem sempre o dia em que a casa cai/ pois vai curtir seu deserto vai/ mas deixa a lâmpada acesa/ se algum dia a tristeza quiser entrar/ e uma bebida por perto/ porque você pode estar certo que vai chorar." (Vinicius de Moraes e Toquinho)

6 de setembro de 2005













"I'm so tired of playing
playing with this bow and arrow" (Portishead)

* Na foto, Beth Gibbons.

Naquele bar
Raquel Medeiros

Encontraria o amor naquele bar? Putas disputavam com travestis a atenção dos poucos homens que estavam lá. Desses poucos alguns não viam água e sabão há pelo menos três dias. Mas o que importava? Ela não queria casamento, nem filhos, nem casa hipotecada. Queria amor. E amor não precisa de cerimônias.
Era um bar deprimente. Luz pouca, balcão sujo, e uma velha máquina no canto tocando alguma coisa do Roberto. Uma música antiga, e pra ela, desconhecida.
Ela não era lá de se jogar fora. Um vestido vermelho, sedutor até certo ponto. Já gasto, já largo para o pouco corpo. Pernas finas cambaleavam num salto. O movimento desajeitado lhe emprestava algum charme, parecia elegante caminhar como se estivesse numa corda bamba.

Num canto do bar, um senhor calvo, magro. Boa aparência, barba feita. Bebia tequila e fumava um cigarro de menta. Era o que se podia chamar de uma pessoa sem rótulos. Não que isso fosse essencialmente bom. É como um vinho que você não sabe a procedência, e conseqüentemente não sabe se o tempo o fez ficar mais saboroso ou com gosto de vinagre.
Depois de algumas doses, ele chorava e falava de ter tido poucas mulheres, que lhe dedicavam palavras indecentes à noite e pela manhã sua carteira tinha algumas notas a menos, alguns objetos a menos no seu apartamento já tão vazio. Seu peito com um vazio a mais. Ele não queria casamento, nem filhos, nem cheiro de lavanda nos lençóis.Queria amor. E amor não precisa de grandes provas.

“Tem uns quartos ali atrás. Bem baratos e razoavelmente limpos”. Ela foi.Uma cama.Um ventilador barulhento. Uma luz amarelada. Tiraram os sapatos e deitaram. Um ao lado do outro. Ela olhava para o ventilador e pensava quantas voltas ainda teria que dar até que algo mudasse. Em seguida, deu um longo suspiro. Estava cansada das tantas noites que terminavam num quarto atrás de um bar. Mas ali, ao lado do homem sem rótulos, ela se sentia bem. Havia alguma mágica entre eles. Não eram duas pessoas que amenizavam a solidão um do outro. Era uma solidão conjunta, ainda assim grande, mas parecia melhor do que estar completamente só. Talvez fosse o amor. E amor precisa de cumplicidade.

Sobremesa: "Nobody loves me/ it's true/ not like you do" (Portishead)

1 de setembro de 2005














The second life of Samuel Tyne - Matt Murphy

De um gole só
Raquel Medeiros

Ele levanta e vai ao bar
Lá discute o futebol
A crise instalada
A reforma no banheiro
Tantas vezes adiada.

Ele trabalha e vai ao bar
Lá bebe a cachaça
Mas nada é de graça
Pelo menos o dinheiro da pinga
Ele precisa ganhar.

Quando volta do bar
Equilibrista nato
Eu já estou tão farta
Que quase enfarto
Só de vê-lo chegar.

Pede que lhe sirva o jantar
Eu cá nas minhas preces
“O que fiz pra merecer essa vida?”
E ponho mais um pouco de comida
No prato que depois vou lavar.

Sobremesa: “Quando a noite enfim lhe cansa/ você vem feito criança/ pra chorar o meu perdão/ qual o quê/ diz pra eu não ficar sentida/ diz que vai mudar de vida/ pra agradar meu coração/ E ao lhe ver assim cansado/ maltrapilho emaltratado/ como vou me aborrecer/ qual o quê/ logo vou esquentar seu prato/dou um beijo em seu retrato/ e abro os meus braços pra você”. (Chico Buarque)

27 de agosto de 2005















Ilustração de Mark Riden

Out of season
Raquel Medeiros

“And many rains turn to rivers
Winter’s here
And there ain’t nothing gonna change”

