9 de junho de 2005


"Corre e diz a ela que eu entrego os pontos." (Chico Buarque)

*Na foto, Bruno Medina.
*Segue um texto velho que caiu da mudança.

No doce e pretenso desejo de sorver seus lábios
Raquel Medeiros

...ele sente sua presença. Ela se parece perfeitamente com a descrição feita nos jogos artificiais de uma nova tecnologia. Num segundo, os detalhes emergem daquela pálida e minúscula face que ali, a seus olhos, se desnuda. Músculo tenso em clara pele enrubesce. Ela está envolta em conversas e se mostra. Um torso branco de resplendor ímpar. À mostra um pescoço delgado e tenro delineia costas finas de nuanças impecáveis, findando em abstratas formas de ancas talhadas à perfeição.
Majestosa era aquela visão que o enchia de sudorese, afasia e mudez. O objeto de sua ânsia repousa num banco gélido da praça a eles tão afeita.
No Saara que os separava, ardia o sôfrego coração de homem feito – mascarado de imberbe – que, despojado dos desfarces, escondia-se do facho de luz emanado.

Rufam-se tambores – será que o coração dele anda no mesmo compasso? Ilegível aspecto de poesia mal feita, uma carta natimorta.

Empalidece. Seu rosto se confunde com os ladrilhos. Renuncia às idéias de se fazer presente e a ela se apresentar. Agora está só como nunca esteve e entreabre a porta da memória analisando amores que não vingaram. Que permanecem oclusos e emudecidos.
Ele ri. Ri de si mesmo. É um fingidor. Olhando para o lado de fora da sua sala, concebe a noção do sagrado e do profano naquela a quem ama. Rir-se, antes de tudo, da situação que se encontra, do medo generalizado de se mostrar – de ser quem o é.

O que os separava era uma tela. Na espinha dorsal da memória, ele não pudera dizer quase nada. Conservava a impressão de um dia dizer que já não mais se pertence.

A vontade que tinha de possuir, de ouvir seus gemidos, perpassava feito um turbilhão de protuberâncias e miasma desfarçados – crus – eminentes. Pornográficos. Humano. Ele a imaginava despida, em sua casa, desabotoando a saia, revelando o brilho voluptoso dos quadris.
Após o banho, a leva ainda molhada à cama, para ser enxuta num ventilador barulhento; ofuscação dos beijos altos à altura das coxas. Ergue-se o entumecido ventre; e a Vênus, do seu monte, o espia sequiosa. Põe os lábios no umbigo e a percorre sem restrições. Entremeia as pernas e sente a força calculada que imprime à cabeça. Diz-lhe impropérios, enquanto imprime sua marca, com os dentes, em cada mamilo dilatado. Suor, fluídos, esperma perfumam o ambiente, já impregnado de uma áurea mística, com um cheiro forte de um incenso.

As mãos dele são suaves – próprias para contornar seu corpo. E não escapa nada do alcance deste fauno propenso à bestialidade sem par, às carícias despudoradas e à exaustão dos prazeres da carne. E cometem-se todos os barbarismos, no ápice da paixão.
Ele a possui. Ela o retém. À noite, travam-se batalhas e o palco não é mais que o espaço exíguo do quarto. Varam a madrugada e extenuados sorriem, e dormem. Já é tarde e a hora é de despertar, diz ele. Resta-lhe, antes de mais nada, amá-la até o fim. A ela, reserva-se o segredo de ser enigmática, mesmo no gozo.

Sobremesa: "Há de fazer do corpo uma morada/ onde enclausure-se a mulher amada/ postar-se de fora como espada/ para viver um grande amor." (Vinicius de Moraes)

8 de junho de 2005


"Mandei a frase sonhar, e ela se foi num labirinto."
(Paulo Leminski)

Às palmas e às vaias
Raquel Medeiros

A maquiagem que não esconde.
Alguns vão entender cada linha. Outros não vão entender nada. Desses que não vão entender, é possível encontrar os que vão sugerir significados; outros não se darão esse trabalho. Passarão a página e que venha outro texto mais digerível.
Não há desejo aqui em ser a saliva que ajuda a digestão, muito menos a pedra no caminho dos rins. Aqui sou a palavra escrita. Por vezes cortada, noutras cortante. Há a falta de cuidado e por hora, algumas combinações que dão certo.

O picadeiro que não significa espetáculo.
Por opção, e por uma vontade ou doença incurável de não conseguir parar de escrever. A platéia é quem decide se aplaude ou se torce para que o leão fuja no meio do espetáculo. Se se encanta com o coelho que sai da cartola, ou contrata alguém pra cortar a corda bamba. Sem rede de segurança.

A ausência da lona que não dispensa a platéia.
Aqui não há intencão de ferir nem de curar. Sou alguns dos verbos e poucos adjetivos que residem neste vale. Admito a opção minha. Aceito a opinião alheia.
Mas por favor, quando eu tirar a maquiagem e estiver tentando – forçadamente – dormir, façam silêncio, pois já basta o pensamento me ensurdecendo. E não puxem o lençol. Faz muito frio aqui.

Sobremesa: "Que o leão nunca esteja enjaulado/ para que não haja a fuga/ e o público não saia afobado/ antes do fim/ que a alegria creditada ao palhaço/ ocupe o lugar do cansaço/ cansaço que não desprende de mim." (Raquel Medeiros)

6 de junho de 2005


Summer reading - Yuko Shimizu

Linhas
Raquel Medeiros

Linhas horizontais
Sinal de morte para os corações
Base onde pousam as palavras
Horizonte para os vagões.

Linhas verticais
Sinal de morte para os enforcados
Limite para as palavras
Alívio para os dias ensolarados.

No cruzamento
Eu brinco de jogo da velha
E cubro o teto de telha
Com a rapidez do vento.

E sem tormento
Espero a última interseção
Aquela onde repousará a minha mão
À cruz do meu pensamento.

Sobremesa: "Coisa dolorosa feita de barro e poeira/ o homem no seu quarto/ de noite/ pelejando pra escrever no papel/ com lápis/ nó e tropeço/ a dor do seu peito." (Adélia Prado)

2 de junho de 2005


Portrait of the devil & his fingers - Joe Sorren

Desculpem a ausência de textos meus. Mas é que o voyeurismo é tão demoníaco. =)

* Carta de Clarice Lispector a Fernando Sabino

Falta demônio nessa cidade
Clarice Lispector

Falta demônio em toda Suíça
Falta demônio em muitos lugares
Não falta no Brasil, e talvez seja esta a explicação para o encantamento que o país provoca em estrangeiros e nativos: é o feitiço da irreverência

Os Beatles tinham um demônio parcimonioso quando cantavam “she loves you ye ye ye” tornando-se mais famosos que Jesus Cristo. Só deixaram o demônio tomar conta em discos como “Sgt. Pepper’s”, “Álbum Branco” e “Abbey Road”, numa época em que Mick Jagger julgava-se o único representante de Lúcifer na terra. Há demônio no rock, em todas as bandas.

Há demônio no vinho, falta nos coquetéis
Há demônio no jeans, falta no linho
Há demônio nas fotos em preto e branco

Há demônio no cinema, não há na televisão
Há demônio em livros, não há em revistas

Há demônio em Picasso, Almodóvar, Wagner, Janis Joplin
Há demônio na chuva mais do que no sol
Há demônio no humor e na ironia, nenhum demônio no pastelão

Não há demônio em bichos e crianças
Espera aí! Volto atrás sobre as crianças
Em algumas há, mas somente nas muito especiais, as outras pensam que são espertas, mas são apenas mal-educadas

Na poesia há sempre demônio, na boa poesia!
Na poesia marginal
Na poesia de amor
Paixão é quando o demônio está nu
Sexo com quem ama é muito mais satânico, não precisa ser um amor pra sempre, pode ser um amor de repente, qualquer amor inferniza

Coca-cola tem mais demônio que Guaraná
A inteligência tem mais demônios que a simpatia
A vida tem mais demônio que a morte
Filosofia, psicanálise, beijo, aventura, silêncio
Um minuto de silêncio

O pensamento é o demo

O oriente tem
Manhattan tem
Berna não tem, como tudo que é neutro.

Sobremesa: "Há um estado de felicidade/ de não querer pensar nos momentos tristes/ que vão chegar/ é a influência do tempo/ assim como a felicidade/ o inverno chegou fingindo que vai ficar." (Raquel Medeiros)

30 de maio de 2005


"No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar." (Mário Quintana)

Terminal de passageiros
Fernando Bonassi

Eu tenho tanta saudade, mas tanta saudade de você, que poderia agarrar qualquer uma dessas perfumadas que me vão à frente em escadas rolantes. Roupas novíssimas pra despedidas. Encontros festivos. Passagens puídas de excitação por qualquer lugar diferente. Desaforos levados e trazidos a essa terra roxa e de fuso muito específico. Enquanto você estivesse aí viajando, alta demais pra mim, eu casaria com todas elas. Sem que me soubessem, daria a cada uma o seu carinho; sentiria em cada mordida o sabor de sua carne crua. Eu as sustentaria nos braços e nos bolsos; as amaria pra sempre e, quando você chegasse, fugiria de tudo. Me divorciaria do que poderia ser. Deixaria filhos pequenos, patrimônio hipotecado e alguma lembrança triste.

Sobremesa: "Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto/ esse eterno levantar-se depois de cada queda/ essa busca de equilíbrio no fio da navalha/ essa terrível coragem diante do grande medo/ e esse medo infantil de ter pequenas coragens." (Vinicius de Moraes)

23 de maio de 2005


In her silent way - Joe Sorren

Súplica da alma vazia
Raquel Medeiros

O corpo num silêncio de igreja vazia
O coração, o próprio Cristo-morto
E os bancos onde já sentaram
Homens de coração bom e de coração torto
São os braços que não reagem à apatia
Por força da dor
Que rejeita à razão o segredo da confissão.

Mas sim, há uma redenção!
No olhar, ainda vê-se a beleza dos vitrais
E aquela chama que sinaliza a presença
Mesmo na ausência
Consegue ver beleza nos ais.

Eu suplico
Aquele santo de olhar perdido
Não quero Pai-Nossos como castigo
Para ter o perdão
Quero é que enxergues o quanto estou aflito
E já que és perito
Dá-me logo a salvação!