Doses cavalares de coragem pra levantar da cama mais trinta e cinco minutos de resistência e a dor de mais um dia começa a diminuir. Um pé na frente do outro pra qualquer lugar, que até para o precipício é preciso dar o primeiro passo.
Nas ruas, as pessoas estão sempre indo, vindo, chegando, saindo, esperando. Espera passar a chuva pra sair de casa. Espera o ônibus. Espera que a fome chegue ao meio-dia, e que o cansaço vá embora às duas da tarde. Espera que à noite haja algo melhor do que essa espera, algo que compense esse eterno ir e vir. Pode ser amor, ilusão, embriaguez, análise.
À noite, as ruas se enchem de olhares aflitos, de olhos famintos, de cigarros solitários, de corações remendados. Todas essas pessoas com um vazio que tem a audácia de querer ser preenchido. Um vazio personificado como uma divindade.

“Everybody knows this time
shadows are drifting in silence
where lost can’t be found
everybody knows this time.”

É frio que fogueira nenhuma aquece. É insônia que remédio nenhum resolve. Essa velha saudade que vem desde o dia que se descobre que veio do ventre da mãe e que não pode mais voltar pra lá. Esse choro. Essa água de lágrima onde peixe nenhum consegue nadar, pois peixes não nadam em cachoeiras.

Sobremesa: "Que seja agosto/ ao meu mais fiel gosto/ sem receio de ser exposto/ posto e deposto/ e mesmo no desgosto/ seja sempre ao meu fiel gosto." (Raquel Medeiros)

* As músicas são, respectivamente, "Funny Time Of Year" e "Sand River", da Beth Gibbons.

18 de agosto de 2005

Michelle Pfeiffer e John Malkovich no filme
Ligações Perigosas.

It’s a fire
Raquel Medeiros

Passou a língua na nuca dele como se estivesse lambendo uma gota de sorvete que escorreu pela casquinha. Delicioso aquele pescoço. Visão do paraíso com o ardor do inferno. Quarenta graus na sombra.
Música no vinil. Os estalos do disco encobriam os beijos altos. Festim de palavras indecentes, ditas em tons agudos e graves. Melodia ascendente de gemidos e sussurros.
Falta de senso. Incenso. Incêndio.
Ela derretia com o toque dele como uma pintura de Dali. Goya. Glória.
Líquida e salgada, provocava ainda mais sede. E ele a bebia como um vinho de boa procedência, guardado na melhor adega, para a ocasião perfeita.
Lutam como se o prazer do outro fosse um território a ser explorado à exaustão. Investigação com indicações óbvias. Sêmen. Suor. Saliva. Sorriso.
Embriagados. Extasiados, se aninham nos braços um do outro. Descansam. Olhos nos olhos. Insones. Insanos. O desejo não cessa. Recomeça a música. Provocaram rimas. Gozaram versos. E quando o sol já aplicava tons claros no esmalte preto da noite, eles tinham incontáveis poesias desvairadas. Incansáveis odes proclamadas. Inspiração e ansiedade na espera de mais uma madrugada.

Sobremesa: "Eu faço samba e amor até mais tarde/ e tenho muito sono de manhã." (Chico Buarque)

28 de julho de 2005


"É que eu já sei de cor qual o quê dos quais e poréns,
dos afins, pense bem ou não pense assim." (Rodrigo Amarante)

Música pop sem refrão
Raquel Medeiros

Sapatos apertados para dança
Calos e estalos em aliança
Solo em desesperança
Entrar no ritmo às vezes cansa

Faca na garganta
Sangue que nunca estanca
Palidez que avança
Morrer às vezes cansa

Minha obra completa
É uma poesia incerta
Na trajetória nem sempre reta
A postura nem sempre é ereta.

Mas vamos aos fatos
Esse texto fraco
Só reflete
A minha falta de tato
Pra jogar fora
A pedra no sapato.

Sobremesa: "Life is what happens to you while you're busy making other plans." (John Lennon)

18 de julho de 2005

* Não consegui postar imagens. nem textos meus. Vai um trecho de Rayuela, de Júlio Cortázar.

Por que nos enganaríamos um ao outro? Não é possível viver ao lado de um saltimbanco das sombras, de um domador de cupins. Não é possível aceitar um cara que passa o dia desenhando com os anéis furta-cores feitos pelo óleo nas águas do Sena. Eu, com os meus cadeados e as minhas chaves de ar, eu, que escrevo com fumaça. Vou lhe poupar a resposta, pois vejo-a chegar: não há substâncias mais letais do que as que se metem por qualquer lugar, que se respiram sem saber, nas palavras, no amor ou na amizade. Já é tempo de me deixarem sozinho, só e sozinho.

Sobremesa: "Já conheço os passos dessa estrada/ sei que não vai dar em nada." (Chico Buarque)

8 de julho de 2005


É preciso mudar a água da banheira
pra não ver só sujeira na hora de mergulhar.

Mudar é preciso
Raquel Medeiros

É preciso mudar
As coisas na sala
O choro da alma
No tom da fala.

É preciso mudar
O medo do risco
E do cisco
No olho do vício.

É preciso mudar
A cara sem cor
A pancada da dor
Na queda do amor.

É preciso mudar
A apatia insistente
A melancolia latente
Da poesia insuficiente.

É preciso mudar
O enredo
De ver-se o mesmo
No esforço a esmo.

É preciso mudar
A qualidade do olhar
E a vontade de sonhar
No ato de se dar.

É preciso mudar
O volume da voz
E a força dos nós
Na hora de ser “nós”.

Sobremesa: "Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:/ as ruas são ruas com gente e automóveis/ não há sereias a gritar pavores irreprimíveis/ e a miséria é a mesma miséria que já havia.../ e se tudo é igual aos dias antigos, apesar da Europa à nossa volta, exangüe e mártir/ eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente/ sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos/ sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta/ uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada..." (Adolfo Casais Monteiro)

6 de julho de 2005


"Disfarça e chora". (Cartola)

Lista De Preferências
Bertold Brecht

Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.

Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexequíveis.

Meninas, as veras.
Mulheres, insinceras.

Orgasmos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.

Domicílios, os passageiros.
Adeuses, os bem ligeiros.

Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.

Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.

Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.

Cores, o rubro.
Meses, outubro.

Elementos, os fogos.
Divindades, o logos.

Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.

Sobremesa: "Disfarça e chora/ todo pranto tem hora/ aproveita a voz do lamento/ que já vem a aurora." (Cartola)

27 de junho de 2005


A factory of cunning - Matt Murphy

Apoiando a língua nos dentes
Raquel Medeiros

Mãos atadas e olhos cegos
Não nego – ardo só de pensar.
As unhas que arranham a pele
A mordida que marca a carne
Que essa dor nunca me falte
E que o beijo sele mas nunca cale.
Impropérios, indecência
Mistério, imprudência
O carrasco do desejo
Nunca pede licença
Pra me executar.
Feliz condenada
Nem sempre comportada
Quando bem acompanhada.
Intensa devassidão
Ilimitada vastidão
Dor e luxúria
Variedade e fartura
Não peço a boca
Não meço a força
Onde a razão não tem espaço
E esse texto, um ínfimo pedaço
Da minha loucura.

Sobremesa: ... "E tente me expelir/ e ao me sentir ausente/ me busque novamente." (Vinicius de Moraes)

23 de junho de 2005


O bêbado, a equilibrista e seus filhotes.

O Bêbado e A Equilibrista
Na voz de Elis Regina

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos
A lua tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel
e nuvens lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas, que sufoco louco
O bêbado com chapéu coco fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil, meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu num rabo de foguete
Chora a nossa pátria mãe gentil
Choram marias e clarisses no solo do Brasil
Mas sei que uma dor assim pungente não há de ser inutilmente
a esperança dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
sabe que o show de todo artista, tem que continuar.

Sobremesa: "Sei, que o vento que entortou a flor/ passou também por nosso lar/ e foi você quem desviou/ com golpes de pincel." (Los Hermanos)

14 de junho de 2005


"'Cause I've been changing my mind" (The Cardigans)

Sintonia
Raquel Medeiros

91.5 mhz
Cícero chorava ao volante. “Já te dei meu corpo/ minha alegria/ já te dei meu sangue quando fervia”. A voz de Chico no rádio traduzia muito dele. A gota d’água que ouvia no carro, rolava sem precedentes pelo rosto de Cícero. Fim de relacionamento é sempre muito doloroso. No carro, alguns de seus pertences. No banco do lado, ao contrário de outros tempos, não estava ela. Só poucos livros. Os outros buscaria depois. Talvez.