Sobremesa: "Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir/ pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir/ pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair/ Deus lhe pague." (Chico Buarque)

20 de maio de 2005


Bells whistles - Yuko Shimizu

Embriaga-te
Charles Baudelaire

Deve- se estar sempre bêbado.
É a única questão.
A fim de não se sentir o fardo horrível do tempo,
que parte tuas espáduas e te dobra sobre a terra.
É preciso te embriagares sem trégua.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude?
A teu gosto, mas embriaga-te.
E se alguma vez sobre os degraus de um palácio,
sobre a verde relva de uma vala,
na sombria solidão de teu quarto,
tu te encontrares com a embriaguez já minorada ou finda,
peça ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo aquilo que gira, a tudo aquilo que voa,
a tudo aquilo que canta, a tudo aquilo que fala, a tudo aquilo que geme.
Pergunte que horas são.
E o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio, te responderão.
É hora de se embriagar !!!
Para não ser como os escravos martirizados pelo tempo, embriaga-te.
Embriaga-te sem cessar.
De vinho, de poesia ou de virtude.
A teu gosto.

Sobremesa: "De fato, o ódio é um licor precioso/ um veneno mais caro que os dos Borgia/ pois é feito de nosso sangue/ nossa saúde/ nosso sono/ e de dois terços de nosso amor!/ devemos ser avaros com ele!" (Conselho aos jovens literatos - Charles Baudelaire)

18 de maio de 2005


"Desconfia dos que não fumam.
O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar."
(Mário Quintana)

* Na foto, Rodrigo Amarante.
* É que a música que vou postar bem que podia ter sido composta por ele. Adoraria que ele a cantasse. Não deve ser à toa que eles gostam do Cake.

Where Would I Be?
Cake

I’ve been waiting for so long
I’ve been hoping your love’s not gone
Houses are sliding in the mud
Rivers are raging in your blood

Where would I be wihout your love?
Where would I be without your arms around me?

You were to be the only one
If I knew you I would not run
You have been cloudy, distant, dark
I’m thinking of noah and the ark

Where would I be without your love?
Where would I be without your arms around me?

Sobremesa: "Quem é mais sentimental que eu?!/ eu disse e nem assim se pôde evitar." (Rodrigo Amarante)

17 de maio de 2005


Monkey photographer - Nicholas Gurewitch

Como adestrar seres humanos
Raquel Medeiros

Feliciano era um belo canário. Vivia com a mulher, mas não tinham filhotes.
Um dia, Feliciano resolveu criar seres humanos. Só pra passar o tempo mesmo.
Construiu no quintal uma bela sala com tudo que os humanos precisariam pra viver – um sofá grande e confortável, tv a cabo, uma geladeira repleta de comida congelada, um forno microondas e um banheiro.
Eram cinco pessoas. Não havia muita discussão, a não ser quando o assunto era a posse do controle remoto.
A mulher de Feliciano sentia uma certa pena em deixar aquelas criaturas ali presas. E certo dia tentou convenver o marido a soltá-los. Mas ele argumentava, dizia que eles não saberiam lidar com o mundo lá fora, se virar sozinhos. Ela, em contrapartida, dizia que o lugar deles era no mundo, conhecendo lugares e outros seres humanos, criando e melhorando as coisas lá fora.
Feliciano foi convencido pela esposa. Deixou a porta da sala aberta, e para sua surpresa, ninguém saiu. Estavam todos comprimidos no sofá, olhos atentos ao último capítulo da novela.

Sobremesa: "E agora, José?" (Carlos Drummond de Andrade)

16 de maio de 2005


"Rain down/ rain down/ come on, rain down on me". (Radiohead)

Listen, the rain is falling
Raquel Medeiros

Esse estágio de auto-conhecimento é sempre muito complicado. Doloroso. Às vezes falta esperança de que isso realmente passe. Porque essa história de “essas coisas ruins que estão acontecendo com você vão te fazer crescer, vão te fazer bem” de vez em quando soa muito como conversa de perdedor. E eu tenho perdido muito. O sonho e o sono. Tenho 2 centímetros de olheiras e tenho sido implacável com os outros e ainda mais, comigo mesma.
Dizem que a tristeza é companheira dos bons escritores, que com ela o tiro é certeiro no coração dos outros. Concordo com os outros. Discordo comigo. Primeiro porque me falta o talento de ver a tristeza como inspiração e não como carrasco. Segundo porque trocaria essa tristeza que “escreve belos textos” por felicidade.
Hoje quero a felicidade medíocre de comprar pão no domingo, na padaria da esquina. Se é que alguém consegue ser realmente feliz no domingo...

Sobremesa: "Essas tentativas de inverno/ melhoram o humor/ o que mata é esse gosto de guarda-chuva que não sai da boca/ é esse gosto de 'auto-desamor'." (Raquel Medeiros)

12 de maio de 2005


"Para que apaguem-se bruscos as marcas do meu sofrer" (Ana Cristina Cesar)

Do it yourself
Raquel Medeiros

Deitada, alma e olhar tristes. Nicole sentia-se incompetente. Nem morrer conseguia.
Um dia comprou um desses manuais para suicidas. Das opções oferecidas as únicas que lhe atraiam era cortar os pulsos, e tomar uma quantidade imensurável de remédios.

Um domingo qualquer.
Nicole decidiu que cortaria os pulsos. Tão dramático todo aquele sangue sujando o banheiro. Era clichê, ela também achava. Mas estaria morta, o que importaria depois?
Pegou a gilete, olhou o manual pra ter certeza de que faria o corte da maneira certa, mas olhou para os seus pulsos e parecia que as veias haviam fugido. A pele pálida e fria que até parecia morta. Todo o sangue passava longe dali. Perdeu a vontade. Desistiu.

Um outro domingo qualquer.
Nicole resolveu que dessa vez seria com remédios. Não falharia. Nada de pulsos pálidos. Não precisaria de sangue. Achava que esse tipo de suicídio tinha o seu glamour. O corpo caído com o melhor vestido. Os vidros de remédios vazios, um deles solto da mão, num braço esticado. Morto.
Foi até o banheiro. Não havia criatividade na escolha do lugar, é verdade. Mas e daí? Há alguma originalidade em se morrer dormindo? E mesmo assim tanta gente não deseja morrer assim?
Olhou-se no espelho e achou aquele rosto pouco familiar. Parecia outra pessoa. Não era a Nicole de antes. Parecia desfigurada. Desistiu. Suicídio tudo bem, mas daí a virar assassina era outra história. Passou o dia vendo fotos antigas, tentando reconhecer aquela que vira no espelho.

Deitada, alma e olhar tristes. Nicole não sabia. Mas estes já eram sinais de morte.

Sobremesa: "Quando eu morrer/ anjos meus/ fazei-me desaparecer/ sumir/ evaporar/ desta terra louca/ (...)/ para que eu não fique exposto/ em algum necrotério branco/ para que não me cortem o ventre/ com propósitos autopsianos." (Ana Cristina Cesar)

5 de maio de 2005


ssshhhhhh...

Agora falando sério
Preferia não falar
Nada que distraísse
O sono difícil
Como acalanto
Eu quero fazer silêncio
Um silêncio tão doente
Do vizinho reclamar.

(Chico Buarque)

Sobremesa: ssshhhhhh...

3 de maio de 2005


I can't take my eyes off of you...

Rascunho de carta. Rascunho de vida
Raquel Medeiros

Sebastian,

Essa é mais uma carta que te escrevo. Já foram tantas... todas sem resposta.
Faz frio aqui. Gela o seio e o anseio. Não é falta de ter alguém. É a sua falta. O jeito com o qual se despedia e subia na motocicleta. Colocava o capacete bem devagar e soltava um sorriso safado. Eu adorava isso... Adorava o demônio que existe em você – me tentava, me desorientava...
O cigarro acabou. O café tá amargo. A vitrola quebrou. Tudo desandou depois que você se foi. Eu desaprendi a cuidar de mim. Eu desaprendi a olhar pra mim. No espelho só vejo as marcas que você deixou no meu corpo, nos meus olhos, na minha alma.
Era pra ser pra sempre.
E eu, que sempre fui amante dos verbos, tive que me acostumar a ser mais substantivo – saudade, solidão, tristeza.
Caso você leia esta carta, saiba que estou mudando. E se você voltar, procura um quarto verde. E se eu não estiver, pode ficar à vontade. E aqui registro a vontade de te ver voltar.

Com saudades,
Claire.

Sobremesa: "So if it's true/ that love will never die/ then why do the lovers work so hard/ to stay alive?" (The Cardigans)

2 de maio de 2005


Saudades das cores de Almodóvar...

À palo seco
Belchior

Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava
De olhos abertos lhe direi
Amigo eu me desesperava
Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76
Eu ando um pouco descontente
Desesperadamente eu canto em português.

Tenho 25 anos de sonho e de sangue
E de América do Sul
Mas por força do meu destino
Um tango argentino
Me cai bem melhor que o blues
Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76
Eu quero é que esse canto torto feito faca
Corte a carne de vocês.

Sobremesa: "Se alguém por mim perguntar/ diga que eu só vou voltar/ quando me encontrar." (Cartola)

28 de abril de 2005


Alguma coisa que me alimente e me sustente.

* Obrigada pela foto, João. :)

Nas pálpebras cansadas, o peso das dietas fracassadas
Raquel Medeiros

Os dias me vêm sendo servidos assim como uma sopa rala. Sem carne e sem sal. Sem cor e sem graça.
Tomo colheres cheias e o prato não esvazia. Mas não enche. Não preenche. Não sacia.
Olham pra mim e dizem que eu preciso ganhar peso. Ah, se soubessem o quão pesada me sinto, o quanto penso que meu corpo é pequeno e pouco pra tanta coisa. Mas não há balança pra sentimentos, pra contratempos. Não há lugar onde a gente ponha os pés e o ponteiro indique que você precisa perder 3 quilos de tristeza, 6 de preocupação e 5 de desassossego.
“Me fale, doutor, o que preciso fazer pra ter a paz de volta?”
Ele me responde que é assim mesmo. Tem que ser sofrimento intensivo, doses diárias de reflexão – pra não se perder de si, nem dos outros; descanso e sonho.
“Sonho, doutor? Eu não tenho sonhado muito. Eu sequer consigo dormir.”

Sobremesa: "Ora sim, ora não, creio em parto sem dor/ mas o que sinto escrevo/ cumpro a sina/ (...)/ minha tristeza não tem pedigree/ já a minha vontade de alegria/ sua raiz vai ao meu mil avô/ vai ser coxo na vida é maldição pra homem/ mulher é desdobrável/ eu sou." (Adélia Prado)

22 de abril de 2005


"A coisa em si, nunca: a coisa em ti." (Mário Quintana)

Para ela o verde não trazia esperança. Só medo.
Raquel Medeiros

Era muito criança e os medos eram poucos. Não eram poucos, na verdade, mas tinham seu encanto, misturavam-se à curiosidade e ao atrevimento que lhe eram peculiares.
Tinha muito medo daquele seriado, O Incrível Hulk. Assistia sempre.
Não entendia muito bem a história, mas esperava avidamente a hora da transformação – a roupa rasgando, a pele esverdeando -mas quando chegava a hora de mostrar a face transformada e furiosa do personagem, ela corria pra debaixo da cama. E ficava lá, até sentir que ele resolvera seus desafetos e voltara à forma humana. Tudo isso pra esperar a próxima transformação. Sempre assim. Todas as tardes.
Agora é uma mulher. Seus medos são outros. Ainda guarda a curiosidade e o atrevimento característicos, mas sente falta de ficar embaixo da cama quando o medo chega ao ápice. Eles agora aparecem a qualquer hora do dia. E desde que começou a dormir na rede, não há mais cama pra se esconder.
Não tem mais medo do Hulk, agora acha até engraçado, ridículo. E torce para que os medos de agora lhe provoquem risadas depois.