104.3 mhz
“Hi/ how are you?/ I'm pretty fine”. Muda a estação. Essa não combina. Nunca foi muito adepto ao verão. Sol latente e toda a alegria dos veraneios na casa de amigos. The Cardigans lembrava o blah blah blah da estação de pouca roupa e muita irreverência. As caminhadas no fim de tarde. As havaianas sempre com um pouco de areia, eram banhadas no mar. E sujas de areia novamente. O relacionamento deles também era assim. A areia arranhava. Vinha uma onda de esperança, lavava a sujeira que voltava pouco depois.

87.5 mhz
O nariz já entupido sinalizava que o choro deveria cessar. Já não respirava tão bem. “Se eu ando assim tão triste/ tão cheio de langor/ é porque nada existe/ para mim sem meu amor.”
O Vinícius e sua habilidade em traduzir as pessoas. Só faltou a dedicatória:
- Essa música vai para o Cícero, que anda por aí como quem perdeu a cor. Carrega a mudança, mas esqueceu a esperança nas mãos do velho amor.

87.5 mhz
Pára. Põe gasolina no carro. Isso de viver, de amar, um dia precisa dar certo. Gira a chave. Coloca a primeira marcha. Sai. Velocidade pouca, que o recomeço é sempre mais lento. E no rádio, o Chico repete “Amanhã vai ser outro dia”.

Sobremesa: "O meu amor/ o meu amor, Maria/ é como um fio telegráfico da estrada/ aonde vêm pousar as andorinhas.../ (...)/ No entanto, Maria/ o meu amor é sempre o mesmo/ as andorinhas é que mudam." (Mário Quintana)

9 de junho de 2005


"Corre e diz a ela que eu entrego os pontos." (Chico Buarque)

*Na foto, Bruno Medina.
*Segue um texto velho que caiu da mudança.

No doce e pretenso desejo de sorver seus lábios
Raquel Medeiros

...ele sente sua presença. Ela se parece perfeitamente com a descrição feita nos jogos artificiais de uma nova tecnologia. Num segundo, os detalhes emergem daquela pálida e minúscula face que ali, a seus olhos, se desnuda. Músculo tenso em clara pele enrubesce. Ela está envolta em conversas e se mostra. Um torso branco de resplendor ímpar. À mostra um pescoço delgado e tenro delineia costas finas de nuanças impecáveis, findando em abstratas formas de ancas talhadas à perfeição.
Majestosa era aquela visão que o enchia de sudorese, afasia e mudez. O objeto de sua ânsia repousa num banco gélido da praça a eles tão afeita.
No Saara que os separava, ardia o sôfrego coração de homem feito – mascarado de imberbe – que, despojado dos desfarces, escondia-se do facho de luz emanado.

Rufam-se tambores – será que o coração dele anda no mesmo compasso? Ilegível aspecto de poesia mal feita, uma carta natimorta.

Empalidece. Seu rosto se confunde com os ladrilhos. Renuncia às idéias de se fazer presente e a ela se apresentar. Agora está só como nunca esteve e entreabre a porta da memória analisando amores que não vingaram. Que permanecem oclusos e emudecidos.
Ele ri. Ri de si mesmo. É um fingidor. Olhando para o lado de fora da sua sala, concebe a noção do sagrado e do profano naquela a quem ama. Rir-se, antes de tudo, da situação que se encontra, do medo generalizado de se mostrar – de ser quem o é.

O que os separava era uma tela. Na espinha dorsal da memória, ele não pudera dizer quase nada. Conservava a impressão de um dia dizer que já não mais se pertence.

A vontade que tinha de possuir, de ouvir seus gemidos, perpassava feito um turbilhão de protuberâncias e miasma desfarçados – crus – eminentes. Pornográficos. Humano. Ele a imaginava despida, em sua casa, desabotoando a saia, revelando o brilho voluptoso dos quadris.
Após o banho, a leva ainda molhada à cama, para ser enxuta num ventilador barulhento; ofuscação dos beijos altos à altura das coxas. Ergue-se o entumecido ventre; e a Vênus, do seu monte, o espia sequiosa. Põe os lábios no umbigo e a percorre sem restrições. Entremeia as pernas e sente a força calculada que imprime à cabeça. Diz-lhe impropérios, enquanto imprime sua marca, com os dentes, em cada mamilo dilatado. Suor, fluídos, esperma perfumam o ambiente, já impregnado de uma áurea mística, com um cheiro forte de um incenso.