Sobremesa: "Tinha que ser dor e dor/ esse processo de crescer/ tinha que vir dobrado/ esse medo de não ser/ tinha que ser mistério/ esse meu modo de desaparecer." (Paulo Leminski)

19 de abril de 2005


Me revolta a falta. Me consola a volta.

*Na foto - Rodrigo Amarante.

Descrição de um quarto qualquer
Raquel Medeiros

Este é o quarto. Aquela é a escrevaninha, onde busco palavras, onde enceno rimas pra te fazer voltar.
Aqueles são os livros. Pobres páginas, tantas banhadas por lágrimas, poucas por risadas. Já nos traduziram tanto que hei de um dia juntar frases soltas, de cada um deles, para escrever nosso próprio livro. Repetido e infalível, como todo amor.
Ali estão meus discos. Me traduzem dispersos, trazendo na melodia e nos versos, o teu instrumento que insisto em tocar; o meu sentimento que não consigo cantar.
E agora que estás aqui, já não quero essas tantas coisas.
Só quero esta cama. E que tu faças morada nos meus desarrumados e inquietos lençóis.

Sobremesa: "Se tudo soubesses como é triste/ eu saber que tu partiste/ sem sequer dizer adeus/ ah, meu amor tu voltarias/ e de novo cairias a chorar nos braços meus." (Vinícius de Moraes)

15 de abril de 2005


"Que tolo fui eu que em vão tentei raciocinar
nas coisas do amor que ninguém pode explicar."

"Chega mais perto, moço bonito
Chega mais perto meu raio de sol
A minha casa é um escuro deserto
Mas por você ela é cheia de sol
Molha a tua boca na minha boca
A tua boca é meu doce é meu sal
Mas quem sou eu nessa vida tão louca
Mais um palhaço no teu carnaval."

Sobremesa: "A felicidade é como uma gota d orvalho/ numa pétala d flor/ brilha tranqüila/ depois d leve oscila/ e cai como uma lágrima d AMOR." (Tom Jobim)

12 de abril de 2005


Tomer Hanuka

Nature boy
Eden Ahbez

There was a boy,
A very strange, enchanted boy,
They say he wandered
Very far, very far
Over land and sea
A little shy
And sad of eye,
But very wise was he
But then one day,
One magic day,
He passed my way
And while we spoke
Of many things,
Fools and kings,
This he said to me:
"The greatest thing
You'll ever learn
Is just to love
And be loved in return".

Sobremesa: "Não acabarão nunca com o amor/ nem as rusgas/ nem a distância/ está provado/ pensado/ verificado/ Aqui levanto solene minha estrofe de mil dedos/ e faço o juramento/ amo firme, fiel e verdadeiramente." (Vladmir Maiakowski)

11 de abril de 2005


Barba e Camelo

A falta de fome a deixava mais magra, mas não diminuía o peso
Raquel Medeiros

Perdeu o doce o salgado. Perdeu a poesia e a prosa. Não sobrou muita coisa – só o amargo do choro engasgado.
Aquele choro amargava mesmo – construía olheiras e doenças que ao contrário do que se possa pensar – não davam charme à tristeza. Só dor.
Não sabia rezar. Nunca soube. Mas nunca desejou tanto que existisse realmente alguém capaz de fazer tudo desaparecer. Tudo não-acontecer.
Não existe... sabe que não. E Deus? Ele adora brincar de “pega-pega” com seus títeres. E ela, só mais um deles.

Sobremesa: "Eu que já não sou assim/ muito de ganhar/ junto as mãos ao meu redor/ faço o melhor que sou capaz/ só pra viver em paz." (Los Hermanos)

6 de abril de 2005


Que em breve a alma volte a ser leve.

Quem me de longe olhe
Pedro Guedes Amaral

Quem me de longe olhe
distraído, lendo
e não colhe
meu olhar
que inquieto se descobre
não sabe

o quanto quer ser colhido

em olhos ternos
que não sejam, como escudos,
convexos,
mas côncavos, como colos.

Sobremesa: "Quero um dia para chorar/ dia de desprender-me dessa aventura mal entendida/ sobre os espelhos sem saída em que jaz minha face impressa/ chorar sem protesto/ chorar." (Cecília Meireles)

30 de março de 2005


A raposa, Janis.

Maldita (car) caça
Raquel Medeiros

Deus há de sempre me tratar com uma raposa no campo
Ele, sempre o cão a vigiar
Eu, fugindo da sua invariável sede de caçar.

Está em toda a parte
Me segue, engana e sufoca
Às vezes o desejo é de já estar morta
Pra não lhe dar de graça essa sorte.

Crava-me as unhas do cinismo
Pintadas com o esmalte do altruísmo
Esmaga com sua mão o coração alheio
Ah! Maldito Deus em sua eterna hora de recreio!

Sobremesa: "Tem dias que a gente se sente/ como quem partiu ou morreu/ a gente estancou de repente/ ou foi o mundo então que cresceu?" (Chico Buarque)

28 de março de 2005


Um homem chamado Alfredo

Na queda, a tristeza existe...
Raquel Medeiros

Entre o último gole do café frio e o banho antes de dormir, o telefone tocou três vezes.
Engano. Engano. Engano.
Nem lembrava porque tinha telefone.
Sem família. Sem amigos. Sem credores.
Na cama, deitado. Olhar triste sem cúmplice.
Desejou que sua vida inteira passasse naquela noite. Seria encontrado morto de velhice.
Sem despedidas. Sem choro. Sem lembranças.
Mas nem isso Deus faria por ele. Teria que criar coragem para dar um fim aquela espera.
Esperou a vida. Esperou o amor. Esperou a compaixão.
A morte ele mesmo foi buscar.

... na subida, a tristeza insiste.

Sobremesa: "Eu sempre o cumprimentava/ porque parecia bom/ um homem por trás dos óculos/ como diria Drummond/ num velho papel de embrulho/ deixou um bilhete seu/ dizendo que se matava/ de cansado de viver/ embaixo assinado Alfredo/ mas ninguém sabe de quê." (Toquinho e Vinicius de Moraes)

22 de março de 2005


Podia até camuflar o amor, mas não escondê-lo.

Bilhete de ousada donzela
Adélia Prado

Jonathan,
Há nazistas desconfiados.
Põe aquela sua camisa que eu destesto
- comprada no Bazar Marrocos –
e venha como se fosse pra consertar meu chuveiro.
Aproveita na terça que meu pai vai com minha mãe
visitar tia Quita no Lajeado.
Se mudarem de idéia, mando novo bilhete.
Venha sem guarda-chuva – mesmo se estiver chovendo –
não aguento mais tio Emilio que sabe e finge não saber
que te namoro escondido e vive te pondo apelidos.
O que você disse outro dia na festa dos pecuaristas
Até hoje soa igual música tocando no meu ouvido:
“Não paro de pensar em você.”
Eu também, Natinho, nem um minuto.
Na terça, às duas da tarde,
Hora em que se o mundo acabar eu nem vejo.

Com aflição,
Antônia

Sobremesa: "A minha Casa é guardiã do meu corpo/ e protetora de todas minhas ardências/ e transmuta em palavra/ paixão e veemência/ e minha boca se faz fonte de prata/ ainda que eu grite à Casa que só existo/ para sorver a água da tua boca." (Hilda Hilst)

18 de março de 2005

Que o fim-de-semana seja inteiro... =D

Preferia bolo, porque torta a vida já era
Raquel Medeiros

O bolo pra ela vinha sempre em fatias, nunca inteiro. Finas e frágeis, que desmanchavam na boca e sempre deixavam um gosto de saudades.
Às vezes o confeiteiro tirava uma fatia grossa e colocava em seu prato. “Moço, eu quero fina, mesmo”. As grossas não lhe pareciam tão atrativas e às vezes saciavam na primeira mordida.
Ela adorava querer mais, sentir vontade de voltar. Odiava estar saciada, totalmente satisfeita. “Quem se satisfaz, não quer mais, não volta pra pedir outro pedaço; e mesmo que peça é só por gula dos olhos, porque no fundo sabe que o que vier além daquilo é excesso, é dispensável”.
Ah, o amor pra ela também funcionava assim. Queria fatias diárias, mesmo finas e frágeis; mas que a deixassem com vontade de voltar, de querer mais. Mas o Sebastião detestava bolos...

Sobremesa: "Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca." (Clarice Lispector)

15 de março de 2005

Nem todas as caixas de lexotan...
Raquel Medeiros

... curam a insônia. Horas de tentativas de pensamentos amenos. Mas ele não saía da cabeça dela. Qualquer cenário que imaginasse – verão, inverno, outono ou primavera – lá estava ele. Com seu característico sorriso de menino. Pensar nele trazia fome, sede e saudades. Até tentou viajar sozinha, mas não conseguiu. Encontrava-o no avião, no metrô, e até na rua confundia outros rostos com o dele.O corpo cansa mas os ponteiros não. Sentiu preguiça de pensar, mas até a preguiça lembrava ele. Poucas horas depois já era tempo de acordar. Fome, sede e saudades. Um pouco de sono, é verdade, mas isso também lembrava ele.

Sobremesa: "Honey pie/ you are making me crazy/ I'm in love but I'm lazy/ so won't you please come home/ Oh honey pie/ my position is tragic/ come and show me the magic/ of your Hollywood song." (The Beatles)

10 de março de 2005


Helmut Newton - Fotógrafo e fetichista

Meu verso favorito
Raquel Medeiros

O meu verso favorito
Está sendo escrito
A quatro mãos
A cinco sentidos.

O meu verso favorito
Está preso à algemas
Livre de razão
E de qualquer teorema.

O meu verso favorito
Está no teu abraço
Na junção das nossas mãos
Na construção de fortes laços.

O meu verso favorito
Está no teu prazer
Que também é meu por opção
Fruto de intenção e de querer

O meu verso favorito
Está no teu olhar
Que também é meu por ambição
E por vontade de voar.

O meu verso favorito
Está no teu coração de menino
Que foi autor da invenção
De deixar o meu em desatino.