As mãos dele são suaves – próprias para contornar seu corpo. E não escapa nada do alcance deste fauno propenso à bestialidade sem par, às carícias despudoradas e à exaustão dos prazeres da carne. E cometem-se todos os barbarismos, no ápice da paixão.
Ele a possui. Ela o retém. À noite, travam-se batalhas e o palco não é mais que o espaço exíguo do quarto. Varam a madrugada e extenuados sorriem, e dormem. Já é tarde e a hora é de despertar, diz ele. Resta-lhe, antes de mais nada, amá-la até o fim. A ela, reserva-se o segredo de ser enigmática, mesmo no gozo.

Sobremesa: "Há de fazer do corpo uma morada/ onde enclausure-se a mulher amada/ postar-se de fora como espada/ para viver um grande amor." (Vinicius de Moraes)

8 de junho de 2005


"Mandei a frase sonhar, e ela se foi num labirinto."
(Paulo Leminski)

Às palmas e às vaias
Raquel Medeiros

A maquiagem que não esconde.
Alguns vão entender cada linha. Outros não vão entender nada. Desses que não vão entender, é possível encontrar os que vão sugerir significados; outros não se darão esse trabalho. Passarão a página e que venha outro texto mais digerível.
Não há desejo aqui em ser a saliva que ajuda a digestão, muito menos a pedra no caminho dos rins. Aqui sou a palavra escrita. Por vezes cortada, noutras cortante. Há a falta de cuidado e por hora, algumas combinações que dão certo.

O picadeiro que não significa espetáculo.
Por opção, e por uma vontade ou doença incurável de não conseguir parar de escrever. A platéia é quem decide se aplaude ou se torce para que o leão fuja no meio do espetáculo. Se se encanta com o coelho que sai da cartola, ou contrata alguém pra cortar a corda bamba. Sem rede de segurança.

A ausência da lona que não dispensa a platéia.
Aqui não há intencão de ferir nem de curar. Sou alguns dos verbos e poucos adjetivos que residem neste vale. Admito a opção minha. Aceito a opinião alheia.
Mas por favor, quando eu tirar a maquiagem e estiver tentando – forçadamente – dormir, façam silêncio, pois já basta o pensamento me ensurdecendo. E não puxem o lençol. Faz muito frio aqui.

Sobremesa: "Que o leão nunca esteja enjaulado/ para que não haja a fuga/ e o público não saia afobado/ antes do fim/ que a alegria creditada ao palhaço/ ocupe o lugar do cansaço/ cansaço que não desprende de mim." (Raquel Medeiros)

6 de junho de 2005


Summer reading - Yuko Shimizu

Linhas
Raquel Medeiros

Linhas horizontais
Sinal de morte para os corações
Base onde pousam as palavras
Horizonte para os vagões.

Linhas verticais
Sinal de morte para os enforcados
Limite para as palavras
Alívio para os dias ensolarados.

No cruzamento
Eu brinco de jogo da velha
E cubro o teto de telha
Com a rapidez do vento.

E sem tormento
Espero a última interseção
Aquela onde repousará a minha mão
À cruz do meu pensamento.

Sobremesa: "Coisa dolorosa feita de barro e poeira/ o homem no seu quarto/ de noite/ pelejando pra escrever no papel/ com lápis/ nó e tropeço/ a dor do seu peito." (Adélia Prado)

2 de junho de 2005


Portrait of the devil & his fingers - Joe Sorren

Desculpem a ausência de textos meus. Mas é que o voyeurismo é tão demoníaco. =)

* Carta de Clarice Lispector a Fernando Sabino

Falta demônio nessa cidade
Clarice Lispector

Falta demônio em toda Suíça
Falta demônio em muitos lugares
Não falta no Brasil, e talvez seja esta a explicação para o encantamento que o país provoca em estrangeiros e nativos: é o feitiço da irreverência

Os Beatles tinham um demônio parcimonioso quando cantavam “she loves you ye ye ye” tornando-se mais famosos que Jesus Cristo. Só deixaram o demônio tomar conta em discos como “Sgt. Pepper’s”, “Álbum Branco” e “Abbey Road”, numa época em que Mick Jagger julgava-se o único representante de Lúcifer na terra. Há demônio no rock, em todas as bandas.