Sobremesa: "Qualquer verso que me mostre/ que não me sufoque/ que não me solte de você." (Raquel Medeiros)

8 de março de 2005

Se tu viesses ver-me
Florbela Espanca

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

Sobremesa: "No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa/ havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha/ eu queria poder pegar nela/ queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanto perfume..." (Hilda Hilst)

4 de março de 2005


Sushi-long - Tomer Hanuka

Diagnóstico
Raquel Medeiros

Coração batendo rouco
Sinal de caminho torto.

Coração batendo pouco
Prenúncio de passo novo.

Coração batendo louco
Certeza de demônio solto.

Sobremesa: "Satan is my motor/ Satan is the only one who seems to understand." (Cake)

1 de março de 2005

Cenas misturadas ao cheiro de novo
Raquel Medeiros

Exterior. Noite. Chuva. Cerveja. Barulho. Troca o pranto pelo riso. Lança mão do segredo que carrega e liberta as dezenas de borboletas que agitam as asas dentro dela. Agora todas à mostra, como as palavras, compõem juntas um movimento acelerado como o coração, ansioso como as mãos, livre como os olhos.

Interior. Noite. Calor. Suor. Música. Troca o medo pelo desejo. Lança mão do tecido que protege e liberta as dezenas de sinais que denunciam a vontade dentro dela. Agora todos à mostra, como os gestos, compõem juntos um movimento acelerado com o coração, ansioso com as mãos, livre com os olhos.

E a alma leve, como tem que ser...

Sobremesa: "Se tudo pode acontecer/ se pode acontecer qualquer coisa/ o deserto florescer/ uma nuvem cheia não chover/ pode alguém aparecer e acontecer de ser você/ um cometa vir ao chão/ um relâmpago na escuridão/ e a gente caminhando de mãos dadas de qualquer maneira/ eu quero que esse momento dure a vida inteira/ e além da vida ainda de manhã no outro dia/ se for eu e você/ se assim acontecer." (Arnaldo Antunes)

24 de fevereiro de 2005


Original beauty - Yuko Shimizu

Versos inquietos
Raquel Medeiros

Seus olhos me olham cada vez mais perto
E com o tempo com os meus se confundem
Fazendo oásis o que antes era só deserto.

Estamos vivos! Sinto seu cheiro, o gosto da sua pele
E todos os seus pensamentos lascivos
Mesmo que não me reveles.

As respirações confundidas
As palavras indecentes
Os gestos sem medidas.

E nesse jeito de te ter com loucura
Sem compostura; de maneira voraz
Cada vez que me pedes um beijo com doçura
Cravo meus dentes no teu corpo e te mordo ainda mais.

Doce é a dor da mordida
Sente prazer a alma, mesmo com a carne ferida
E somos tomados por uma febre
Que, apesar de às vezes breve,
É a melhor coisa da vida.

Me faz livre, me faz leve, me faz viva
Que esse desejo em mim não cessa
A vontade é grande; curta é a vida
E quando meu desejo termina, vem o teu e recomeça.

Sobremesa: "Hoje/ de carne e osso/ laborioso/ lascivo/ tomas-me o corpo/ E que descanso me dás/ depois das lidas/ Sonhei penhascos/ quando havia o jardim aqui ao lado/ pensei subidas onde não havia rastros." (Hilda Hilst)

22 de fevereiro de 2005

O touro e o vermelho
Raquel Medeiros

O vermelho chama o touro. O touro flerta com o vermelho. Ambos não sabem o que vai acontecer na arena. Mas isso não importa...
O homem que segura o vermelho acha que é o centro do jogo. E talvez seja, para a platéia, claro. Mas para o vermelho o que importa é que seu movimento envolva o touro. E para o touro, o desejo que o vermelho desperta.
Paloma também não sabe o que vai acontecer. Mas nem liga, nunca gostou de tourada. O que Paloma gosta mesmo é da sedução entre o touro e o vermelho. Mas para o vermelho e o touro isso também não importa...

Sobremesa: "E a ameaça do que chamamos de inferno/ para mim nada é/ ou muito pouco/ meu camarada querido/ eu confesso que o incitei a ir em frente comigo/ e que ainda incito sem a mínima idéia de qual venha a ser o nosso destino/ ou se vamos sair vitoriosos/ ou totalmente sufocados e vencidos. (...)" (Walt Whitman)

18 de fevereiro de 2005

Este...por enquanto
Paulo Leminski

esse subto não ter
esse estúpido querer
que me leva a duvidar
quando eu devia crer

esse sentir-se cair
quando não existe lugar
onde se possa ir

esse pegar ou largar
essa poesia vulgar
que nao me deixa mentir.

Sobremesa: "O que será que será/ que dá dentro da gente que não devia/ que desacata a gente que é revelia/ que é feito aguardente que não sacia/ que é feito estar doente de uma folia/ que nem dez mandamentos vão conciliar/ nem todos os unguentos vão aliviar/ nem todos os quebrantos toda alquimia/ que nem todos os santos será que será/ o que não tem descanso nem nunca terá/ o que não tem cansaço nem nunca terá/ o que não tem limite." (Chico Buarque)

16 de fevereiro de 2005


That makes my neck numb - Yuko Shimizu

Game over
Raquel Medeiros

Primeiro tempo. Sete da manhã. Ônibus para o trabalho. Sempre lotado, mas era divertido. Ele adorava escolher uma daquelas mulheres e observá-la. Não precisava ser bonita, mas tinha que ser morena e gostosa.
Naquela manhã, estranhamente, ele fitou os olhos numa magricela que estava sentada uns dois bancos à sua frente. Não conseguia tirar os olhos dela. O jeito que ela mexia os cabelos, a displicência com que olhava os passantes na rua. Dava a impressão de que não desceria nunca daquele ônibus; que a intenção era só estar em movimento sem, necessariamente, movimentar-se. O trajeto e o destino pouco importavam.

Segundo tempo. Desceu a velhinha. Desceram os meninos fardados. O cego desceu reclamando das míseras moedas que haviam lhe negado. O assento ao lado dela fica vazio. Ele hesita. Hesitar? Nunca foi disso. Respirou fundo e sentou. Olhou rapidamente e sentiu um frio na barriga.
Ali acabava o jogo. Dessa vez ele não marcou nenhum gol. E o frio na barriga... aquela mulher magra e aparentemente sem nenhum atrativo, era sua irmã. Catorze anos sem vê-la e agora estava ali, ao seu lado. Poderia falar qualquer coisa, mas não teve coragem. Levantou, pediu parada e desceu. Mas sabia que era ela, pois sentiu uma vontade imensa de abraça-la e aquele sinal no canto do olho esquerdo era inconfundível.

Sobremesa: "Eu não quero falar contigo/ eu gosto é de pensar em ti quando estou sentado sozinho/ ou acordado à noite sozinho/ Eu te esperarei/ não tenho dúvida alguma de que vou te encontrar ainda/ E terei cuidado dessa vez para que não te perca." (Walt Whitman)

12 de fevereiro de 2005

Hoje tem entrada, pato principal e sobremesa. Bom apetite! =D

Por mais raro que seja, ou mais antigo,
Só um vinho é deveras excelente:
Aquele que tu bebes calmamente
Com o teu mais velho e silencioso amigo... (Mário Quintana)

Na vida não há
Raquel Medeiros

Na vida não há descanso
E mesmo que o mar esteja manso
Sinto a sua fúria se aproximar.

Na vida não há encanto
E mesmo quando o sentimento é tanto
Sinto a dor o esmagar.

Na vida não há tanto
E mesmo quando a alma transborda em encanto
Sinto a tristeza me esvaziar.

Na vida não há canto
E mesmo quando a voz diz tanto
Sinto o pranto me engasgar.

Sobremesa: "Toda a noite choraste... e eu chorei/ talvez porque, ao ouvir-te, advinhei/ que ninguém é mais triste que nós/ Contaste tanta coisa à noite calma/ que eu pensei que tu eras a minh'alma/ que chorasse perdida em tua voz!" (Florbela Espanca)

10 de fevereiro de 2005


Depression 1 - Yuko Shimizu

A tristeza não é visita, é hóspede
Raquel Medeiros

A tristeza me encontrou
Bateu à minha porta
Achei que fosse alguém bem-vindo
Ignorou o meu não, sorrindo
Entrou e ficou.

Pediu um café amargo
Acendeu um cigarro
Ficou olhando pra mim
Tirando sarro
Da dor que me proporcionou.

Ah, se veneno eu tivesse
Daria uma grande dose
Pois é isso que ela merece
Porque de mim ela não esquece
Quando achei que morta estivesse
Ela voltou.

Sobremesa: "Tudo era questão de decidir. E, embora já tivesse decidido, continuou pensando por pensar, escolhendo e dando-se razões para escolha, até que o amanhecer começou a esfregar-se na janela, no cabelo de Ofelia dormindo, e o seibo do jardim recortou-se impreciso, como um futuro que coalha em presente, endurece pouco a pouco, entra em sua forma diurna, aceita-a e a defende e a condena à luz da manhã."(Julio Cortázar)

1 de fevereiro de 2005

O Labirinto
Jorge Luis Borges

Este é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto.

Sobremesa: "O sentido está gravado/ no rosto com que te miro/ neste perdido suspiro/ que te segue alucinado/ no meu sorriso suspenso/ como um beijo malogrado." (Cecília Meireles)

25 de janeiro de 2005


Glub - Alexandre Fermar

* Obrigada pela ilustração, Alexandre. Tem dias que ela perece um espelho... beijos.

Ví(cio)s
Raquel Medeiros

Telefone e despertador tocando ao mesmo tempo. Não quero levantar. Ainda estou sob efeito das drogas da madrugada – o som do trem noturno no seu percurso sem desvio, alguns comprimidos coloridos, resquícios de presença masculina nos lençóis e a insônia (desta não me livro nunca!).
Telefone e despertador tocando ao mesmo tempo. Parecem ensaiados. Não levanto. Sei que não conseguiria falar com ninguém hoje. Sinto uma dor fina e insuportável no peito. E algo interrompendo a passagem da saliva. Estou irremediavelmente engasgada... Deve ter sido um daqueles comprimidos coloridos...

Sobremesa: "E agora Maria?/ o amor acabou/ a filha casou/ o filho mudou/ teu homem foi pra vida/ que tudo cria a fantasia/ que você sonhou/ apagou à luz do dia/ e agora Maria?/ vai com as outras/ vai viver com a hipocondria." (Alice Ruiz - paródia do poema "José", de Carlos Drummond de Andrade)

20 de janeiro de 2005


Letters of desire - Yuko Shimizu

Há um voyeur em cada um de nós
Raquel Medeiros

Não espere que eu diga “eu te amo”. Aliás, não espere que eu ame você. Esse amor que você grita aos quatro cantos é mero capricho seu, é um jeito de tentar me fazer ficar, de enganar alguns dos meus órgãos-não-racionais.
Mas como é bom num dia como hoje te vestir na fantasia de carrasco e contar minhas mágoas aqui. O quanto você me faz sofrer... quando nega o jogo e o fogo; quando viaja; quando volta e dorme; quando não dorme em casa...e tantas outras coisas que só dizem respeito a nós dois.
Você até fica mais sexy nessa fantasia de carrasco que na de “homem apaixonado”. Você não sabia, mas é isso que me faz ficar. Eu nunca te falei que era um pouco masoquista? Certo, talvez nem tão pouco assim... eu te amo. Volta logo que eu tô com saudades. E vontades também.

Sobremesa: "Paixão é quando o demônio está nu/ sexo com quem ama é muito mais satânico/ não precisa ser um amor pra sempre/ pode ser um amor de repente/ qualquer amor inferniza." (Clarice Lispector)

14 de janeiro de 2005

Onde está a poesia?
Raquel Medeiros

Onde está a poesia?
Dizem que foi rua acima
Reclamando a paz perdida
Dizendo que tem mais o que fazer da vida
Que se preocupar em fazer rima.

Onde está a poesia?
Dizem que foi na casa da vizinha prosa
Reclamando a alegria perdida
Dizendo que tem mais o que fazer da vida
Que ser letra dolorosa.

Onde está a poesia?
Dizem que dobrou a esquina
Reclamando a juventude perdida
Dizendo que tem mais o que fazer da vida
Que ser velha ao invés de menina.

Onde está a poesia?
Dizem que foi pra outro país
Reclamando a felicidade perdida
Dizendo que tem mais o que fazer da vida
Que ficar nesse blog infeliz.

Sobremesa: "Tem dias que ela se revolta/ com a letra torta/ com a felicidade morta/ eu que não quero confusão/ deixo ela num canto/ louvo o riso/ respeito o pranto/ e ela que volte quando estiver pronta/ quando quiser o coração." (Raquel Medeiros)

11 de janeiro de 2005


Charlie Brown - Andrei Formiga

* Adorei a foto, e o Charlie Brown. Obrigada. =)

Mesmo enrugadas, não haviam mãos tão amadas quanto as dela
Raquel Medeiros

Quando a conheci já vivia sozinha. Filhos casados morando longe. Visitas periódicas no verão, e no Natal. Mas nas segundas-feiras, dias chuvosos e tristes éramos só nós dois.
Era uma mulher de grandes silêncios e de gestos significativos. Eu ouvi seus segredos e ela sempre dizia que eu havia trazido a alegria de volta àquela casa, mesmo quando a sujava depois das brincadeiras no quintal.
E a vida que antes se resumia à lágrimas na sala grande e vazia, agora era contada por passeios, brincadeiras e carinhos ao som da tv.
Os anos foram passando, eu fui crescendo e vendo ela perder cada vez mais o viço da pele e a audição. O volume da tv cada vez mais alto. Eu também já tinha um certo cansaço, e notando o dela, já não subia mais na saia de retalhos, mas demonstrava meu carinho e gratidão balançando o rabo, e pousando minha cabeça em seu colo, quando sentava na poltrona, que de tão antiga, já tinha a forma do corpo dela.
Um dia ouvi um barulho estranho, e ao entrar na sala, lá estava seu corpo, quieto e frio. Seu sangue espalhado no assoalho escuro. Eu latia e uivava num pedido de socorro. Os vizinhos vieram, e no velório a casa estava cheia como nunca. Eu queria que ela estivesse viva pra ver todos os netos correndo pela casa, todos os filhos reunidos, abraçados.
Eu fui pra o meu canto, e senti quando uma mão me fez um carinho solidário. Mas eu sabia... Nada confortaria a ausência dela, nem tiraria a certeza de que um dia seria eu.

Sobremesa: "Irreconhecível/ me procuro lenta nos teus escuros/ como te chamas, breu?/ tempo." (Hilda Hilst)

10 de janeiro de 2005


Portrait of Emily - Joe Sorren

A solidão é senhora
Raquel Medeiros

- Descreve o cheiro do teu amor, Maria.
- Acho que não consigo... mas posso tentar...
Maria fechou os olhos, e como se não houvesse mais ninguém naquela sala, desatou a falar:
- É cheiro de tarde com poesia, com beijos dados à frente de casas de portões pequenos. É cheiro de saudades e vontades que não têm fim...
É cheiro de verdades ditas no silêncio, e nas tantas reticências que saem dele e refletem em mim...
É cheiro que provoca essa eterna procura por sílabas e rimas. Mas amor não tem forma, nem métrica.
Descrever o cheiro dele assim, sem tê-lo, assumo que vou fracassar... desistir... Pois sua ausência não me traz nenhum alento, ao assustador movimento de pensar e não tocar... de escrever e não sentir...
Só sei que tudo o que eu queria agora era o cheiro dele... sentí-lo em longas paradas na nuca...
Ah, releve a incapacidade de descrever...é uma maldade ficar lembrando do cheiro... do gosto... dele...
Por hora, essa é a melhor definição que consigo fazer...
Quando abriu os olhos, não havia mais ninguém na sala, mas o cheiro dele estava espalhado por todo o lugar... Há muito tempo ela não sentia... Essa era a segunda sessão de terapia, desde a morte do Fernando. Depois disso, Maria não voltou mais pra terapia... nem pra casa...

Sobremesa: "I seem to lose the power of speech/ you're slipping slowly from my reach/ you grow me like an evergreen/ you've never seen the lonely me at all/ (...)/ without you I'm nothing." (Placebo)

5 de janeiro de 2005


"Ying and yang" - Yuko Shimizu

A toda “não-ação” corresponde uma reação
Raquel Medeiros

De um lado, a sala – mesa, cadeiras, papéis, e ele. De outro, uma máquina fria e ela. Seguia-o com os olhos e com um desejo que não tinha tamanho... aliás, tinha sim – era imenso. Havia desejo demais... gente demais... ele de menos...
Ele saía. Deixava-a a ver navios. Ela mesma se sentia um, ancorada na cadeira, de onde não conseguia sair. Sabia que não era uma embarcação feita pra ficar presa no porto, mas sair dali - naquele momento - era impossível.
Formava-se um grande intervalo entre a saída e a volta dele. Ela esperava e divagava acerca do cheiro dele, da textura da pele, e das tantas possibilidades que aquele conjunto lhe proporcionava. Havia desejo demais... gente demais... ele de menos...
Ela cruzava as pernas na vã tentativa de senti-lo enroscado entre elas. Contorcia-se na cadeira, massacrando o desejo e algumas partes do corpo. O voyerismo era latente, e percebia-se uma certa dose de masoquismo. Nem tinha idéia de como certas torturas podiam ser mais prazerosas que carinhos singelos.
Quando ele voltava, ela seguia - com os olhos e a imaginação - cada centímetro dele. E como cada pedacinho era tentador! Boca, nuca, olhos, ombros... Ele a deixava faminta, sedenta. Havia desejo demais... gente demais... ele de menos...
Ele ia e vinha, passeava na frente dela. Contornava a mesa, sumia. Parecia fazer de propósito, mas não era. E isso a deixava ainda mais instigada. Exasperada pela volta.
Ela queria que ele voltasse, e dissesse que por um decreto, ou mágica, a partir de então, se privariam da coletividade, e se entregariam ao individual. Que a partir de hoje, ela faria morada no corpo dele.
Numa dessas horas em que ele se mostra, ela vê e aperta as mãos como gostaria de apertar o corpo dele... ou abrir o maldito jeans e gozar enquanto sondava o desejo dele...
Não é um desejo manso. Não há acordo de cavalheiros entre a vontade e a impossibilidade. São dias de febre. De fome e sede. Mas ela não pode fazer nada, a não ser esperar... outro dia de tortura... ou o esperado dia do banquete...
Há desejo demais... gente demais... ele de menos...

Sobremesa: "E existindo o desejo/ a gente começa a se desorganizar/ a pôr amor onde existe a turbulência/ porque a desordem é o imperativo do amor/ e eu que não sei se o amor é também a necessidade que se tem de instaurar a ordem no corpo." (Nélida Piñon)

3 de janeiro de 2005

Mesmo na queda, mantenha sempre o pensamento elevado
Raquel Medeiros

Passado o dia dos versos melosos
Me sobra alguma saudade
Dos dias gloriosos
Algum cansaço dos dias dolorosos.

Na caixa, ficaram os sorrisos
E as lágrimas tratei logo de enxugar
Quero que ela se encha de abraços
Lugares, desejos, amores e amigos.

Essa ânsia de viver não cessa
E mesmo que meu corpo por vezes tropeçe
Eu não canso de levantar
De limpar os arranhões
De jogar fora o salto quebrado
E rir do tombo levado
Que nem criança que cai
Mas sempre volta a brincar.

Sobremesa: "Eu lhe disse, então, se não quer discutir o amor, que afinal bem pode estar longe daqui, ou atrás dos móveis para onde às vezes escondo a poeira depois de varrer a casa, que tal se após tantos anos eu mencionasse o futuro como se fosse uma sobremesa?" (Nélida Piñon)

27 de dezembro de 2004


"Agora, imediatamente, é aqui que começa o primeiro
sinal do peso do corpo que sobe." (Ana Cristina Cesar)

* Imagem de "Vincent", primeira animação de Tim Burton.
Ambos dispensam comentários ("Vincent" e seu criador)

Degraus
Raquel Medeiros

De vez em quando levo um tropeço
De vez em quando carrego o cansaço.

De vez em quando vejo o fim da escada
De vez em quando não enxergo nada.

De vez em quando sinto solidão
De vez em quando alguém me dá a mão.

E enquanto escrevo continuo subindo
Já consigo até ver a porta do sótão.

Sobremesa: "Parece que há uma saída exatamente aqui onde eu pensava que todos os caminhos terminavam. Uma saída de vida. Em pequenos passos, apesar da batucada." (Ana Cristina Cesar)

25 de dezembro de 2004

Tentei postar uma foto, mas o hello não quis.
Hoje não tem sobremesa. Relevem... nem o prato principal eu consegui fazer...

Desejos Vãos
Florbela Espanca

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!...

21 de dezembro de 2004


"Custa-me a acreditar que se chegue um dia à
demonstração de que somos obra de um ser
supremo e não, como parece, de um ser muito
imperfeito que nos fabricou à laia de passatempo."
(Lichtenberg)

* Foto feita por Win Wenders, que era fotógrafo antes de ser cineasta.

Cada um tem, em seu próprio labirinto, o minotauro que merece
Raquel Medeiros

És imenso
E mais forte que eu
Minha fé já morreu
Desse teu veneno intenso.

E ter que enfrentar
Quando quero fugir
E ter que resgatar
O tão fragil palpitar
Do coração que não pára de partir.