Há demônio no vinho, falta nos coquetéis
Há demônio no jeans, falta no linho
Há demônio nas fotos em preto e branco

Há demônio no cinema, não há na televisão
Há demônio em livros, não há em revistas

Há demônio em Picasso, Almodóvar, Wagner, Janis Joplin
Há demônio na chuva mais do que no sol
Há demônio no humor e na ironia, nenhum demônio no pastelão

Não há demônio em bichos e crianças
Espera aí! Volto atrás sobre as crianças
Em algumas há, mas somente nas muito especiais, as outras pensam que são espertas, mas são apenas mal-educadas

Na poesia há sempre demônio, na boa poesia!
Na poesia marginal
Na poesia de amor
Paixão é quando o demônio está nu
Sexo com quem ama é muito mais satânico, não precisa ser um amor pra sempre, pode ser um amor de repente, qualquer amor inferniza

Coca-cola tem mais demônio que Guaraná
A inteligência tem mais demônios que a simpatia
A vida tem mais demônio que a morte
Filosofia, psicanálise, beijo, aventura, silêncio
Um minuto de silêncio

O pensamento é o demo

O oriente tem
Manhattan tem
Berna não tem, como tudo que é neutro.

Sobremesa: "Há um estado de felicidade/ de não querer pensar nos momentos tristes/ que vão chegar/ é a influência do tempo/ assim como a felicidade/ o inverno chegou fingindo que vai ficar." (Raquel Medeiros)

30 de maio de 2005


"No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar." (Mário Quintana)

Terminal de passageiros
Fernando Bonassi

Eu tenho tanta saudade, mas tanta saudade de você, que poderia agarrar qualquer uma dessas perfumadas que me vão à frente em escadas rolantes. Roupas novíssimas pra despedidas. Encontros festivos. Passagens puídas de excitação por qualquer lugar diferente. Desaforos levados e trazidos a essa terra roxa e de fuso muito específico. Enquanto você estivesse aí viajando, alta demais pra mim, eu casaria com todas elas. Sem que me soubessem, daria a cada uma o seu carinho; sentiria em cada mordida o sabor de sua carne crua. Eu as sustentaria nos braços e nos bolsos; as amaria pra sempre e, quando você chegasse, fugiria de tudo. Me divorciaria do que poderia ser. Deixaria filhos pequenos, patrimônio hipotecado e alguma lembrança triste.

Sobremesa: "Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto/ esse eterno levantar-se depois de cada queda/ essa busca de equilíbrio no fio da navalha/ essa terrível coragem diante do grande medo/ e esse medo infantil de ter pequenas coragens." (Vinicius de Moraes)

23 de maio de 2005


In her silent way - Joe Sorren

Súplica da alma vazia
Raquel Medeiros

O corpo num silêncio de igreja vazia
O coração, o próprio Cristo-morto
E os bancos onde já sentaram
Homens de coração bom e de coração torto
São os braços que não reagem à apatia
Por força da dor
Que rejeita à razão o segredo da confissão.

Mas sim, há uma redenção!
No olhar, ainda vê-se a beleza dos vitrais
E aquela chama que sinaliza a presença
Mesmo na ausência
Consegue ver beleza nos ais.

Eu suplico
Aquele santo de olhar perdido
Não quero Pai-Nossos como castigo
Para ter o perdão
Quero é que enxergues o quanto estou aflito
E já que és perito
Dá-me logo a salvação!

Sobremesa: "Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir/ pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir/ pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair/ Deus lhe pague." (Chico Buarque)

20 de maio de 2005


Bells whistles - Yuko Shimizu

Embriaga-te
Charles Baudelaire

Deve- se estar sempre bêbado.
É a única questão.
A fim de não se sentir o fardo horrível do tempo,
que parte tuas espáduas e te dobra sobre a terra.
É preciso te embriagares sem trégua.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude?
A teu gosto, mas embriaga-te.
E se alguma vez sobre os degraus de um palácio,
sobre a verde relva de uma vala,
na sombria solidão de teu quarto,
tu te encontrares com a embriaguez já minorada ou finda,
peça ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo aquilo que gira, a tudo aquilo que voa,
a tudo aquilo que canta, a tudo aquilo que fala, a tudo aquilo que geme.
Pergunte que horas são.
E o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio, te responderão.
É hora de se embriagar !!!
Para não ser como os escravos martirizados pelo tempo, embriaga-te.
Embriaga-te sem cessar.
De vinho, de poesia ou de virtude.
A teu gosto.