Esperar ou me atirar?
A fumaça do cigarro que nunca encerra
E que não traz resposta ou alento
A esta criatura
Pequena demais pra tanto sofrimento.

Sobremesa: "Avançavam assim pelas páginas/ maldizendo e fascinados/ e a maga terminava sempre por enroscar-se como um gato sobre uma poltrona/ cansada de incertezas." (Julio Cortázar)

13 de dezembro de 2004


Hapless - Edward Gorey

*Adoro demais esse Gorey. Desenhos e textos.
Esse desenho aí em cima é uma "tradução" das minhas últimas semanas...
Tô cansada pra atualizar isso aqui também. Já já eu volto. Mas a minha medida de "já" pode ser diferente da sua...

Inveja daquela que nunca cansa do salto
E nem tem calos no pé
Eu já joguei tudo pra o alto
Inclusive a fé.
(Raquel Medeiros)

Sobremesa: "Abraço rima com cansaço/ mas abraço é bom/ e o cansaço já me tirou o tom". (Raquel Medeiros)

6 de dezembro de 2004


...amor, amigo e riso são as únicas coisas que satis(fazem) o dia.

* O meu melhor e maior abraço pra você, Tiago. =**************

Não esquece
Raquel Medeiros

Não esquece
Que aqui tens a minha melhor palavra
Aquela que vai da minha alma
Pra sua alma.

Não esquece
Que aqui tens o meu melhor sorriso
Aquele que nunca é falso
Ou indeciso.

Não esquece
Que aqui tens o meu melhor abraço
Aquele que construiu tantos laços
Aquele que vence qualquer cansaço.

Não esquece
Que aqui tens a minha mão
Aquela que não deixa cair
Nem o corpo; nem o coração.

Sobremesa: "Mãe é verbo/ é substantivo/ é adjetivo/ é exclamação/ e mesmo que a voz cale/ tudo o que ela disse/ fica na memória/ na alma/ e não tem ausência/ que tire a presença do coração." (Raquel Medeiros)

3 de dezembro de 2004


A vontade que nunca vai embora - A vontade de nunca ir embora.

* Carola e João. Um mês de amor. Dois queridos. Queridos demais. Apaixonados. Que é assim que a vida vale a pena.
E podia ser qualquer um de nós, de vocês. Mas hoje o dia é deles... Beijos. =)

Que a saudade que traz o pranto nunca seja maior que a vontade de ser tanto
Raquel Medeiros

Me dá uma gota da tua saliva quente
Que eu faço um mar
Porque o teu desejo deixa o meu ascendente
Não é chuva que molha somente
É tempestade que faz tudo transbordar.

Me dá um pedaço da tua carne quente
Que eu faço um banquete
Porque o teu desejo deixa o meu ardente
Não é entrada somente
É refeição completa que faz tudo saciar.

Me dá um tempo do teu movimento quente
Que eu faço uma dança
Porque o teu desejo deixa o meu permanente
Não é rebuliço de ancas somente
É uma agitação no corpo e na mente
Que não quer findar.

Sobremesa: "Hoje é dia de arrumar a mala/ pra viajar/ hoje é dia de arrumar a casa/ e colocar a saia rodada/ pra esperar o amor chegar/ no coração a vontade faz morada/ e a saudade vai ficar na passagem comprada/ manda um abraço pra aquela tangerina/ um abraço bem apertado/ pois nunca vi um ser tão amado/ como essa menina." (Raquel Medeiros)

1 de dezembro de 2004

O refrão (in)cansável dos dias
Raquel Medeiros

Mais uma manhã. Ela, sentindo-se aquela mulher que faz tudo sempre igual. Com a diferença que ela não tinha ninguém pra esperar, nem pra beijar-lhe a boca cheia de feijão.

Café fraco e com adoçante. Duas torradas, pra não engordar. Pra quê? Se não tinha ninguém que lhe notasse a evidência das costelas. E se o corpo estava mais leve, o coração pesava mais que uma daquelas grandes melancias.

Faxina na casa e lençóis limpos. Pra quê? Se aquela cama não sentia outro cheiro senão o do amaciante. Fazia tanto tempo que não tocava o corpo de um homem, que sequer lembrava o nome do último. Talvez Haroldo... lembrava de algum Haroldo... lembrança distante. Podia ser alguém com quem deitou. Ou o enfermeiro que aplicou a glicose no seu último grande porre.

Mais uma manhã. Ela sentindo-se aquela mulher que faz tudo sempre igual. Com a diferença que ela não tinha ninguém pra esperar, nem pra beijar-lhe a boca com paixão.

Café fraco e amargo. O adoçante acabou.

A única coisa que não acaba na vida da Sandra é a rotina maçante. E a lembrança distante de um certo Haroldo... que podia ser alguém com quem deitou. Ou o cara do andar de baixo, que levou o resto do seu adoçante.

Sobremesa: "Últimos dias do ano/ Andava no ar uma agitação insólita/ todos indo e vindo/ se encontravam/ se separavam/ Pela manhã/ depois de uma noitada no bar ou em casa de alguém/ Eduardo se interrogava ao espelho/ um dia mais velho/ Que estou fazendo da vida?/ se perguntava, e saía para o trabalho." (Fernando Sabino)

29 de novembro de 2004

Textos antigos, só pra tirar um pouco o mofo.

Amanhã
Raquel Medeiros

Amanhã eu não sei
Talvez eu acorde sedado
E pegue o ônibus errado
Só pra ver onde vai dar.

Amanhã eu não sei
Talvez eu acorde inspirado
E minta desavergonhado
Só pelo prazer de enganar.

Amanhã eu não sei
Talvez eu acorde endemoniado
E mate o cara errado
Só pela distração de ver sangrar.

Amanhã eu não sei
Talvez eu acorde finado
E finja estar acordado
Só pra esse verso rimar.


Poema deixado embaixo da porta
Raquel Medeiros

E se falta o abraço
Eu posso desatar esse maldito laço
Que me enforca
Ao invés de me enfeitar.

Por mais que me sobre bondade
A grande verdade
É que o desdém me sufoca
Mais do que posso suportar.

Mas não se importe
Que com um pouco de sorte
Em breve me verás morta
E nem precisa fingir chorar.

Sobremesa: "Esse papel de parede de fungo/ não combina com a decoração do teu quarto/ mas cai bem com a do coração/ no entanto, não deixa isso se alastrar/ abre portas e janelas/ arranca o teto/ e deixa o sol entrar". (Raquel Medeiros)

23 de novembro de 2004

A insustentável certeza de não ter
Raquel Medeiros

Sobrava ainda um pouco de café. Restavam ainda alguns poucos cigarros, e uma tristeza tão grande que não cabia no pequeno apartamento.
Há três horas antes, ele ainda estava lá – esvaziando o guarda-roupa, embrulhando os livros e o estômago dela, levando a Billie Holiday embora... Ao som de ofensas, socos e pontapés morais.
Fim de relacionamento sempre dói, deixa alguma cicatriz, nem que seja lá no cantinho do tornozelo. Com ela não era diferente. Tinha marcas nos pulsos, e nos seios. O peito apertado e a cabeça rodando tanto que precisou sentar, ali, na poltrona dele, que dali a alguns dias ele mandaria buscar, e seria mais um lugar vazio - além da cama, e do coração dela.
Não tinha força pra levantar. Queria sair, comprar mais café, cigarros, e quem sabe um pouco de alegria. Mas não conseguia. Nunca foi a menina que levantava rápido da queda e limpava displicentemente o joelho.
Sempre foi a que ficava muito tempo ainda no chão, vendo os arranhões, o sangue, e a sua incapacidade de lidar com a visão de quem está embaixo, esperando a mão, a ajuda, o abraço.
Acabou o café. Acabaram os cigarros. Mas a tristeza estava lá – mais espaçosa que nunca.
Conseguiu levantar com grande esforço. Foi no quarto, pegar a bolsa pra ir à rua. O cheiro dele espalhado no quarto, as gavetas vazias, a ausência dos sapatos dele. Foi um choro doído. O choro que não saiu quando ele bateu a porta.
Despencou na cama, que assim como a tristeza, parecia grande demais pra ela. Mas agora era só dela.

Sobremesa: "Se você me ama/ por que não se concentra?" (Ana Cristina Cesar)

22 de novembro de 2004

texto velho... de uma época em que a esperança vencia a espera.

Na balança, a espera pesa mais que a esperança
Raquel Medeiros

Um postal da dor
Na esperança de um amor
Essa é a vida da Mariah.

Sonhos pálidos
Olhos já cansados
Da lida difícil de levar.

Pôs um vestido estampado
Cheirando a guardado
Com um perfume pra enganar.

Um pouco de cor nos lábios
Há tempos ressecados
Pela ausência do beijar.

Esperou mas ele não veio
E sua vida ficou assim sem recheio
Morreu, entediada, esperando o amor chegar.

Sobremesa: "A esperança deseja o abraço/ a espera fomenta o cansaço/ pelo menos uma hora na vida/ a gente já morreu na ponta da faca da demora/ que faz passar a hora/ faz esgotar o tempo/ faz a beleza ir embora/ e estragar o sentimento". (Raquel Medeiros)

18 de novembro de 2004


"Sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada,
uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!''
(Florbela Espanca)

*A foto é de Gustavo Soares. =****

Ninguém perde a gente. A gente é que se perde.
Raquel Medeiros

Hoje é dia de mudar a alma de casa. Desocupar os cômodos. Acabar com o incômodo. Esvaziar o corredor, com malas cheias de coisas velhas e em desuso. Jogar fora as panelas vazias, cuja ferrugem já me causou diversas doenças – algumas reais outras inventadas por mim. Porque doença costuma trazer um certo charme à tristeza, dá credibilidade.

Hoje é dia de esquecer sentimentos como afeto, esperança e alegria. É dia de ficar entre a coragem e a covardia. É a bulimia de bons sentimentos. Eu os tomo pra mim, me alimento e depois os vomito. E isso não começou hoje. Já faz tanto tempo que já devo ter uma úlcera emocional – mais uma doença inventada.
Há tempos meus olhos já não se atrevem a fitar os olhos dos outros, desses estranhos, que um dia me foram tão familiares. Meus olhos agora só procuram por uma porta, uma saída...

Hoje é dia de, apesar da distância, dar uma certa satisfação às pessoas que dividem esta casa comigo. Fico em dúvida se escrevo uma carta, se escrevo com batom em todos os espelhos dos banheiros, se ponho um recado na geladeira – bem ali, junto da foto do nosso último verão. Eu e meu corpo que não preenchia o biquini, e a cada onda mais forte lá se ia a parte de cima. Na foto, parecia divertido. Mas hoje não é mais, e minha condição não me deixa lembrança daquela menina que adorava construir castelos. Hoje não construo nada, nem castelo de cartas.

Amanhã é dia de nascer de novo. Num outro lugar, quem sabe até mais bonita. Mais saudável de corpo e mente. Mais confiante. Quem sabe até eu nasça numa família de pessoas conhecidas. Nasça homem e tenha com o que preencher o calção de banho.

Mas hoje, nada de cartas. Nada de espelhos de banheiros riscados com batom. Nada de recado junto à foto do último verão. Eu não sei fazer isso. Nunca soube o que dizer a eles. Hoje não vai ser diferente. Afinal, o que se diz quando se precisa morrer?

Meus olhos acharam, enfim, a saída. Não era uma porta, mas a janela serviu.

Sobremesa: "Não terei podido fazer-te viver isto/ escrevo assim mesmo para você que me lê/ porque é uma maneira de quebrar o cerco/ de te pedir que procures em ti mesmo se não tens também um desses gatos/ desses mortos que amaste/ e que estão nesse aí que já me exaspera mencionar com palavras de papel." (Julio Cortázar)

16 de novembro de 2004

Sleep darling, do not cry
Raquel Medeiros

Da última vez
Trocamos sorrisos pequenos
E abraços amenos
Que não eram meus nem seus.

Agora vês!
Nem abraços nem beijos na despedida
E na hora da partida
Respondestes o meu “até breve”
Com um “adeus”.

Sobremesa: Lutar contra a foice do tempo é vão/ tentar esconder a tristeza é covardia/ hoje é dia de sangrar o coração/ é dia de admitir que amanhã pode ser de alegria/ mas hoje não. (Raquel Medeiros)

11 de novembro de 2004

A difícil condição
Raquel Medeiros

Os gatos vêm aqui com suas unhas afiadas
As pessoas sentam com suas aflições
Sentam com seus cigarros e me queimam o braço
E ainda tem quem ache fácil ser sofá...

As pessoas discutem seus problemas
Discutem sobre o cardápio
Discutem sobre o assoalho
E me batem com os punhos
E ainda tem quem ache fácil ser mesa...

As pessoas vêm com seus pesadelos
Com seus sonhos bizarros
Trazem qualquer um pra deitar em mim
E me causam insônia
E ainda tem quem ache fácil ser cama...

Os gatos vêm com suas unhas afiadas
As pessoas vêm com seus problemas
Discutem o cardápio, o assoalho
Me batem com o punho
E me causam insônia
E ainda tem quem ache fácil ser gente...

Sobremesa: "Traz qualquer coisa de sobremesa/ pudim ou torta de limão/ que às vezes cansa ser assim/ às vezes eu não quero ser são/ tudo o que faço é zombar de mim/ é rir da eterna condição/ e disso tudo ter um fim/ a paixão e a batida do coração/ bom é quando morre o sentimento ruim/ e no lugar fica o perdão/ se isso não fizer sentido/ esquece, que é coisa de coração doído/ não tenta encontrar razão". (Raquel Medeiros)

9 de novembro de 2004

Balanço das perdas
Raquel Medeiros

- O que nós perdemos nessa vida, Maria?
- Perdemos nosso filho mais novo, contrariando as leis naturais, num acidente de automóvel.
- Perdemos nosso filho mais velho, morto pela “quantidade excessiva de substâncias tóxicas em seu sangue”, disse o médico. Mas acho que ele morreu de tristeza, porque a Amália o deixou, e ainda levou as crianças – nossos netos. Perdemos nossos netos também, que nesse momento devem estar brincando na neve em algum país europeu.
- Você perdeu seus cabelos negros. Eu perdi o viço da pele. Você perdeu o vigor e boa parte da sua capacidade auditiva. Eu perdi a rigidez dos seios e a visão num dos olhos. Você perdeu o campeonato de futebol. Eu perdi o show do Roberto.
- Você esqueceu nosso filho do meio, querida.
- Não esqueci, Horácio, mas ele nós ainda não perdemos.
- Ele nos esqueceu, Maria...
- Assim é a vida, querido... Um dia os filhos acabam esquecendo os pais... Vão embora, casam-se, batem a porta e não voltam mais... É verdade que no caso do Fernando fomos nós quem batemos a porta pra ele... O colocamos num lugar onde todos são esquecidos, onde todos estão perdidos....
- É, no final das contas, perdemos o Fernando também... Põe aí na lista, Maria...

Sobremesa: "Deus sabe o que eu quis foi te proteger/ do perigo maior que é você/ e eu sei que parece o que não se diz/ no seu caso é o tempo passar/ quem fala é o doutor/ (...) / e foi difícil ter que te levar aquele lugar/ como é que hoje se diz/ você não quis ficar/ os poucos que viram você aqui/ me disseram que mal você não faz/ e se eu numa esquina qualquer te vir/ será que você vai fugir?/ se você for eu vou correr/ se for eu vou..." (Los Hermanos)

8 de novembro de 2004

O amor que a gente tinha
Raquel Medeiros

Não me peça pra calar agora. Essa é a minha hora de falar, está bem escrito aqui, no roteiro. Eu não preciso ter um final triste. Também está escrito aqui.
Onde foi que meu personagem se perdeu do teu? Foi na hora da mudança?! Eu devia saber... Senti que algo tinha ficado no caminho, tinha se perdido. Nos perdemos.
Quando ouvi o barulho abafado de vidro quebrado, achei que fosse algum prato, algum copo. Mas nem era, era o amor que a gente tinha...
Eu pensava que ele era forte, que resistiria ao tempo e ao vento, à má-sorte... Ele não resistiu a mudança. Caiu naquela rua, como é mesmo o nome? ... Desesperança.

Sobremesa: "Se a comida não estiver na temperatura adequada/ pode estar certo que mais cedo ou mais tarde vai estragar/ e se ainda sim, você quiser saboarear/ por insistência/ por persistência/ pra ver o que dá pra aproveitar/ tenha em mente que certas coisas quando estragam não tem geladeira ou fogão que dê jeito/ e se você comer/ pode sentir vontade de vomitar". (Raquel Medeiros)

4 de novembro de 2004

O duelo
Raquel Medeiros

Saudade rima com maldade
Saudade faz a hora sempre ser tarde
Saudade que causa alarde
Saudade que zomba da minha vontade.

Vontade rima com liberdade
Vontade faz a hora sempre ser eternidade
Vontade que causa felicidade
Vontade que desafia a minha saudade.

No desfecho desse duelo
O sarcasmo perde para o belo
Vacila a saudade que embaralha o verso
Prevalece a vontade que deixa tudo eterno.

Sobremesa: "Dentro dos meu braços/ os abraços hão de ser milhões de abraços/ apertado assim/ colado assim/ calado assim/ abraços e beijinhos/ e carinhos sem ter fim". (Tom Jobim)

3 de novembro de 2004

As man(ias) de Cícero
Raquel Medeiros

Foram três facadas, em pontos estrategicamente escolhidos. Ela era assim mesmo – meticulosa, presa a detalhes, pormenores, ponto e vírgulas.
Quando estavam juntos, Olivia observava em Cícero coisas que foram deixando a convivência insuportável. A maneira como ele pegava a xícara - o mindinho formando um ângulo de 45 graus com a asa. A maneira como ele lavava a louça – os pratos antes dos copos. As camisas brancas misturadas às camisas coloridas. Ela odiava isso tudo.
Questionava-se como poderia ter casado com ele. Não o teria feito se soubesse dessas pequenas – grandes coisas. Casou com um homem que não conhecia.
Começou a ficar com medo dele. Apavorada. “Do que ele seria capaz?. Alguém que gosta de feijão gelado é capaz de qualquer coisa”, pensava.
Um dia, quando Olívia chegou em casa, encontrou Cícero preparando um molho branco com a mesma colher com a qual ela mexia os doces. Aquilo foi a gota d’água.
Olívia foi lentamente até a gaveta dos talheres, pegou a faca de cortar carne, chamou a atenção do Cícero, e deu o primeiro golpe, certeiro, no mindinho. “Agora você não levanta mais esse maldito”. Depois foi nas mãos. “Onde já se viu usar colher de mexer doces pra mexer molhos salgados?”. A terceira foi num dos olhos. “Já que você não consegue diferenciar o branco das outras cores, talvez não precise de dois”.
Cícero – desesperado – perguntou a Olívia a razão de toda aquela fúria. Ela disse que ele era um louco, e que ela tinha medo do que ele poderia fazer com ela. Aqueles não eram hábitos de pessoas normais.
Ele disse que a amava. E ela disse “Vá embora, Cícero, aproveite que você ainda tem os pés”.
E assim acabou o único casamento de Olívia. Com três facadas, em pontos estrategicamente escolhidos. Ela era assim mesmo – meticulosa, presa a detalhes, pormenores, ponto e vírgulas.

Sobremesa: "A gente sempre destrói aquilo que mais ama/ em campo aberto ou em uma emboscada/ alguns com a leveza do carinho/ outros com a dureza da palavra/ os covardes destroem com um beijo/ os valentes com uma espada". (Oscar Wilde)

28 de outubro de 2004

O pior dos atrasos
Raquel Medeiros

Cheguei tarde. Sei que cheguei. Não uso relógio. Não tenho um. Passei na banca e o jornaleiro só me disse que era tarde.
Eu devia saber. Sempre cheguei atrasada. Na aula, no trabalho, no médico, no jantar. E na tua cama não ia ser diferente.
Quando entrei no teu quarto, já tinhas vivido, amado e dormido. Lençóis amassados, com um cheiro que se misturava ao seu, mas não era o meu.
E o que faço agora? Me deprimo?
Sei que a partir de hoje não me reprimo mais. Não engulo mais o choro, não seguro a risada, não guardo mais o beijo. Que é pra não chegar tarde de novo... Que é pra não acabar antes do começo. Que é pra o fim fazer a sua parte quando realmente for o fim, quando meu amor já estiver gasto.

Sobremesa: "Estou sozinho que nem esse gato/ e muito mais sozinho ainda porque eu sei disso/ e ele não". (Julio Cortázar)

27 de outubro de 2004


O que eu adoro em ti é essa timidez que não cansa,
e teu sorriso - o mais bonito que já vi.

* Esse é Thiago Leal, na foto, com 2 anos... Hoje ele tem um pouco mais que isso, mas não perdeu esse jeito tímido... nem a doçura (mesmo negada)... Amo muito esse menino... =****************

Ao verde dos teus olhos e ao azul dos teus sonhos
Raquel Medeiros

A gente passa a vida inteira
Tentando encontrar a semelhança
Entre o adulto que perdeu a graça da brincadeira
E a criança que tinha tanta esperança.

Entre o adulto que na correria
Perdeu o movimento da dança
E não achou parceria
Para os sonhos de infância.

Mas não se afobe
Que um dia a gente acha
E tenha cuidado pra que teu adulto não afogue
A criança que deixa a gente mais leve
E torna a vida mais vasta.