Sobremesa: "De fato, o ódio é um licor precioso/ um veneno mais caro que os dos Borgia/ pois é feito de nosso sangue/ nossa saúde/ nosso sono/ e de dois terços de nosso amor!/ devemos ser avaros com ele!" (Conselho aos jovens literatos - Charles Baudelaire)

18 de maio de 2005


"Desconfia dos que não fumam.
O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar."
(Mário Quintana)

* Na foto, Rodrigo Amarante.
* É que a música que vou postar bem que podia ter sido composta por ele. Adoraria que ele a cantasse. Não deve ser à toa que eles gostam do Cake.

Where Would I Be?
Cake

I’ve been waiting for so long
I’ve been hoping your love’s not gone
Houses are sliding in the mud
Rivers are raging in your blood

Where would I be wihout your love?
Where would I be without your arms around me?

You were to be the only one
If I knew you I would not run
You have been cloudy, distant, dark
I’m thinking of noah and the ark

Where would I be without your love?
Where would I be without your arms around me?

Sobremesa: "Quem é mais sentimental que eu?!/ eu disse e nem assim se pôde evitar." (Rodrigo Amarante)

17 de maio de 2005


Monkey photographer - Nicholas Gurewitch

Como adestrar seres humanos
Raquel Medeiros

Feliciano era um belo canário. Vivia com a mulher, mas não tinham filhotes.
Um dia, Feliciano resolveu criar seres humanos. Só pra passar o tempo mesmo.
Construiu no quintal uma bela sala com tudo que os humanos precisariam pra viver – um sofá grande e confortável, tv a cabo, uma geladeira repleta de comida congelada, um forno microondas e um banheiro.
Eram cinco pessoas. Não havia muita discussão, a não ser quando o assunto era a posse do controle remoto.
A mulher de Feliciano sentia uma certa pena em deixar aquelas criaturas ali presas. E certo dia tentou convenver o marido a soltá-los. Mas ele argumentava, dizia que eles não saberiam lidar com o mundo lá fora, se virar sozinhos. Ela, em contrapartida, dizia que o lugar deles era no mundo, conhecendo lugares e outros seres humanos, criando e melhorando as coisas lá fora.
Feliciano foi convencido pela esposa. Deixou a porta da sala aberta, e para sua surpresa, ninguém saiu. Estavam todos comprimidos no sofá, olhos atentos ao último capítulo da novela.

Sobremesa: "E agora, José?" (Carlos Drummond de Andrade)

16 de maio de 2005


"Rain down/ rain down/ come on, rain down on me". (Radiohead)

Listen, the rain is falling
Raquel Medeiros

Esse estágio de auto-conhecimento é sempre muito complicado. Doloroso. Às vezes falta esperança de que isso realmente passe. Porque essa história de “essas coisas ruins que estão acontecendo com você vão te fazer crescer, vão te fazer bem” de vez em quando soa muito como conversa de perdedor. E eu tenho perdido muito. O sonho e o sono. Tenho 2 centímetros de olheiras e tenho sido implacável com os outros e ainda mais, comigo mesma.
Dizem que a tristeza é companheira dos bons escritores, que com ela o tiro é certeiro no coração dos outros. Concordo com os outros. Discordo comigo. Primeiro porque me falta o talento de ver a tristeza como inspiração e não como carrasco. Segundo porque trocaria essa tristeza que “escreve belos textos” por felicidade.
Hoje quero a felicidade medíocre de comprar pão no domingo, na padaria da esquina. Se é que alguém consegue ser realmente feliz no domingo...

Sobremesa: "Essas tentativas de inverno/ melhoram o humor/ o que mata é esse gosto de guarda-chuva que não sai da boca/ é esse gosto de 'auto-desamor'." (Raquel Medeiros)

12 de maio de 2005


"Para que apaguem-se bruscos as marcas do meu sofrer" (Ana Cristina Cesar)

Do it yourself
Raquel Medeiros

Deitada, alma e olhar tristes. Nicole sentia-se incompetente. Nem morrer conseguia.
Um dia comprou um desses manuais para suicidas. Das opções oferecidas as únicas que lhe atraiam era cortar os pulsos, e tomar uma quantidade imensurável de remédios.