Sobremesa: "Pra você faço uma prece/ pra que a dança nunca seja solitária/ pra que depois da tempestade venha sempre a bonança/ pra que a dor nunca seja autoritária/ e pra que alma seja sempre de criança" (Raquel Medeiros)

21 de outubro de 2004

Just one
Raquel Medeiros

Catarina viu Venâncio na rua. Dois anos desde a última vez, no dia em que terminaram. Ela estava no ônibus, com seu inseparável discman. Ele, andando na calçada. Usava os mesmos óculos escuros, o mesmo jeito de andar de quem está com medo que lhe dirijam a palavra. A mesma cabeça escondida entre os ombros.
Ela lembrou de quando estavam juntos, e ele falava de outros mundos, e coisas que ela sequer imaginava que existissem. Ela adorava. E acreditava. E queria viajar mais.
Ela ouvia o som da música dele mesmo na ausência. Ouvia a sua voz mesmo que ele não falasse. Ouvia o seu choro mesmo quando ele sorria. Ela adorava. E acreditava. E queria ouvir mais.
Ele dizia que eles eram inatingíveis, imensuráveis. Ela adorava. E acreditava. E queria ser mais.
Mas de repente eles já não viajavam, não se ouviam, nem eram nada juntos. Ela queria ir pra Barcelona e ele pra São Petersburgo; ele queria ouvir Wagner, e ela, Lou Reed; ela queria não ter medida, e ele queria um corpo menor pois a alma estava perdida.
Sentiu uma certa saudade de quando ouviam Bowie cantar “we can be heroes”, e hoje, no discman de Catarina, Bowie sempre repete “just one day”. Just one.

Sobremesa: "Ai daqueles que se amaram sem nenhuma briga/ aqueles que deixaram que a mágoa nova virasse a chaga antiga/ ai daqueles que se amaram sem saber que amar é pão feito em casa/ e que a pedra só não voa porque não quer/ não porque não tem asa". (Paulo Leminski)

20 de outubro de 2004

Lorena e sua sagrada vocação de faminta
Raquel Medeiros

Viu o corpo dele na fotografia
Parecia tão leve...
Ela tinha inveja mesmo era dos traços
Que não saiam da pele dele...

Através da foto – o espionava e o absorvia
Era vontade de sorver seu beijo
Era vontade de que passasse o dia
E que a noite viesse para efetivar o desejo.

Lembrava do quanto é bom quando ele está por perto
De quando brincam de ficar mudos...
O resto do mundo vira deserto
E nos olhos dele esquece tudo...

Queria livrar-se da poesia insuficiente
Que só fazia ausência
Queria que a poesia fosse eficiente
E construísse a sua presença.

Pedia repouso para as saudades
E dela, tinha dó
Pois sabia, que mesmo contra sua vontade
Não a deixava só.

Pedia compaixão
Que ele não lhe faltasse por tanto tempo...
Que dentro dela não havia um relógio; e sim um coração
E que cansava tê-lo só em pensamento.

Sobremesa: "Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida." (Clarice Lispector)

19 de outubro de 2004

"Bate outra vez com esperanças o meu coração"... Sim, as rimas estão de volta. =)

Vivo num morro... vivo, não morro
Raquel Medeiros

Morava num barraco rosa
Era uma tentativa de trazer a alegria
Era uma tentativa de trazer poesia
Pra sua vida cheia de prosa.

Seu vizinho era um velho sambista
Que dizia que “as rosas não falam”
Pois no jardim do artista
O perfume da amada, as rosas roubaram.

Januária tinha nome de canção
Aquela pra quem o sol desponta
Pra quem o sol aponta
Uma graça da qual nem tinha noção

Mas ao contrário da Carolina
Januária não esperava na janela
Sabia que pra se encontrar
Precisava ir além da esquina
Sabia que ir além tornava a vida mais bela.

Sobremesa: "Toda a gente homenageia/ Januária na janela/ até o mar faz maré cheia/ pra chegar mais perto dela". (Chico Buarque)

18 de outubro de 2004


..."olhos são mais dados a segredos". (Paulo Leminski)

Nada aqui é meu, com exceção da sobremesa e do sinal... o desenho é de Rafael Queiroz... a legenda é do Paulo Leminski... o prato principal é de Julio Cortázar...

"Me olhas, de perto me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam entre si, sobrepõem-se e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água..."

Sobremesa: "E nesses olhares infinitos/ nessas reticências falantes/ ele mergulhou dentro dela, e tirou uma grande âncora/ fincada num dos abismos dos amores de antes". (Raquel Medeiros)

13 de outubro de 2004

A pedido de João, uma sobremesa doce... porque já chega o ácido do limão. =)

À falta de melhor nome
Raquel Medeiros

Às vezes ela ficava assim mesmo, sem freios, sem medida. Febril, delirava e transpirava vontade. Bastava um olhar, um leve morder de lábios, e lá estava ela - hipnotizada, fora de si; dentro do outro.
Os contornos; a falta de adornos. Cada centímetro de pele era uma descoberta - a cor, a textura, os pêlos. Tocava, beijava e contemplava cada pedacinho, como se quisesse gravá-los na mente, para as horas de fuga, nas noites de insônia. Horas de fuga?! Para ela, eram horas de encontro. De querer ser um só...
Júlia tentava fugir da passiva rotina que a esmagava, lembrando dos beijos e dos abraços. Da saliva falando ao ouvido. Das respirações confundidas. De ver seus olhos nos dele. Tantas e tantas noites tentando recordá-lo - olhos, boca, pele, sorriso, costas, nuca, cheiro e gosto. E quando, raramente, conseguia fazê-lo, ficava frustrada de não ter o toque. Ela sempre soube que pensar em feijoada não matava a fome. Sabia também que quando a gente sente o cheiro da comida, a boca saliva. A fome aumenta e fomenta o desejo.
Dieta severa de segunda à sexta. E a esperança de ter um banquete no fim-de-semana fazia com que ela não esmorecesse, não morresse de fome. Não tinha medo de vê-lo e sorvê-lo até a última gota. Não tinha medo de uma possível indigestão. O que a amedrontava era a solidão. Era a possibilidade de não tê-lo.

Sobremesa: "Põe a roupa de festa/ que hoje vamos dançar/ pois tudo o que nos resta/ são as risadas que a gente dá/ são as mágoas que a gente consegue findar/ não esqueça nunca, querida/ por mais danças solitárias/ que tenhas tido na vida/ a partir de hoje/ me tens sempre como par". (Raquel Medeiros)

11 de outubro de 2004


É proibido estacionar qualquer cor que não seja cinza

*A foto é de Gustavo Soares (não tenho certeza se ele assina assim). Valeu Guguinha =*******
www.fotolog.net/hum_rum

Colours
Raquel Medeiros

O dia cinza como ele só. Não estava frio. Estava cinza. Ponto. E eu querendo um pouco de cor. Uma que fosse, mesmo que fosse num tom bem devagarinho.
Choveu e eu fiquei esperando o arco-íris, pra ir lá e roubar um vermelho, um verde, ou um azul. Qualquer cor na verdade, contanto que não fosse esse cinza...
Eis que o bendito aparece. Andei. Andei muito. E quando já estou bem perto, vem a chuva novamente e desfaz o arco-íris. “Não podia esperar um pouquinho não?”. Eu nem queria o tal pote de ouro, não precisava. Queria só um pouco de cor.
Esperei a chuva passar lá mesmo, de pé. Água. Frio. Resisti. Muita água. Tanto frio... Desisti. Voltei pra casa cinza como o dia. E pior, peguei uma pneumonia, que me deixou ainda mais sem cor...

Sobremesa: "Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..." (Clarice Lispector)

8 de outubro de 2004

O Mágico de OZ e o nosso eterno lamento
Raquel Medeiros

Como dói essa ausência!
Essa eterna saudade que parece não cessar
Porém pior é o homem de lata
Que não tem coração para amar.

Como dói a compunção!
Por ter feito o que não devia fazer
Porém pior é o leão
Que não tem coragem de boas ações cometer.

Como doem esses meus calos!
Essas feridas que teimam em não cicatrizar
Porém pior é o espantalho
Que não tem cérebro que mande o prazer chegar.

Tantas lamúrias que chego a recordar
Que o espantalho, o leão e o homem de lata
Indo pedir ao Mágico o que lhes fazia falta
Descobrem que talvez não tivessem tanto o que reclamar.

E penso que pior que ser como o espantalho, o leão
E o homem de lata
É ter cérebro, coragem e coração
E ainda achar que a vida é ingrata.

Sobremesa: "A gente pede/ faz prece/ no copo d'água, a turbulência parece tempestade/ a gente busca um ideal de felicidade/ amor - dor + liberdade - responsabilidade + dinheiro - dívida + prazer - sofrer / e quando falta uma pitada de sal na comida/ tudo parece pela metade/ e a gente já não vê mais sentido na lida/ a gente já não vê mais graça em viver". (Raquel Medeiros)

6 de outubro de 2004

Insônia
Raquel Medeiros

O mal que me desanima
Devagarinho assim
Quisera fosse o Muro de Berlim
E não a Muralha da China.

À noite passada me visitou
Como alguém que tivesse morrido
E que não quer ser esquecido
Veio e ficou.

Se alastra como uma peste
Que remédio nenhum acaba
Às vezes parece um teste
Pra ver se meu corpo desaba.

Como teimosa eu sou!
Admito que às vezes fico cansada
Mas o prazer de me ver derrotada
Ah, este eu não lhe dou!

Sobremesa: "O olho acessa mas não recorda/ a mente se esforça tentando lembrar/ a insônia não cessa/ e a conversa dá corda/ pra coisas que o corpo insiste em desejar". (Raquel Medeiros)

* Valeu pela ajuda, Li... Por todas elas... =)

4 de outubro de 2004

Gênero predileto
Raquel Medeiros

E você pergunta meu tipo de filme predileto
Gosto de qualquer gênero, drama ou ação
Desde que o mocinho nem sempre seja reto
Que haja aqui e ali uma bifurcação.

E que no final haja um beijo ou uma morte
Pra que eu saiba que algo vai mudar
E que a música triste só toque
Se for pra me fazer chorar.

Que a mocinha goste de orquídeas ou girassóis
E que o mocinho até saber disso, lhe traga sempre rosas
Que é pra eu saber que as horas penosas
Um dia acabam desatando os nós.

Sobremesa: "Não me importo se a mocinha termina bem/ desde que ela seja humana/ e que dependendo da circuntância/ possa cometer um assalto/ ou jogar tudo para o alto/ que ela tenha alguma ferida/ que seja pervertida/ que tenha algo triste/ porque ser humano sem isso não existe/ a dor e o amor vêm pra todo mundo/ é a condição humana que insiste". (Raquel Medeiros)