Um domingo qualquer.
Nicole decidiu que cortaria os pulsos. Tão dramático todo aquele sangue sujando o banheiro. Era clichê, ela também achava. Mas estaria morta, o que importaria depois?
Pegou a gilete, olhou o manual pra ter certeza de que faria o corte da maneira certa, mas olhou para os seus pulsos e parecia que as veias haviam fugido. A pele pálida e fria que até parecia morta. Todo o sangue passava longe dali. Perdeu a vontade. Desistiu.

Um outro domingo qualquer.
Nicole resolveu que dessa vez seria com remédios. Não falharia. Nada de pulsos pálidos. Não precisaria de sangue. Achava que esse tipo de suicídio tinha o seu glamour. O corpo caído com o melhor vestido. Os vidros de remédios vazios, um deles solto da mão, num braço esticado. Morto.
Foi até o banheiro. Não havia criatividade na escolha do lugar, é verdade. Mas e daí? Há alguma originalidade em se morrer dormindo? E mesmo assim tanta gente não deseja morrer assim?
Olhou-se no espelho e achou aquele rosto pouco familiar. Parecia outra pessoa. Não era a Nicole de antes. Parecia desfigurada. Desistiu. Suicídio tudo bem, mas daí a virar assassina era outra história. Passou o dia vendo fotos antigas, tentando reconhecer aquela que vira no espelho.

Deitada, alma e olhar tristes. Nicole não sabia. Mas estes já eram sinais de morte.

Sobremesa: "Quando eu morrer/ anjos meus/ fazei-me desaparecer/ sumir/ evaporar/ desta terra louca/ (...)/ para que eu não fique exposto/ em algum necrotério branco/ para que não me cortem o ventre/ com propósitos autopsianos." (Ana Cristina Cesar)

5 de maio de 2005


ssshhhhhh...

Agora falando sério
Preferia não falar
Nada que distraísse
O sono difícil
Como acalanto
Eu quero fazer silêncio
Um silêncio tão doente
Do vizinho reclamar.

(Chico Buarque)

Sobremesa: ssshhhhhh...

3 de maio de 2005


I can't take my eyes off of you...

Rascunho de carta. Rascunho de vida
Raquel Medeiros

Sebastian,

Essa é mais uma carta que te escrevo. Já foram tantas... todas sem resposta.
Faz frio aqui. Gela o seio e o anseio. Não é falta de ter alguém. É a sua falta. O jeito com o qual se despedia e subia na motocicleta. Colocava o capacete bem devagar e soltava um sorriso safado. Eu adorava isso... Adorava o demônio que existe em você – me tentava, me desorientava...
O cigarro acabou. O café tá amargo. A vitrola quebrou. Tudo desandou depois que você se foi. Eu desaprendi a cuidar de mim. Eu desaprendi a olhar pra mim. No espelho só vejo as marcas que você deixou no meu corpo, nos meus olhos, na minha alma.
Era pra ser pra sempre.
E eu, que sempre fui amante dos verbos, tive que me acostumar a ser mais substantivo – saudade, solidão, tristeza.
Caso você leia esta carta, saiba que estou mudando. E se você voltar, procura um quarto verde. E se eu não estiver, pode ficar à vontade. E aqui registro a vontade de te ver voltar.

Com saudades,
Claire.

Sobremesa: "So if it's true/ that love will never die/ then why do the lovers work so hard/ to stay alive?" (The Cardigans)

2 de maio de 2005


Saudades das cores de Almodóvar...

À palo seco
Belchior

Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava
De olhos abertos lhe direi
Amigo eu me desesperava
Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76
Eu ando um pouco descontente
Desesperadamente eu canto em português.

Tenho 25 anos de sonho e de sangue
E de América do Sul
Mas por força do meu destino
Um tango argentino
Me cai bem melhor que o blues
Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76
Eu quero é que esse canto torto feito faca
Corte a carne de vocês.

Sobremesa: "Se alguém por mim perguntar/ diga que eu só vou voltar/ quando me encontrar." (Cartola)